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Digitalizado por Rosiane





Ronda Noturna
(Nigth Shift)
Nora Roberts

NIGHT TALES 01


Este Livro faz parte do Projeto_Romances, sem fins lucrativos e de fs para fs. A comercializao deste produto  estritamente proibida.


Resumo

A beleza de uma mulher pode excitar os homens at a loucura...
Sua voz provocante acende-lhe a chama do desejo. Mas seus olhos tm tambm uma expresso de desconcertante inocncia  uma combinao de anjo e demnio que leva
os homens ao delrio. E o investigador de polcia Boyd Fletcher sente-se cada vez mais atrado pela estonteante locutora de rdio Cilla 0'Roarke. Distncia e profissionalismo,
ordena a si mesmo.
"Estou aqui para proteg-la de um louco assassino, no para me envolver sentimentalmente."
As mos de Boyd deslizam pelos quadris de Cilla, amoldando-os aos seus. Ele quer ouvi-la gemer que tambm o ama e deseja. Contudo, o psicopata quer conspurcar a
beleza de Cilla. Boyd no pode se distrair com este inebriante momento de paixo, se no quiser perder sua amada para sempre!





CAPITULO I

A voz era sexy, rouca, com um ligeiro sotaque sulista. Perfeita para o rdio. Qualquer cidado de Denver sintonizado naquela freqncia teria a impresso de que
ela falava s para ele.
 Ol notvagos de todo o Colorado. So vinte e trs horas e cinqenta e nove minutos e vocs ouvem a KHIP, rdio Yankee. Preparem seus gravadores para uma seqncia
de cinco sucessos sem interrupo. Aqui fala Cilla O'Roarke, e a seleo  toda dedicada a voc.
Seu tom intimista e aveludado tornara-se marca registrada do horrio.
Cilla apertou o boto do mixador e comeou a rodar o primeiro sucesso prometido. Num segundo a msica preencheu o silncio da cabine. Ela poderia ter tirado os fones
do ouvido e aproveitado os vinte e trs minutos e vinte e dois segundos para descansar, porm, preferia ficar ali ouvindo a cano. Seu amor pela msica era apenas
um dos fatores de seu sucesso no rdio.
A voz era um atributo natural, um presente de Deus. Com este dom to especial conseguira seu primeiro emprego numa estao no interior da Gergia, apesar de no
ter nenhuma experincia anterior nem diploma universitrio. O dono da rdio, no entanto, ficara impressionado com seu tom cristalino e sua disposio de trabalhar
por um salrio irrisrio. Contratada para o perodo integral, trabalhava como locutora e servia, ainda, como recepcionista e datilgrafa. Uma espcie de quebra-galho
da emissora.
Dez anos mais tarde, vrias outras qualificaes haviam se somado  voz, formando um vasto currculo. Mas, o tom inconfundvel e o carisma continuavam a distingui-la.
Com o progresso na carreira, nunca lhe sobrara tempo para obter o diploma em comunicaes, que tanto queria. Porm, com empenho e talento aprendera outras funes
e era capaz de substituir colegas reprteres, engenheiros de som, entrevistadores, diretores de programao. A memria privilegiada e o gosto pelo assunto lhe conferiam
uma capacidade invejvel de memorizar ttulos de msicas, nomes de cantores, datas de gravaes. Havia dez anos seu mundo girava em torno do rdio.
O lado descontrado e envolvente que Cilla revelava atravs do rdio quase nada tinha a ver com sua verdadeira personalidade. No dia-a-dia, era uma mulher dinmica,
organizada, ambiciosa, que nunca dormia mais do que seis horas por noite. J Cilla O'Roarke, locutora da KHIP, rdio Yankee, era uma garota sexy e misteriosa, amiga
das celebridades do mundo do disco, dona de um posto invejado por muitos. Em sua vida particular, no passava de uma mulher comum, trabalhando uma mdia de dez horas 
por dia. Fazia de tudo para que a irm menor cursasse as melhores escolas e havia dois anos no namorava.
Candidatos no faltavam; era uma questo de opo.
Pondo os fones de ouvido sobre a mesa de mixagem, reviu a programao escalada para o bloco seguinte de quinze minutos. Enquanto os dez primeiros sucessos da parada 
tocavam, a cabine ficou silenciosa. Ali havia apenas as luzes, os painis de controle e Cilla. Era assim que gostava de trabalhar.
Ao assumir o posto na KHIP de Denver seis meses atrs, lutara para ficar com o horrio das vinte e duas s duas da madrugada, que normalmente era dedicado aos apresentadores 
principiantes. Famosa e j contando com dez anos de experincia, poderia ter escolhido qualquer outro horrio de maior audincia. Cilla, porm, preferia trabalhar 
 noite e nos ltimos cinco anos j se tornara conhecida dos ouvintes do horrio.
Gostava de ficar sozinha na cabine, enviando sua voz e os melhores sucessos para os solitrios e insones.
De olho no relgio, recolocou os fones e pigarreou. Entre o final da quarta msica e a introduo da quinta, deu o prefixo da estao e a freqncia. Depois de uma 
pequena pausa para as notcias, j previamente gravadas e enviadas por uma agncia internacional, comearia sua parte preferida do programa: os pedidos telefnicos 
dos ouvintes.
Cilla gostava de ver os aparelhos se iluminarem a cada toque, gostava de escutar os ouvintes. Eram cinqenta minutos que passava fora da cabine, convivendo mais 
de perto com os que a ouviam. Uma prova de que, do outro lado do rdio, havia milhares de pessoas de verdade, comuns, sintonizadas no programa.
Recostada na cadeira giratria, acendeu um cigarro e aproveitou aqueles ltimos momentos de silncio.
Sua calma era apenas aparente. Tampouco fazia o gnero mulher fatal, como poderiam pensar os ouvintes. Era uma pessoa cheia de energia e dinamismo. No usava maquiagem 
nem esmalte, alegando falta de tempo. Enquanto fumava e relaxava, mantinha os olhos cor de mel quase fechados. Os clios longos e curvados eram herana do pai, um 
sonhador. Os traos fortes e angulosos contrastavam com a pele alva. Os cabelos escuros, longos e ondulados, eram normalmente presos ou puxados para trs por causa 
dos fones de ouvido.
Sempre atenta ao relgio que marcava os minutos transcorridos, apagou o cigarro, bebeu um gole de gua e abriu o microfone. No alto da porta, o sinal verde "NO AR" 
acendeu.
 A seleo que acabaram de ouvir foi para todos os apaixonados que me ouvem, acompanhados ou no. E se voc est s, no desanime: saia e v  procura da sua alma 
gmea. Esta  Cilla O'Roarke falando pelo rdio Yankee do Colorado. Volto num instante com o seu pedido.
Ao acionar o comando da fita com os comerciais, Cilla olhou para o lado:
 Ol, Nick. Como vai?
Nick Peters, o estudante universitrio que atuava na estao como estagirio, ajeitou os culos de armao escura sobre o nariz.
 Tirei dez na prova de literatura.
 Puxa, que bom!  Cilla aceitou a xcara de caf que ele lhe ofereceu.  Continua nevando?
 No, parou h quase uma hora.
Ela assentiu e relaxou. Preocupava-se com a irm mais nova, Deborah, que s vezes tinha aulas  noite.
 As estradas devem estar pssimas, no?
 Nem tanto. Quer comer algo com o caf? Cilla sorriu, preocupada demais para notar o olhar de verdadeira adorao que o rapaz lhe dirigia.
 No, obrigada. Coma umas rosquinhas amanhecidas antes de ir embora.
No instante seguinte, abriu o microfone e voltou a falar. Nick a observava ler os textos com as promoes dos patrocinadores e as chamadas da estao. Sabia que 
era estupidez mas estava apaixonado por Cilla 0'Roarke. Considerava-a a garota mais linda do mundo. Perto dela, as colegas da faculdade no passavam de umas bobocas 
desengonadas. Cilla era forte, sexy, bem-sucedida. E mal notava sua existncia. Quando o fazia, era sempre com cortesia e um sorriso amigvel.
Havia trs meses vinha ensaiando um modo e a melhor hora de convid-la para um jantar romntico. Mal podia esperar para t-la s para si, a seu lado, a noite toda. 
S os dois.
Cilla, porm, nem imaginava o que lhe passava pela idia. E se soubesse, ficaria muito mais surpresa do que lisonjeada. Nick s tinha vinte e um anos; sete a menos 
do que ela. Cronologicamente. Porque em termos de maturidade, Nick mais parecia um adolescente. Contudo, ela o admirava por sua eficincia, empenho e dedicao ao 
trabalho.
No havia uma noite sequer que ele deixasse de lhe trazer um caf antes de ir embora. Era infalvel. Nick a servia,se despedia e a deixava s, respeitando seu gosto 
pela solido. 
Nick olhou para o relgio:
 Bem... At amanh.
 Hum? Ah, sim. Boa noite, Nick.  Quando o rapaz cruzou a porta, Cilla j tinha a ateno voltada para um dos telefones que comeava a piscar.  KHIP, estamos no 
ar.
 Cilla?
 Isso mesmo. Quem fala?
  Kate.
 Do onde voc est telefonando, Kate?
 De casa, aqui em Lakewood. Meu marido  motorista de txi e trabalha de madrugada. Ouvimos seu programa todas as noites. Eu gostaria de ouvir Peaceful Easy Feeling. 
Ofereo para o meu marido, Ray.
 Perfeito, Kate. Um abrao para vocs. Obrigada e boa noite.  Outro boto foi apertado:  KHIP, estamos no ar.
A rotina era sempre tranqila. A cada telefonema, Cilla anotava o nome da msica e a quem seria dedicada.
O pequeno estdio com meia parede de vidro era repleto de prateleiras com discos, cassetes e CDs, todos etiquetados para facilitar o acesso. Depois de uma srie 
de telefonemas, entrava no ar um bloco de comerciais, durante os quais Cilla pegava os pedidos e os organizava na seqncia.
Alguns ouvintes telefonavam quase todas as noites e, com esses, Cilla batia um papo breve. Outros, eram solitrios que ligavam apenas para ouvir uma voz do outro 
lado da linha. No meio desses, aparecia de vez em quando algum luntico maluco ou inoportuno. Ao ouvi-los, Cilla, desligava imediatamente. Em tantos anos de programa 
com telefonemas e ao vivo, nunca houve uma noite montona.
Adorava aquele contato mais prximo com o ouvinte, a conversa informal, as brincadeiras simpticas. Ali, protegida pelas quatro paredes da cabine de controle, Cilla 
se permitia uma intimidade maior com estranhos, coisa da qual jamais seria capaz pessoalmente. Quem a ouvisse, no entanto, nunca poderia suspeitar que fosse uma 
moa tmida e insegura.
 KHIP, estamos no ar.
 Cilla.
 Sim? Fale mais alto, por favor. Qual o seu nome?
 No importa.
 Tudo bem, amigo.  De repente, as palmas de suas mos comearam a suar, obrigando-a a sec-las na perna da cala. Algo lhe dizia que teria problemas com aquele 
ouvinte. Portanto, manteve um dedo no boto que cortava a ligao.  Qual msica gostaria de ouvir?
 Voc vai ter de pagar pelo que fez, sua idiota. Vai ter de pagar. Quando eu tiver terminado, voc vai me agradecer por t-la matado. Voc nunca vai esquecer.
Cilla ficou paralisada de medo e, maldizendo aquele momento de fraqueza, cortou a ligao quando o tal sujeito comeou a falar uma srie de palavres. Respirando 
fundo, recuperou o controle e manteve a voz inalterada:
 Puxa, tem muita gente mal-humorada por a. Se  voc, sargento Mark, prometo que pagarei aquela multa por ter estacionado em local proibido, est bem? Esta aqui 
vai para Joyce e Henry.
Cilla soltou o sucesso mais recente de Bruce Springsteen e, recostando-se na cadeira, tirou os fones de ouvido. Suas mos tremiam.
"Boba".
De p, comeou a retirar das prateleiras os discos com as msicas da seleo seguinte. Com tantos anos de experincia, j no devia mais se perturbar com esse tipo 
de trote. Todas as noites aparecia, no mnimo, uma chamada dessas, Cilla aprendera a se livrar dos engraadinhos que lhe faziam propostas, dos exibicionistas que 
falavam obscenidades, e dos bbados com a mesma facilidade com que mexia nos controles.
Fazia parte da rotina, disse a si mesma. Principalmente em se tratando de uma apresentadora de programa noturno, quando aparece toda sorte de esquisitice.
Porm, surpreendeu-se olhando por sobre o ombro atravs do vidro escuro da cabine, tentando enxergar o corredor. E no viu nada alm das luzes fracas e das suas 
sombras projetadas no assoalho. Apesar do suter pesado, comeou a suar frio. Estava absolutamente sozinha.
"E a porta da estao est bem trancada", relembrou enquanto empilhava as msicas j na seqncia certa. O alarme permanecia ligado a noite toda e, caso disparasse, 
duas viaturas da polcia chegariam em questo de minutos. O lugar era mais seguro que um cofre de banco.
Ainda assim, Cilla olhou para um dos telefones que comeou a piscar e teve medo.

A neve havia cessado, mas seu cheiro caracterstico pairava na atmosfera fria. Cilla gostava de manter uma janela meio aberta e o rdio a todo volume enquanto dirigia. 
O vento e a msica a acalmavam.
No foi surpresa encontrar Deborah de p  sua espera. Ao estacionar na passagem lateral da casa que comprara havia seis meses, viu as luzes todas acesas, o que 
a deixou aborrecida e aliviada.
Aborrecida porque Deborah devia estar preocupada. Por outro lado, era um alvio ver a casa iluminada j que a rua do pacato subrbio estava praticamente s escuras. 
Girando a chave no contato, desligou o motor e, em seguida, o rdio. Aquele breve instante de silncio total deixou-a apavorada.
Revoltada com a prpria insegurana, fechou o carro e subiu depressa a escada. Deborah veio receb-la na porta da varanda.
 Ei, j esqueceu que tem aula amanh s nove horas?  Cilla indagou ao pendurar o casaco no cabide junto  entrada. A sala cheirava a chocolate quente e lustra-mveis. 
Deborah sempre inventava uma faxina quando ficava nervosa.  O que est fazendo acordada at esta hora?
 Cilla, eu ouvi aquele homem.
 Ora, meu bem.  Voltando-se, Cilla abraou a irm to querida. Deborah era uma adolescente ajuizada, estudiosa, mas Cilla reconhecia que ainda a tratava como criana. 
 Quantos telefonemas iguais quele j recebi! Voc sabe, isso acontece.
 Ele parecia bastante ameaador, Cilla.  Apesar de mais baixa, Deborah abraava a irm procurando acalmar-se. As duas eram um pouco parecidas, a boca, principalmente. 
Tinham os mesmos lbios carnudos e sensuais. Os traos de Deborah, porm, eram mais suaves, e os olhos, muito azuis, refletiam sua preocupao.  Voc deveria chamar 
a polcia.
 Polcia?  Como a idia no houvesse lhe ocorrido, Cilla deu uma gargalhada.  S por causa de um telefonema obsceno? Sou uma mulher moderna, liberada, capaz de 
me cuidar. Afinal, estamos quase no ano 2000.
Deborah enfiou as mos nos bolsos do robe.
 No estou brincando!
 Est bem, est bem. Deborah, eu e voc sabemos que a polcia no poderia fazer nada. Foi apenas um maluco que resolveu ligar para uma estao de rdio de madrugada.
A irm suspirou e deu-lhe as costas.
 A voz dele era horrvel, fiquei muito assustada.
 Eu tambm. Deborah riu com sarcasmo:
 Voc nunca se assusta. 
"Isso  o que voc pensa."
 Mas, desta vez, confesso que sim. Fiquei to nervosa que me atrapalhei com os botes e deixei que a ligao entrasse no ar.  Lapso que certamente lhe custaria 
uma advertncia no dia seguinte.  Mas o tal sujeito no voltou a ligar. O que prova que era apenas um trote. Agora, v dormir  pediu, alisando-lhe os cabelos crespos. 
 No vai conseguir se tornar a melhor advogada do Colorado se passar as noites em claro.
 S irei se voc for tambm.
Mesmo sabendo que no conseguiria dormir aquela noite, Cilla concordou pelo bem da irm:
 Combinado.

O quarto estava muito escuro, iluminado apenas pelas luzes de umas velas espalhadas pelos mveis. Ele gostava daquela atmosfera mstica, do brilho trmulo das chamas. 
Apesar de pequeno, o quarto tinha as paredes cheias de quadros e trofus que ganhara no passado. Na estante, havia flmulas desbotadas pelo tempo, fitas amassadas, 
fotos, cartas. Sobre os joelhos, tinha uma faca de caa cuja lmina refletia as luzes das velas. Ao lado, sobre a colcha de croch, um revlver calibre trinta e 
oito automtico bem limpo.
Ele olhava para a foto emoldurada em suas mos e chorava, falava, blasfemava. Aquela fora a nica pessoa a quem amara e, agora, s lhe restava uma foto de recordao.
John. To puro, to ingnuo. Iludido por uma garota. Usado, Trado.
Mas, no ia ficar assim. Ela ia pagar pelo que fizera. Pagaria at o fim. Antes, porm, ainda ia sofrer muito.

O telefonema, um nico, se repetia todas as noites. No final da semana, Cilla tinha os nervos  flor da pele e j no conseguia encarar o fato com bom humor, dentro 
ou fora do rdio. Felizmente, j era capaz de reconhecer a voz, fria, spera, carregada de dio, e cortava a ligao assim que a ouvia.
Apavorada, Cilla escondia o rosto entre as mos, consciente de que no dia seguinte ele voltaria a insistir. Os chamados dos ouvintes, que antes lhe causavam tanta 
alegria, agora a amedrontavam. O piscar dos aparelhos a deixava apreensiva e sobressaltada.
Ento, comeava a se perguntar o que teria feito para ser alvo de tais ameaas.
Depois de pr no ar o cassete com as notcias gravadas e os comerciais, s duas da madrugada, correu os dedos pelos cabelos. Seu sono que sempre fora breve e leve, 
praticamente desaparecera na ltima semana. A insnia comeava a afetar-lhe os nervos, o humor e a capacidade de concentrao.
O que teria feito?
A pergunta a atormentava. O que podia ter feito para suscitar tanto dio em algum? Reconhecia que, s vezes, era um pouco rude ou impaciente com as pessoas, insensvel 
at. Mas nunca magoara algum de propsito. Pelo que o tal sujeito queria faz-la pagar? Que crime, real ou imaginrio, teria cometido para despertar tal sede de 
vingana em algum?
Pelo canto dos olhos, Cilla notou um movimento. Uma sombra maior dentre as outras do corredor. Em verdadeiro pnico, levantou-se depressa batendo o quadril num console. 
A voz do manaco, que ligara havia apenas dez minutos, ecoava em sua memria. Lentamente o trinco da porta do estdio foi girando.
No havia como escapar.
 Cilla?
Com o corao disparado e a boca seca ela soltou o corpo na cadeira maldizendo o prprio descontrole.
 Mark.
 Me desculpe se a assustei.
 Voc quase me matou, isso sim.  Com esforo, pousou uma das mos sobre o peito e sorriu para o diretor da emissora. Mark era um homem de meia-idade considerado 
lindo pela maioria absoluta das garotas. Tinha os cabelos pretos muito bem penteados com o auxlio de um gel brilhante, um eterno bronzeado e se vestia na ltima 
moda.  O que est fazendo aqui a esta hora?
 Precisamos ter uma conversinha sobre esses telefonemas.
 J tivemos uma reunio h menos de trs dias e eu falei que...
 Sim, falou. No s para mim, mas para todos aqui na rdio.
 No vou tirar frias  Cilla afirmou virando-se na cadeira para fit-lo.  No tenho para onde ir.
 Todo mundo tem um lugar para ir.  Ela ia protestar, porm Mark a impediu.  No quero mais discutir este assunto. Sei que vou soar arrogante mas sou seu chefe.
Cilla puxou a barra da camiseta.
 O que vai fazer? Me despedir?
Mark no percebeu que ela prendera a respirao. Embora a conhecesse havia alguns meses, no sabia que atrs da aparncia de mulher confiante e liberada escondia-se 
uma garota ingnua. Sob presso, fatalmente recuaria. Mark, no entanto, apreciava seu trabalho. O programa era lder de audincia e trouxera vida  estao.
 Despedi-la no seria bom para nenhum de ns.  Cilla soltou a respirao.  Oua, estamos todos preocupados com voc.
Suas palavras a tocaram e a surpreenderam.
 O tal manaco s fala. 
"Por enquanto".
Virando a cadeira em direo  mesa de controles, preparou-se para tocar a prxima msica.
 No vou ficar parado de braos cruzados vendo um de meus funcionrios ser molestado. J chamei a polcia.
Cilla pulou da cadeira.
 Droga! Mark, j lhe disse que...
 Sim, disse. No vamos mais discutir, est bem? Voc faz parte de meu quadro de funcionrios e a considero minha amiga.
Ela tornou a sentar-se, batendo as botas no cho.
 Claro. Espera um momento.  Esforando-se para se concentrar no que dizia, Cilla anunciou o prefixo da estao e o sucesso seguinte, depois, desligou o microfone. 
 Voc tem trs minutos e quinze segundos para me convencer.
  simples: o que este manaco est fazendo  contra a lei. J deveramos ter tomado uma providncia, a coisa est indo longe demais.
 Se o ignorarmos, ele desistir.
 Sua ttica no est funcionando.  Mark apoiou uma das mos no ombro de Cilla e massageou-lhe os msculos rijos do pescoo.  Portanto, vamos experimentar a minha. 
Vou lhe dar duas alternativas: ou fala com os policiais ou tira umas frias relmpago.
Derrotada, Cilla ergueu os olhos e ensaiou um sorriso:
 Voc tambm manda na sua esposa desse jeito?
 Claro.  Mark sorriu e beijou-lhe e testa.  Ela adora homens decididos.
 Com licena.
Cilla, assustada, pulou da cadeira e olhou para a porta. O casal ali parado a olhava de modo impassvel, com uma frieza profissional.
A moa parecia ter sado das pginas de uma revista de moda. Tinha os cabelos avermelhados cados pelos ombros e um par de brincos de safira que combinava com o 
tom de seus olhos. A pele lisa, era como porcelana. Seu tipo era mignon porm slido, sem nada de frgil, e ela usava um tailleur de estampa suave.
O homem a seu lado parecia ter acabado de sair de uma fazenda. Os cabelos loiros e sem corte cheios de reflexos claros provocados pelo sol, se debruavam, despenteados, 
sobre o colarinho da camisa jeans. A cala, de um brim azul mais escuro, era justa nos quadris e nas coxas. Displicente, ele se recostou no batente da porta enquanto 
sua companheira permanecia ereta, em estado de alerta. Usava um par de botas bem riscadas e um palet esporte sobre a camisa. Sua fisionomia era sria, contrada.
Cilla surpreendeu-se estudando-o mais tempo do que deveria. O moo tinha o rosto magro e uma covinha no queixo. A pele bronzeada lhe conferia uma aparncia saudvel 
de quem vivia ao ar livre; a boca era larga e fina. Os olhos, de um verde cristalino, a fitavam intensamente.
 Sr. Harrison  disse a moa, e Cilla notou um brilho divertido em seu olhar quando se aproximou.  Acho que j lhe demos tempo suficiente.
Cilla lanou um olhar severo para o patro:
 Voc me falou que tinha telefonado para a polcia, mas eu no sabia que eles estavam esperando a fora.
 Agora, j ficou sabendo.  Ele mantinha a mo em seu ombro. S que agora, com o intuito de cont-la.
 Esta  a srta. O'Roarke.
 Sou a investigadora Althea Grayson e este  meu parceiro, investigador Boyd Fletcher.
 Mais uma vez, obrigado por terem esperado  agradeceu Mark, fazendo-lhes sinal para que entrassem.
O investigador aprumou-se preguiosamente.
 Eu e o investigador Fletcher estamos acostumados com este tipo de situao. Agora, gostaramos de ter maiores detalhes sobre o que vem acontecendo.
 Como j expliquei, a srta. O'Roarke vem sendo perturbada por uns telefonemas annimos aqui na rdio.
 Algum desocupado  acrescentou Cilla, irritada.  Mark no deveria t-los incomodado por causa desta bobagem.
 Cilla.  Cansado e ansioso por voltar para casa, Mark fez uma careta.  Vamos cooperar, sim?  E voltou-se para os policiais:  Os telefonemas comearam no programa 
de tera-feira passada. A princpio no demos muita ateno, mas as chamadas vm se repetindo. A mais recente foi esta noite,  meia-noite e trinta e cinco.
 Voc conseguiu gravar?
Althea Grayson tirou do bolso o bloco de anotaes.  Depois do terceiro telefonema, comecei a grav-los  disse Mark, e Cilla arregalou os olhos, admirada. Ele, 
no entanto, deu de ombros.  Sabem como , achei melhor nos precavermos. As fitas esto no meu escritrio.
Boyd meneou a cabea.
 Pode ir, Althea. Enquanto isso, vou anotar o depoimento da srta. 0'Roarke.
 Por favor, coopere, sim?  Mark pediu a Cilla antes de sair acompanhado por Althea.
Aproveitando a pausa, Cilla apanhou um mao de cigarros todo amassado, tirou um e o acendeu com gestos nervosos. Fletcher encheu os pulmes com a fumaa. Parara 
de fumar havia seis meses, treze dias e doze horas.
 Fumar faz mal para a sade  ele comentou.
 Eu sei.  Cilla soltou outra baforada e o estudou.  Quer meu depoimento?
 Sim.
Curioso, ele esticou a mo para mexer num boto da mesa de controle. Automaticamente Cilla deu-lhe um tapinha nos dedos:
 Tire as mos da. 
Fletcher achou graa.
Ela pegou a primeira fita da pilha e introduziu-a no toca-fitas. Abrindo o microfone, fez um breve comentrio sobre a msica que terminava, deu o prefixo da estao 
e anunciou a seleo seguinte.
 Vamos logo, porque no gosto de companhia enquanto trabalho.
 Voc  bem diferente do que eu imaginava.
 O que disse?
"Diferente mesmo", ele pensou. "Para melhor."
 J ouvi seu programa algumas vezes  comentou  vontade. Na verdade, j a ouvira muitas vezes. J perdera diversas horas de sono ouvindo aquela voz sensual e envolvente, 
que incitava fantasias deliciosas.  Eu a imaginava alta.  E mediu-a com o olhar desde os cabelos ondulados, passando pelas curvas at o bico das botas.  Acho 
que nisso, acertei. Mas pensava que voc fosse loira, os cabelos compridos at a cintura, os olhos azuis, personalidade... vibrante.
Fletcher riu diante da expresso de aborrecimento que viu nos olhos de Cilla. E que lindos olhos castanhos. De fato, a realidade superava em muito a fantasia.
 Sinto t-lo desapontado.
 Eu no falei que fiquei desapontado.
Cilla deu uma longa tragada no cigarro e soltou lentamente a fumaa na direo de Fletcher. Tinha bastante prtica em se livrar de homens inoportunos e desencorajar 
os mais audaciosos.
 Afinal, voc quer ou no quer maiores detalhes sobre o que vem acontecendo?
 E para isso que estou aqui.  Fletcher pegou um bloco com um lpis no bolso do palet.  Pode falar.
Com frases curtas e voz controlada ela explicou cada telefonema em detalhe, citando as datas e as mensagens. Enquanto falava, trocava os cassetes no toca-fitas, 
soltava uma seqncia de comerciais e selecionava novas msicas.
Fletcher anotava tudo, admirado com sua memria. Certamente poderia conferir tudo nas gravaes, mas acreditava que teria muito pouco a acrescentar. Pessoas assim 
facilitavam seu trabalho.
 H quanto tempo a senhorita est em Denver?
 Aproximadamente seis meses.
 J fez algum inimigo?
 No. S me lembro de ter batido a porta na cara de um vendedor insistente que queria me vender uma enciclopdia.
Fletcher observou-a por entre os clios. Ela tentava encarar o assunto com naturalidade, mas nem bem apagara o cigarro e j comeava a roer as unhas das mos.
 Terminou algum relacionamento amoroso? 
 No.
 Tem namorado?
Mais uma vez ela se irritou:
 Voc  investigador. Descubra sozinho.
 Eu descobriria se fosse uma questo pessoal.  Fletcher voltou a fit-la de modo to penetrante e sensual que as mos de Cilla comearam a suar.  No momento, 
s estou cumprindo meu dever. Rejeio e cime so responsveis por muitos casos como este. De acordo com o que acaba de me contar, os comentrios desse tal sujeito 
sempre se referem  sua vida sexual.
Cilla admirava e cultuava a sinceridade, mas se recusava a revelar-lhe que no tinha aquilo que ele chamava de vida sexual h muito tempo.
 No estou envolvida com ningum no momento.
 timo  ele afirmou e, sem erguer os olhos do papel, acrescentou:  Esta foi uma observao pessoal.
 Olhe aqui, investigador, eu...
 Calma, calma, srta. 0'Roarke, foi s um comentrio e no um convite. Estou aqui a servio e preciso de uma lista com os nomes dos homens com quem manteve um contato 
pessoal nos ltimos tempos. De seis meses para c, digamos. No precisa incluir o vendedor de enciclopdias.
 No mantive contato pessoal com nenhum homem, nem pretendo manter.
 Nunca ningum lhe disse que o desejo no precisa ser recproco?  "Como o que sinto por voc, por exemplo."
De repente, Cilla sentiu-se abater por um cansao sbito e inexplicvel. Ento, correu as mos pelos cabelos e reuniu a pouca pacincia que lhe restava.
 Oua: no  preciso ser muito esperto para saber que esse homem se apaixonou pela minha voz. Ele nem me conhece; provavelmente nunca me viu. No passo de uma imagem 
que ele criou. Isso  muito freqente na vida das pessoas que trabalham no rdio. No fiz nada para provoc-lo.
 Eu no disse nada  Fletcher falou num tom calmo e tranqilo que a levou s lgrimas.
Furiosa, ela lhe deu as costas. S podia ser cansao, dizia a si mesma.
"Que garota valente", pensou Fletcher. O modo como curvava as mos  cintura procurando conter as emoes era muito mais sexy e tentador do que qualquer suspiro 
desolado.
Sua vontade era aproximar-se e dizer-lhe algo que a confortasse, acariciar-lhe os cabelos. Mas Cilla lhe daria uma mordida na mo se tentasse se aproximar.
 Quero que pense calmamente no que fez nos ltimos meses e veja se encontra algo, um acontecimento banal, que seja, que pudesse provocar tal reao no autor dos 
telefonemas.  Ele readquiria o tom frio e impessoal do comeo.  No podemos convocar todos os homens de Denver para averiguaes. No  assim que trabalhamos.
 Sei muito bem como  que a polcia trabalha. 
Fletcher franziu os olhos diante daquelas palavras amargas.
 Acha que conseguiria reconhecer a voz dele se a ouvisse de novo?
 Claro.
 H algo de familiar na voz ou no modo como ele fala?
 Nada. Ele fala baixo e de um modo... sibilante.
 Voc se incomodaria se eu voltasse amanh  noite durante o programa?
 Muito.
 Bem, ento vou ter de falar com seu chefe. Revoltada, ela pegou o mao de cigarros, mas Fletcher segurou-lhe a mo. Cilla fitou os dedos longos que se entrelaavam 
aos seus e sentiu o corao disparar.
 Deixe-me cumprir minha misso, Cilla. Ser mais fcil para todos se voc permitir que eu e Althea tomemos conta de tudo.
  Ningum toma conta de mim.
 Ento, oua o que digo.  
Antes que ela pudesse det-lo Fletcher esticou o brao e prendeu-lhe uma mecha de cabelo atrs da orelha.  V para casa e descanse bastante.
 Pode deixar, sei me cuidar muito bem.
Apesar das reclamaes, Cilla no conseguiu dissuadi-lo da idia de esper-la terminar o programa e acompanh-la at o carro, fechando as janelas e trancando as 
portas.
Instantes depois da partida de Cilla, Althea se juntava a Fletcher no estacionamento.
 E ento?  perguntou, pousando uma das mos no ombro do parceiro num gesto cheio de companheirismo.  Qual o veredicto?
 Ela  valente, fechada e teimosa  Fletcher falava, pensativo, as mos enfiadas nos bolsos.  Acho que  um caso de amor.







CAPITULO II

Boyd Fletcher a elogiava mentalmente enquanto observava Cilla trabalhar. A facilidade com que mexia nos botes e nos controles da mesa denotavam a experincia profissional. 
Ora tocava uma seleo de msicas, ora introduzia uma fita com comerciais gravados. A intervalos predeterminados, ligava o microfone para dar o prefixo da estao. 
Sua cronometragem era perfeita.
As unhas rodas at a carne eram um indcio indisfarvel da ansiedade e da agitao que ela sempre tentava ocultar. Para no falar na hostilidade com que o tratava, 
deixando claro que desaprovava sua presena ali. J estavam juntos na cabine havia duas horas, e Cilla mal lhe dirigira a palavra.
Fletcher, no entanto, limitava-se a observ-la e saborear um caf amargo. Como policial, j estava acostumado a ser hostilizado por certas pessoas.
Gostava da profisso e coisas tais como tratamento hostil, cara feia e guerra de nervos no o abalavam. Ou seja, era muito mais fcil lidar com emoes negativas 
do que ser alvo de uma bala calibre trinta e oito. Falava por experincia prpria pois j se deparara com as duas situaes.
Embora no pudesse ser considerado um filsofo, gostava de analisar tudo e todos ao seu redor, procurando entend-los melhor. Seu hbito era fruto de uma crena 
inabalvel no certo e no errado; no justo e no injusto. Ou, ainda, no bem e no mal. Por outro lado, tinha conscincia de que tudo no universo  relativo.
A vida de policial o fizera entender que o crime na verdade compensava. E muito bem. Sua satisfao era saber que a recompensa, no entanto, durava pouco. No importava 
que fossem necessrios seis dias ou seis meses para prender um criminoso, pois o resultado final era sempre o mesmo: os bons venciam os maus.
Esticando as longas pernas para a frente, continuou folheando o livro em suas mos, enquanto a voz morna de Cilla enchia a cabine. Seu tom macio trazia-lhe  mente 
imagens calmas de um riacho correndo, uma cadeira de balano na varanda, um passeio ao luar numa noite quente de vero. Em compensao, a energia e a agitao que 
emanava contrastavam de modo gritante com toda essa paz. Mas Fletcher, um otimista, contentava-se em cultivar o lado bom das coisas.
Sua simples presena ali a deixava nervosa. Ainda que calado, sentado num canto, ele a incomodava. Cilla soltou a fita com os comerciais, verificou a sequncia programada 
para aquela noite e deliberadamente o ignorou. Ou, pelo menos, era o que vinha tentando fazer desde que chegara.
No gostava que ningum ficasse ali na cabine durante o programa. Embora ele se mantivesse quieto, atento  leitura, o menor movimento de Fletcher a distraa. Assim 
que o viu abrir o livro, pensou tratar-se de uma destas aventuras policiais, porm surpreendeu-se ao v-lo ler um romance famoso de um autor conceituado. Mas, nem 
assim sua presena era bem-vinda. No dava para fingir que os telefonemas ameaadores haviam cessado, que tudo no passara de um trote, que sua vida voltaria ao 
normal. Bastava v-lo ali ao lado para manter o pesadelo bem vivo em sua mente.
No espao mnimo da cabine, Cilla era obrigada a esticar o brao por sobre sua cabea toda vez que queria pegar uma fita na prateleira do fundo. Um gesto antes to 
rotineiro e automtico era agora motivo de sobressalto e agitao.
Cilla se ressentia de sua presena ali, de sua intromisso e do fato de ele ser um policial.
Entretanto, sabia que no devia misturar opinies pessoais com obrigaes profissionais. Ambos estavam ali a servio.
 Vocs acabaram de ouvir mais um grande sucesso do conjunto The Rascais. Bom dia, Denver. So exatamente zero hora e dois minutos do dia vinte e oito de maro. 
A temperatura l fora est bem baixa mas, aqui dentro, o calor humano est sempre presente. Voc est ligado na KHIP, a rdio que toca mais msicas por hora. Logo 
aps o noticirio, comearemos a atender os pedidos telefnicos. Fique ligado.
Fletcher esperou at que ela transmitisse as notcias e fizesse uma chamada ao vivo para ento marcar a pgina do livro e levantar-se. Ao sentar-se numa cadeira 
giratria ao lado de Cilla, sentiu a tenso crescer na cabine.
 No quero que interrompa a ligao, caso ele telefone.
Ela se retesou e tentou manter a voz natural.
 Meus ouvintes no se interessam por esse tipo de show, Fletcher.
 Mas voc pode mant-lo na linha s atravs dos alto-falantes internos, sem p-lo no ar, certo?
 Sim, mas eu no quero...
 Corte para um comercial ou ponha uma msica ele sugeriu sem querer interferir no trabalho dela  porm mantenha-o na linha. Talvez tenhamos sorte e consigamos 
localiz-lo.
Cilla tinha as mos fechadas sobre o colo quando olhou para os dois aparelhos telefnicos, que j comeavam a piscar. Sabia que Fletcher tinha razo e o odiava por 
isso.
  No acha que  muita chateao s por causa de f  um luntico intil?
 No se preocupe  ele garantiu sorrindo.  Estou acostumado a lidar com todo tipo de gente. Uns do mais trabalho, outros, menos.
Cilla olhou para o relgio, pigarreou e abriu o microfone:
 Bom dia, Denver. Aqui  Cilla 0'Roarke falando atravs da KHIP, a estao mais quente o ano todo. E aqui est sua chance de aquecer ainda mais nossa programao. 
Nossos telefones esto no gancho aguardando sua ligao e seu pedido musical. Nosso nmero  cinco cinco cinco, cinco quatro, quatro sete. 
Os dedos dela tremeram ligeiramente ao apertar o boto da primeira ligao.
 Al? Quem fala?
 Oi, Cilla, aqui  Bob, de Englewood.
Ela fechou os olhos e suspirou. Bob era um dos ouvintes habituais.  Ol, Bob, como vai?
 Tudo timo. Minha esposa e eu estamos completando hoje quinze anos de casados.
 Aposto como muita gente deve ter lhe dito que no passariam do primeiro ano, certo? Que msica voc gostaria de dedicar  sua esposa?
 Cherish. Vou dedic-la a Nancy com muito amor.
 Excelente escolha. Parabns para vocs. Sempre com o lpis na mo, Cilla atendeu o segundo telefonema, depois o terceiro. A cada novo chamado, Fletcher a via prender 
a respirao. Simptica, sempre tinha uma palavra amiga ou uma brincadeira simptica para com todos os ouvintes, mas s Fletcher ali na cabine a via plida e trmula. 
Na primeira interrupo, ela aproveitou para pegar um cigarro e lutou para acender um fsforo. Sem uma palavra, ele tirou-lhe a caixinha da mo e riscou o palito, 
acendendo-lhe o cigarro.
 Est se saindo bem.
Cilla deu uma tragada demorada e soltou a fumaa depressa. Fletcher aguardou pela resposta em silncio,
 Voc  obrigado a ficar a me olhando o tempo todo?
 No  ele assegurou com um sorriso lento e sensual que provocou uma reao imediata em Cilla.  Fao isso porque quero.
 No sei como no se cansa dessa profisso.
 Gosto muito do meu servio.  Fletcher apoiou o tornozelo direito no joelho esquerdo. Muito mesmo.
Cilla percebeu que era mais fcil conversar com ele do que ficar olhando, apreensiva, para os aparelhos piscando. Fletcher tinha uns olhos... calmos. Escuros e calmos. 
Olhos de quem j vira muita coisa e aprendera a conviver com o que via. Havia no fundo do seu olhar uma fora serena, do tipo que atraa as mulheres. Algumas mulheres. 
Ele devia ser do tipo protetor, que jamais inicia uma briga, que sempre tem uma palavra de conforto.
Irritada com o prprio comportamento, ela desviou a ateno e voltou a remexer nas anotaes. No precisava que ningum a protegesse ou a confortasse. Tampouco brigasse 
por sua causa, havia muito tempo aprendera a tomar conta de si mesma.
 A vida de um policial no deve ser nem um pouco agradvel  comentou.
Ele se remexeu na cadeira, e seus joelhos se roaram.
 A maior parte do tempo no . Instintivamente ela recuou a cadeira uns centmetros
para trs.
 No consigo entender por que algum permanece dez anos num trabalho to difcil e desagradvel.
 J me acostumei.
Ela deu de ombros e abriu o microfone:
 Esta cano, Bill dedicou a Maxime. So zero hora e vinte minutos e nossa linha continua aberta. O nmero  555-5447.
 Depois de um breve suspiro, Cilla apertou um boto;  Al, quem fala?
As coisas transcorriam to bem que ela comeou a relaxar, Os telefonemas se sucediam na rotina de todas as noites, e Cilla foi readquirindo a descontrao costumeira, 
voltando at mesmo a se deliciar com as canes.
As luzes piscantes dos aparelhos telefnicos j no lhe pareciam ameaadoras e, por volta da zero hora e quarenta e cinco minutos, Cilla teve certeza de que no 
teria mais problemas.
S uma noite. Se ele deixasse de ligar uma s noite, jamais voltaria a ligar. Com os olhos fixos no relgio, ela contava os minutos. Faltavam apenas oito para que 
seu horrio terminasse, e Jackson assumisse os microfones. Cilla s pensava em chegar em casa, tomar um banho quente e dormir.
 Al? Quem fala?
 Cilla.
A voz sibilante e abafada deixou-a gelada. Automaticamente, ela levou o dedo ao boto que interrompia a ligao, porm Fletcher segurou-lhe o pulso e balanou a 
cabea. Por um instante, ela pensou que o pnico fosse domin-la. Fletcher continuava a segurar-lhe o pulso, fitando-a com seus olhos serenos.
Reagindo, Cilla colocou uma fita de comerciais no ar e passou o som da ligao para os alto-falantes internos.
 Sim.  O orgulho a fez sustentar o olhar que Fletcher lhe dirigia.  Aqui  Cilla quem fala. O que voc quer?
 Justia. S justia.
 Como assim?
 Quero que pense bem. Quero que pense e se torture antes que eu a alcance.
 Por qu?  A mo dela se curvou sob a de Fletcher que, num gesto tranqilizador, entrelaou os dedos aos de Cilla.  Quem  voc?
 Quem sou eu?  O riso sarcstico e metlico vindo do outro lado da linha deixou-a arrepiada.  Sou sua sombra, sua conscincia. Seu assassino. Voc tem de morrer, 
mas s quando entender. A, sim, acertaremos as contas. S que ainda vai demorar e no vai ser nada fcil. Voc vai ter de pagar pelo que fez.
 Mas, o que foi que eu fiz? Diga, pelo amor de Deus! 
Ele disse uma srie de palavres e desligou, deixando- a chocada. Com uma das mos ainda pousada sobre a de Cilla, Fletcher discou um nmero.
 Conseguiu localiz-lo?  perguntou, ansioso e suspirou.    Sim.  Entendo.  Obrigado.   E  desligou, voltando-se para Cilla:  A ligao foi muito rpida; a central 
no teve chance de localizar a origem do chamado. Mas, no desanime.
Cilla, atordoada, mal conseguia ouvi-lo, mas assentiu. Num gesto mecnico, virou-se para o microfone, esperando que o comercial terminasse.
 Amigos, por hoje, vamos ficando por aqui.  uma hora e cinqenta e sete minutos e ainda tenho tempo de tocar uma ultima cano. Escolhi um grande sucesso de Tina 
Turner para animar este princpio de manh. Continuem na KHIP onde Jackson, o locutor da madrugada, lhes far companhia. Esta foi Cilla Roarke. Boa noite e bons 
sonhos.
Cansada, Cilla empurrou o microfone e forou-se a se levantar, apoiando-se na mesa de controles. "Pronto, j acabou", disse a si mesma. Agora, era s descer, pegar 
o carro e voltar para casa, como fazia todas as noites. Ento, por que naquela madrugada aquilo lhe parecia to difcil?
Jackson entrou na cabine e deteve-se, hesitante, junto  porta. Havia duas semanas ele vinha usando um bon de beisebol para ocultar um recente transplante de cabelo.
 Ol, Cilla. Foi uma noite difcil, no? Ela lhe dirigiu um sorriso plido:
 Confesso que tive melhores.  E, respirando fundo, aprumou-se.  J deixei os ouvintes bem animados para voc, Jackson.
 Obrigado. V com calma, garota.
 No se preocupe. Eu estou bem.
O zumbido em seu ouvido aumentou quando Cilla virou-se para pegar o casaco pendurado perto da porta. Os corredores estavam s escuras recebendo apenas uma fraca 
claridade vinda do hall, onde as luzes de segurana permaneciam acesas. Cilla piscou os olhos vrias vezes, desorientada e quase no notou quando Fletcher segurou-a 
pelo cotovelo.
O ar frio da noite a fez sentir-se melhor. J no ptio do estacionamento, respirou fundo diversas vezes, recuperando as foras.
  Meu carro est para l  disse quando Fletcher comeou a pux-la na direo oposta.
  Voc no est em condies de dirigir.
  Estou tima, j falei.
  Perfeito. Ento, o que acha de irmos danar?
  Oua...
  Oua voc!  Fletcher no tinha notado at ento, mas estava nervoso, furioso mesmo. Cilla tremia e, apesar do vento frio, tinha as mas do rosto absolutamente 
brancas. Presenciar um dos tais telefonemas fora bem diferente que ouvir as gravaes. A seu lado, na cabine, pde v-la perder a cor e arregalar os olhos ao receber 
o chamado. E o pior: no pde fazer nada para ajud-la.  Voc mal consegue parar de p, Cilla, e no vou permitir que volte para casa dirigindo.  J prximo de 
seu carro, Fletcher abriu a porta de passageiro.  Entre. Vou lev-la at sua casa.
Ela afastou uma mecha de cabelo que lhe caa nos olhos.
  Est cumprindo seu dever de me proteger, certo?
  Isso mesmo. Agora entre, antes que eu a prenda por me impedir de exercer meu dever.
Como seus joelhos continuassem fracos e trmulos, Cilla resolveu aceitar a carona. Tudo o que queria era um pouco de paz, num quarto escuro, sob as cobertas. S 
assim poderia gritar bem alto e extravasar aquela angstia que trazia no peito. Porm, assim que viu Fletcher sentar-se ao volante, virou-se no banco.
  H poucas coisas que me desagradam mais do que um policial.
  O qu, por exemplo?  ele quis saber ao dar a partida.
  Homens que mandam em mulheres s por se julgarem superiores. Para mim, no se trata apenas de um dado cultural mas, sim, de pura estupidez. Na minha conta, voc 
est com dois pontos negativos, investigador Fletcher.
Fletcher curvou-se para o lado obrigando-a a recostar-se de novo no assento. Por um instante, viu-a arregalar os olhos, admirada, supondo que ele fosse beij-la.
De fato, quase no resistira ao impulso de provar aqueles lbios midos que certamente combinavam com a voz sensual. Porm, limitou-se a puxar-lhe o cinto de segurana 
para poder fech-lo.
Cilla soltou a respirao quando o viu retomar o volante. Fora uma noite tensa e perturbadora, recordou-se. Caso contrrio, jamais teria reagido daquela forma diante 
da intimidao de um homem qualquer.
Suas mos voltaram a tremer. O motivo no a preocupava, apenas a fraqueza em si.
-  No gosto do modo como faz as coisas, Fletcher,
  No precisa gostar.  Cruzando a sada do estacionamento, Fletcher reconheceu que Cilla comeava a perturb-lo, o que era um erro.  Faa o que digo e nos daremos 
bem.
  No costumo obedecer ordens de ningum  revidou.  E no preciso que um tira de segunda linha com complexo de John Wayne me diga o que fazer. Foi Mark quem o 
convocou e no eu. No preciso nem quero os seus servios.
Ele brecou diante de um semforo vermelho.
  Voc  um bocado inflexvel.
-  Se pensa que vou me desesperar s porque um luntico me diz uma poro de besteiras e me faz ameaas, est muito enganado.
  No acho que voc vai se desesperar, Cilla. Nem espere que eu a console caso isso acontea  mentiu.
-  timo. Perfeito. Posso lidar com esse maluco sozinha. Agora, se voc gosta de ouvir esse tipo de coisas...  Pasma consigo mesma, Cilla calou-se sem completar 
a frase. Escondendo o rosto entre as mos, respirou fundo trs vezes e baixou os braos.  Me desculpe.
  Desculp-la, por qu?
  Por estar descontando em voc. Ser que pode estacionar um minuto?
Sem vacilar, Fletcher aproximou-se da calada e parou o carro.
  Preciso me acalmar antes de chegar em casa.  Num esforo deliberado para se descontrair, fechou os olhos e pendeu a cabea para trs.  No quero deixar minha 
irm preocupada.
Era difcil conservar a raiva e o ressentimento vendo a fera se transformar em cordeiro. Mas se sua intuio no falhava, algo lhe dizia que Cilla reagiria com violncia 
a qualquer demonstrao de pena.
  Quer um caf?
 No, obrigada.  Seus lbios se curvaram num sorriso breve.  J tomei muito caf por hoje.  Cilla soltou a respirao bem devagar. A agitao tinha passado, 
e ela voltava a recuperar o senso de realidade.  Sinto muito, Fletcher. Voc s est tentando cumprir seu dever.
  Exatamente.
Cilla abriu os olhos e o estudou por instantes. Ento, abriu a bolsa  procura de um cigarro e confessou:
  Estou apavorada
Suas mos voltaram a tremer, dificultando-lhe o simples gesto de acender cigarro. Era intil tentar ocultar o que sentia.
  Com razo.
  Tenho muito medo.  Ela soltou a primeira baforada enquanto observava um carro descer a avenida em alta velocidade.  Ele quer mesmo me matar. S percebi isso 
hoje.  Um arrepio a estremeceu.  Seu carro tem aquecimento?
Ele ligou a ventilao na potncia mxima.
   melhor que fique apavorada.
  Por qu?
  S assim concordar em cooperar conosco. 
Cilla sorriu. Desta vez, um sorriso aberto e franco que quase o fez perder o flego.
  No vou, no. Esta  apenas uma trgua. Assim que eu me recuperar, voltarei a agir como antes.
  Ento, vou tentar no me acostumar com toda esta... doura.  Mas, no ia ser fcil esquecer aquela expresso viva que seu olhar adquiria quando Cilla sorria, 
o tom morno de sua voz mansa, capaz de fazer um homem sonhar.  Est melhor?
  Bem melhor. Obrigada  agradeceu batendo a cinza do cigarro na janela.  Pelo que estou vendo, voc sabe onde eu moro.
  Claro. J esqueceu que sou investigador?
   uma profisso muito ingrata.  Cilla afastou os cabelos da testa e reconheceu que era melhor conversar. Enquanto falava, no tinha tempo para pensar em bobagens. 
 Por que no arranja emprego numa fazenda para recolher gado ou montar cavalos? Acho que combinaria melhor com sua personalidade.
Ele refletiu sobre o que acabava de ouvir.
  No sei se isso  um elogio. Cilla riu.
  Voc  bastante perspicaz.
  Sou mesmo, Priscilla.
-  Ningum me chama de Priscilla mais do que uma vez.
  Por qu?
Ela  lhe lanou um sorriso.
 Por que no respondo. Odeio este nome.
 Entendo. Quer me explicar uma coisa: por que voc no gosta de policiais?
 No, no quero  afirmou, virando-se para olhar pela janela lateral.  Gosto da noite  comentou mais para si mesma.  As pessoas fazem e dizem coisas que seria 
impossvel dizer ou fazer s trs horas da tarde. J no conseguiria mais me adaptar a um trabalho diurno, com dezenas de pessoas ao redor.
  J percebi que voc prefere a solido.
  No  bem assim. Gosto de algumas pessoas, mas no de todas.  Porm, Cilla no queria que a conversa girasse em torno de si. Preferia falar sobre ele e assim 
satisfazer sua curiosidade.  H quanto tempo voc trabalha no turno da noite, Fletcher?
  Aproximadamente nove meses  ele afirmou, fitando-a.  Nesse tempo j conheci muitas pessoas... interessantes.
Cilla deu uma gargalhada.
   verdade. Voc nasceu em Denver?
  Nasci e fui criado aqui.
 Gosto desta cidade  Cilla reconheceu, admirando-se com a prpria revelao.
Sua vinda  cidade no havia sido planejada. Viera apenas por se tratar de uma capital com excelentes escolas para Deborah e uma boa oportunidade de trabalho para 
si. Ainda assim, em seis meses, j fincara razes profundas ali no Colorado.
 Isso significa que pretende ficar bastante tempo por aqui?  Fletcher virou  esquerda, numa rua tranqila.  Andei pesquisando sua vida e vi que no costuma passar 
mais do que dois anos num mesmo lugar.
  Gosto de mudanas  ela disse num tom seco pondo fim  conversa. A idia de ter sua vida vasculhada por estranhos como se fosse uma criminosa a desagradava profundamente. 
Quando Fletcher estacionou em frente  casa, ela j soltava o cinto de segurana.  Obrigada pela carona, Fletcher.
Entretanto, antes que Cilla conseguisse abrir a porta, ele saiu, contornou o carro e foi ajud-la.
  Vou precisar das suas chaves. Cilla j as tinha em mos.
  Por qu?
  Para poder vir trazer seu carro pela manh. Ela balanou as chaves na mo e franziu a testa sob a luz da varanda. Fletcher imaginava como seria bom poder acompanh-la 
at a porta de casa depois de um encontro. Seria difcil manter as mos dentro do bolso e na certa s sossegaria depois de beij-la ali na varanda.
Na varanda coisa nenhuma! Ele a acompanharia at a sala, at o quarto, e a noite no terminaria com um simples beijinho de despedida.
Porm, esta noite, no haviam tido um encontro e no era preciso ser muito esperto para saber que Cilla no permitiria nenhum tipo de aproximao.
  As chaves, por favor  repetiu.
Cilla meditou bem sobre a questo e reconheceu que a sugesto dele era realmente a ideal. Ento, tirou uma chave da argola que continha vrias outras.
  Obrigada.
  Espere  Fletcher pediu pousando uma das mos espalmadas na porta antes que ela a destrancasse.  No vai me convidar para entrar e tomar um caf?
Cilla s balanou a cabea, sem se virar.
  No.
Seu perfume combinava com o cheiro da noite, Fletcher concluiu. Intenso, misterioso, deliciosamente intrigante.
  Ora, no est sendo nem um pouco gentil.
Ela recuperou o bom humor e respondeu com naturalidade:
  Eu sei. At qualquer hora, Fletcher.
Ele escorregou a mo espalmada e envolveu a de Cilla, pousada sobre o trinco.
  Voc no come?
O bom humor desapareceu, o que no foi motivo de surpresa para Fletcher. Contudo, ficou admiradssimo ao ver sua expresso de confuso e... timidez! Cilla, entretanto, 
se recomps to depressa quanto perdera o autocontrole, deixando-o com a impresso de que tudo no passara de excesso de imaginao.
  Uma ou duas vezes por semana.
  Amanh.
A mo dele continuava sobre a dela e Fletcher teve certeza de que o corao de Cilla batia acelerado.
  Pode ser.
  Venha jantar comigo.
Cilla surpreendeu-se ao ver-se absolutamente sem jeito. H anos no reagia daquela forma  proximidade de um homem. E foram anos de muita calma, muita paz. Para 
recusar um convite qualquer bastava que dissesse um simples no, o que nunca lhe fora motivo de constrangimento. No entanto, surpreendia-se ansiosa por perguntar-lhe 
a que horas viria busc-la!
Antes que o perguntasse, porm, caiu em si. ,
   um convite muito gentil, investigador, mas terei de recus-lo.
  Por qu?
  No costumo sair com policiais.
E, antes que voltasse atrs, entrou e fechou a porta.

Boyd Fletcher revirou os papis sobre sua mesa de trabalho e franziu a testa. O caso 0'Roarke no ficara apenas sob sua responsabilidade, porm no conseguia deixar 
de pensar no assunto. Ou melhor, em Cilla 0'Roarke, corrigiu-se, ansioso por um cigarro.
O policial veterano da mesa ao lado fumava como uma chamin enquanto falava com um batedor de carteiras. Fletcher respirou fundo torcendo para que um dia chegasse 
a detestar aquele cheiro.
Junto com a fumaa, respirou tambm o perfume barato de duas garotas sentadas num banco prximo.
Todos esses detalhes normalmente lhe passavam despercebidos. Naquela noite, no entanto, o impediam de se concentrar. Desde os aromas ao seu redor, o barulho das 
mquinas de escrever, dos telefones at os passos rpidos no corredor sempre movimentado.
Para completar, havia trs dias que a figura misteriosa de Priscilla Alice 0'Roarke no lhe saa do pensamento. Era intil tentar distrair-se. Talvez fosse pelo 
fato de passar vrias horas em sua companhia durante o programa. Ou por t-la visto baixar suas defesas. Ou, ainda, por ter constatado que ela no era indiferente 
 sua proximidade.
Talvez fosse, pensou. Ou, talvez, no.
Experiente, no era do tipo que se deprimisse por ter levado um no de uma garota. Afinal, tinha conscincia de que no era possvel agradar a todas. O fato de j 
ter agradado a um nmero razovel de mulheres em seus trinta e trs anos de vida j o satisfazia.
Porm, o problema todo estava em no ser correspondido pela nica mulher que, no momento, lhe interessava.
Voltando a mente para o trabalho, reconheceu que tinha uma misso a cumprir: descobrir o autor dos telefonemas annimos que a importunavam. Ele e Althea j haviam 
iniciado as investigaes comeando pelos j fichados na polcia pelo mesmo motivo, averiguando fatos e pessoas da vida de Cilla desde que chegara em Denver, interrogando 
discretamente seus colegas de trabalho.
At aquele momento, nada.
Era hora de aprofundar a investigao, constatou. Fletcher pegou o currculo de Cilla que deixara ali sobre a mesa e o examinou. "Interessante", concluiu depois 
de correr os olhos pelos dados principais. To interessante quanto a pessoa a quem pertencia.
Segundo o relato, ela iniciara sua carreira numa rdio desconhecida na Gergia, o que explicava o ligeiro sotaque sulista, e seguira para uma estao bem maior em 
Atlanta. Dali, fora para Richmond, St. Louis, Chicago, e ento, Denver.
"Ela gosta de mudar", pensou. Ou estaria fugindo de algo? Aquela era uma questo a ser pesquisada com mais calma.
Uma coisa ficava bem clara a quem quer, que lesse seu currculo: Cilla partira de sua cidade natal em busca do sucesso apenas com um diploma de segundo grau e muita 
vontade de vencer. No deve ter sido fcil para uma menina de dezoito anos, na poca, entrar para uma profisso predominanternente masculina.
  A leitura est interessante?
Althea sentou-se num canto da mesa do colega. Ningum na delegacia ousaria elogiar-lhe as belas pernas, contudo, no deixavam de admir-las.
   o currculo de Cilla 0'Roarke. E ento, j chegou a alguma concluso?
  A garota  muito corajosa e competente  Althea admitiu, sorrindo. Vrias vezes o ridicularizara por seu fascnio pela voz da locutora.  Gosta de fazer tudo 
a seu modo.  inteligente e muito profissional.
Fletcher tirou da gaveta uma latinha de balas de goma e despejou vrias na palma da mo.
  Isso tudo eu conclu por mim mesmo.
  No  s  disse Althea servindo-se de duas balas.  Ela est apavorada e tem um incrvel complexo de inferioridade.
  Complexo de inferioridade?  Fletcher fez uma careta e se recostou na cadeira.  No, no. Althea pegou mais uma bala.
  Ela faz o possvel para manter uma fachada de valentia mas, vez por outra, revela a verdadeira natureza. Intuio feminina, Fletcher. Voc tem muita sorte de 
trabalhar comigo.
Conhecendo-a bem, Fletcher sabia que Althea era bem capaz de terminar com as balas e tratou de guardar a latinha.
  Impossvel.  E apontou para os papis sobre a mesa.  Temos de encontrar esse sujeito de alguma forma.
  Cilla no gosta de falar sobre o passado.
  Ns a obrigaremos.
Althea pensou bem e mudou de posio, recruzando as pernas com graa.
  Quer fazer uma aposta? Nada a far abrir-se.
  No  assim.
  Hoje  sua vez de lhe fazer companhia.
  Ento, quero que comece a investigar as pessoas que   ela   conheceu  em   Chicago      pediu   Fletcher entregando-lhe uma pasta.  H o dono da emissora, o 
senhorio.  Sua inteno era ir muito alm do que estava escrito naquelas fichas, mas tinha de comear pelos fatos concretos.  Use seu jeitinho e faa com que os 
caras se abram.
  Isso  fcil.
De repente todas as atenes se voltaram para a porta, quando um guarda entrou trazendo consigo um marginal algemado que no parava de falar palavres.
  Puxa, esse lugar  fascinante.
Fletcher abanou a cabea e bebeu o ltimo gole de caf.
  Vou comear pelo caminho inverso, verificando a primeira rdio onde ela trabalhou. Se no acharmos alguma pista logo, o capito vai nos enforcar.
  Ento, vamos tratar de encontr-la. Nisso, o telefone tocou e Fletcher o atendeu.
  Investigador Fletcher.
  Fletcher.
Ele teria sorrido de satisfao se a voz sensual no tivesse vindo impregnada de medo.
  Cilla? O que houve?
  Recebi outro telefonema.  E riu, nervosa.  Grande novidade, no? S que desta vez, ele ligou para minha casa! Voc no imagina como estou assustada!
  Tranque as portas e fique calma. J vou para a.
  Obrigada. Veja se consegue chegar logo, sim?
  No levo mais do que dez minutos  prometeu, desligando o telefone.  Althea, vamos embora.






CAPITULO III

Cilla j havia recuperado a calma quando Althea e Fletcher chegaram a sua casa e no via motivo para t-los chamado. Ou melhor, para ter chamado Fletcher.
"Foi apenas um telefonema", dizia a si mesma caminhando entre a janela e a porta. Aquela situao j durava uma semana, tempo bastante para ter se acostumado. Se 
conseguisse manter o controle dando ao annimo a impresso de no se abalar com o que ouvia,o sujeito acabaria desistindo daquela brincadeira de mau gosto.
Seu pai lhe ensinara que aquela era a melhor forma de lidar com marginais. Sua me, por outro lado, achava mais fcil acertar-lhes um soco fulminante no queixo. 
Embora Cilla reconhecesse o valor das duas, achava que naquele caso a atitude passiva era a mais recomendvel.
Durante o ltimo telefonema, no entanto, admitia ter se descontrolado e acabara gritando com o tal sujeito, implorando que a deixasse em paz. Por sorte Deborah no 
estava em casa para ouvi-la.
Soltando os braos ao longo do corpo, sentou-se na poltrona com as costas bem retas. A mente tumultuada a impedia de refletir. Logo depois do chamado, correra para 
trancar as portas, desligara o rdio e fechara as cortinas. Sob a luz fraca do abajur, olhava assustada pelos quatro cantos da sala: as paredes que ela e a irm 
haviam pintado, os mveis que haviam escolhido. O ambiente e os objetos que j lhe eram familiares a acalmavam.
Em pouco mais de seis meses morando ali, ambas j comeavam ajuntar algumas quinquilharias; coisas que nunca haviam feito nos outros lugares onde moraram anteriormente. 
Mas, ali, a casa no era alugada, tampouco os mveis eram emprestados. Tudo ali lhes pertencia.
Talvez fosse por esse motivo que ambas tivessem comeado a enfeitar cada canto com um pea diferente: o vaso chins sobre a mesa de jantar, o bibel de loua na 
estante. Pequenas coisinhas que transformavam urna casa num lar.
Era a primeira vez que constituam um lar desde a morte dos pais, e Cilla no permitiria que uma voz annima do outro lado do telefone estragasse aquela felicidade.
  Mas,   o   que  fazer?   Como estivesse sozinha, permitiu-se um momento de desalento e ocultou o rosto entre as mos. Tinha de lutar. Porm, como lutar com algum 
que no conhecia nem podia ver? Seria melhor trat-lo com indiferena? No entanto, por quanto tempo conseguiria manter a farsa j que ele a perseguia at a casa?
E o que aconteceria quando ele parasse com as ameaas e partisse para a ao?
A batida brusca  porta assustou-a, fazendo-a pousar uma das mos no peito.
"Vou faz-la sofrer. Vou faz-la pagar."
 Cilla, sou eu, Fletcher. Abra a porta. Correndo os dedos pelos cabelos, Cilla se recomps e foi receb-lo.
 Oi. Puxa, vocs vieram depressa.  E voltou-se para Althea:  Como vai?  Ento, convidou-os a entrar e recostou-se contra a porta depois de tranc-la.  Foi bobagem 
t-los chamado aqui.
  Faz parte do nosso trabalho  explicou Althea Grayson, reparando no quanto era frgil a amardura de coragem atrs da qual Cilla se escondia.  Podemos sentar?
 Claro. Me desculpe.  Cilla apontou-lhes o sof e reconheceu no estar conseguindo passar-lhes a imagem de mulher forte que tanto prezava.  Aceitam um caf?
  No se incomode conosco  disse Fletcher acomodando-se no sof bege com almofadas azuis.  Conte-nos o que aconteceu, sim?
  Anotei tudo.  Os gestos nervosos ao caminhar at a mesa do telefone para pegar o bloco denunciavam sua agitao.   um hbito que adquiri trabalhando no rdio. 
Sempre que o telefone toca, j pego um lpis  justificou.
Na verdade, porm, no queria repetir a conversa de prpria voz.
  Deixe-me ver.
Fletcher pegou o bloco e leu o texto. Seus msculos se enrijeceram num misto de revolta e dio, mas ele soube manter a calma aparente. Depois de terminar a leitura, 
passou-o para a colega.
Cilla no conseguia sentar-se. De p no centro da sala, puxava sem parar a barra da camiseta.
  Ele  bastante claro quando fala o que pensa a meu respeito e o que pretende me fazer.
  Foi a primeira vez que ele ligou para c?
  Foi. No sei como conseguiu o nmero j que meu nome no consta da lista telefnica.
Althea ps o bloco de lado e pegou o dela, na bolsa.
  Quem sabe o nmero do telefone da sua casa?
  Basicamente o pessoal da rdio  respondeu Cilla, j mais calma. Responder perguntas diretas era algo simples que no lhe causava apreenso.  Deb deve t-lo 
dado na escola, tambm. Meu advogado, Carl Donnely. Uns dois amigos de minha irm: Joshn Holden e Darren McKinley. Algumas amigas minha. Acho que  s. Agora, o 
que me preocupa ...  De repente, a porta abriu e Cilla girou nos calcanhares.  Deb!  constatou entre aliviada e aborrecida.  Pensei que tivesse duas aulas esta 
noite.
  E tive.  Deb voltou seus lindos olhos azuis para Fletcher e Althea.  Vocs so da polcia?
  Deborah, voc sabe que no deve matar aulas. Hoje era dia de prova.
 Pare de me tratar como criana!  Deb exclamou entregando-lhe o jornal que carregava.  Espera que eu acredite nessa sua conversa de que no h nada de errado? 
Diabo! Voc mentiu para mim quando disse que estava tudo sob controle.
Cilla viu o ttulo estampado num canto da primeira pgina do jornal e jogou-o sobre uma poltrona: "Radialista da Noite Sofre Ameaas Annimas".
  No era mentira. Est tudo sob controle. S que coisas deste tipo ajudam a vender jornais, e eles exageram na notcia.
  No  verdade.
  J chamei a polcia  Cilla revidou no mesmo tom.  O que mais voc quer?
Fletcher percebeu que as duas irms se pareciam. O formato dos olhos e da boca era igual. Porm, se Cilla era do tipo sexy e atraente capaz de virar a cabea de 
qualquer homem, sua irm tinha uma beleza mais clssica e menos chamativa.
O cabelo de Deborah era curto e cacheado enquanto o da irm caa pelos ombros numa cascata de ondas castanhas. A mais nova usava um suter vermelho e cala comprida 
preta enfiada por dentro das botas de cano reto. J Cilla usava um agasalho de ginstica j bastante surrado, com meias grossas cor de laranja.
Os gostos pareciam ser bem diferentes, mas os temperamentos eram idnticos.
E quando as irms O'Roarke discutiam, o faziam para valer.
Althea, sentada ao lado de Fletcher, chegou-se mais perto e murmurou-lhe baixinho:
 Acho que as duas costumam brigar com freqncia. 
Fletcher riu. Em outras circunstncias, adoraria presenciar a discusso at o fim.
  Em quem voc aposta?
  Em Cilla  disse Althea cruzando as pernas.  Mas a irm tambm promete.
Cansada do bate-boca, Deborah voltou-se  para Fletcher:
  J que Cilla continua mentindo, me diga voc o que est acontecendo.
  Ah...
  Deixe para l.  Deb apontou para Althea. Voc.
  Somos os detetives encarregados de investigar o caso de sua irm, srta. 0'Roarke.
  Ento, h um caso.
Ignorando o olhar furioso de Cilla, a investigadora assentiu.
  Sim. A direo da rdio nos deu permisso para fazermos uma ligao entre a polcia e a linha telefnica usada no programa para que possamos localizar o autor 
dos telefonemas annimos. Eu e o investigador Fletcher j interrogamos diversas pessoas com passagens anteriores pela polcia pelo mesmo motivo. Agora, como sua 
irm recebeu um telefonema aqui na sua casa, faremos uma ligao com esta linha tambm.
  Aqui? Esse sujeito ligou para c? Oh, Cilla, no!  E, passada a raiva, abraou a irm.  Sinto muito.
 No h nada com que se preocupar  disse Cilla ao se desvencilhar do abrao.   verdade. A polcia se encarregar de tudo.
 Isso mesmo  garantiu Althea j de p.  Eu e meu colega temos muitos anos de experincia e resolveremos tudo o mais breve possvel. Posso usar o telefone?
  Claro. H uma extenso na cozinha  informou Deborah antes que Cilla respondesse. Precisava conversar a ss com a investigadora.  Vou acompanh-la. Aceitam um 
caf?
  No, obrigado  agradeceu Fletcher observando-a sair da sala.
A expresso de seus olhos disse mais do que mil palavras.
  Nem pense nisso!  disse Cilla.
  O qu?  Fletcher se fez de desentendido, admirando a atitude protetora de Cilla com relao  irm mais nova.  Bem, Deborah  uma moa muito bonita.
  Voc  velho demais para ela.
  Puxa, no precisava me ofender.
Cilla pegou um cigarro e forou-se a sentar no brao da poltrona.
  Alm do que, voc e Althea formam um belo par.
  Thea?  Mais uma vez ele no conteve o riso. Por vezes, chegava a esquecer que sua parceira de dupla era mulher.  ; dizem que sou um sujeito de sorte.
Cilla cerrou os dentes. Detestava sentir-se intimidada por outra mulher. Na verdade, achava Althea bonita e elegante e chegava a invej-la por isso.
Fletcher levantou do sof e tirou-lhe o cigarro apagado da mo.
  Est com cime?
  Ora, que bobagem!
  Como se sente?  ele quis saber erguendo-lhe o queixo com a ponta do dedo.
  Bem.  Cilla queria afastar-se, mas tinha certeza de que ele no lhe daria passagem e, caso se levantasse, talvez no resistisse ao impulso de apoiar a cabea 
no ombro dele, deixando o orgulho de lado. Do que, na certa, se arrependeria.  No quero ver Deb envolvida nesta histria. Ela fica sozinha em casa  noite, enquanto 
eu estou trabalhando.
  Posso providenciar para que uma radiopatrulha fique estacionada na sua porta.
Cilla assentiu, grata.
  Detesto pensar que algum dia possa ter feito algo que a colocasse em perigo. Ela no merece sofrer.
Incapaz de resistir, ele tocou-lhe as mas do rosto sentindo a pele aveludada sob os dedos.
  Nem voc.
H muito tempo algum no a tocava, ou melhor, Cilla no permitia que algum a tocasse daquela maneira e, com algum esforo, conseguiu dar de ombros.
  Ainda no pensei nessa questo.  De olhos fechados, desejou poder aconchegar o rosto contra aquela mo forte e protetora.  Preciso me arrumar para ir trabalhar.
  Por que no pede que algum a substitua hoje?
  E deix-lo pensar que conseguiu me amedrontar? No, no.
  At os super heris descansam de vez em quando.
Cilla balanou a cabea e levantou-se. Como j esperava, Fletcher no lhe deu passagem, e todas as suas sadas estavam bloqueadas. Apesar da tenso, o orgulho a 
fez sustentar-lhe o olhar. Diabo! Fitando-a com tal intensidade, Fletcher notaria sua agitao.
  Voc est me incomodando, Fletcher.
Mais um minuto, s um, e ele a teria puxado para si. S assim conseguiria constatar at que ponto suas fantasias condiziam com a realidade.
  Ainda no viu nada, Cilla 0'Roarke. Ela franziu os olhos:
  J chega de ameaas por hoje.
  No  ameaa  Fletcher afirmou enganchando os dedos no bolso da cala.   uma promessa.
Deborah achou que j tinha ouvido demais e pigarreou antes de entrar na sala.
  Eu lhe trouxe um caf  disse entregando uma xcara fumegante para Fletcher.  Althea me disse que voc prefere puro e com acar.
 Obrigado,
 Vou ficar esperando o pessoal da polcia vir fazer a ligao  anunciou desafiando a irm a contradiz-la. Ento, beijou-lhe as mas do rosto e avisou:  Ainda 
no perdi nenhuma aula este semestre.  Ao ver a expresso de Fletcher, explicou:  Ela quer satisfao de tudo o que fao.
  No sei do que est falando  retrucou Cilla, afastando-se para pegar a bolsa.  Voc est atrasada com as leituras das aulas de poltica, precisa estudar mais 
histria americana e no perderia nada se desse uma olhada na apostila de psicologia.  Enquanto falava, tirava o casaco do armrio junto  porta.  Por falar em 
servio, bem que poderia lavar o cho da cozinha com uma escova de dentes e cortar mais um pouco de lenha.
Deborah caiu na gargalhada.
  V embora!
Cilla riu e pegou na maaneta, sem ter visto que Fletcher j a segurava. Assustada, olhou-o com ar de espanto:
  O que est fazendo?
  Vou pegar uma carona com voc  ele explicou e deu uma piscada para Deborah antes de se despedir.
Cilla entrou no prdio da estao furiosa:
  Isso  ridculo!
  O qu?  Fletcher perguntou, fingindo-se de inocente.
  No entendo por que preciso trabalhar acompanhada de um policial todas as noites.  Enquanto andava, ela tirava o casaco de uma maneira tal que o fez lembrar 
um toureiro agitando a capa. Sempre brava, esticou um brao para abrir a porta de uma saleta e quase tropeou em Fletcher quando ela se abriu de sbito.  Puxa, 
Billy ! Voc quase me mata de susto!
  Me desculpe.  O faxineiro tinha os cabelos j grisalhos, braos magros e um sorriso franco.  Vim buscar o spray para limpar o vidro.
  Tudo bem. Ando meio assustada mesmo.
  Ouvi comentrio sobre o que tem acontecido  ele explicou pegando um pano e um balde.  Sinto muito, Cilla. Se precisar de mim,  s chamar. Fico aqui na estao 
at a meia-noite.
  Obrigada. E ento, vai ouvir meu programa hoje?
  Claro que vou.
O faxineiro sorriu e afastou-se com seus apetrechos. Fletcher reparou no modo como ele puxava ligeiramente a perna direita.
Cilla entrou na saleta, pegou um frasco de lquido especial para limpeza de agulhas de toca-discos e deixou uma moeda sobre uma pilha de trapos.
  Para quem  esse dinheiro?
  Para Billy  ela disse num tom seco.  Ele  ex-combatente do Vietn.
Fletcher no respondeu. "Mais um furo na armadura", pensou.
Antes de comear o programa, Cilla entrou numa saleta  direita do corredor para verificar a programao selecionada para aquela noite, trocando as msicas a seu 
gosto. O diretor do programa havia desistido de reclamar e lhe dava liberdade para mexer na programao. Mais um motivo pelo qual ela gostava de trabalhar  noite.
  No gosto deste conjunto  murmurou.
 O que disse?  perguntou Fletcher, mais interessado na rosquinha aucarada que comia.
  Estava me referindo ao Studs  Cilla repetiu batendo o lpis na mesa.  Aposto como no vo passar do primeiro disco.
  Ento, por que os radialistas o escolhem?
 Para lhes dar uma chance.  Concentrada no trabalho, ela deu uma mordida na rosquinha que ele lhe ofereceu.  Daqui a seis meses, ningum mais vai se lembrar deles.
  Isso acontece muito no mundo do rock.
  No  bem assim. Veja o que houve com os Beatles, Buddy Holly, Chuck Berry, Bruce Springsteen, Elvis Presley. Isso sim  rock.
Fletcher recostou-se contra a parede e estudou Cilla por uns instantes.
  Voc no ouve outro tipo de msica?
Ela riu e passou a ponta da lngua pelo lbio superior para retirar o acar.
  E existe outro tipo de msica?
  Est bem, j entendi.
Cilla tirou um elstico do bolso e prendeu os cabelos num rabo de cavalo.
  Que tipo de msica voc prefere?
  Gosto dos Beatles, Buddy Holly, Chuck...
  Bem, ento, nem tudo est perdido.
  Mozart, Lena Horne, Ella Fitzgerald, B. B. King...
  Ora, seu gosto  bem ecltico.
  Sou um sujeito liberal.
Cilla aprumou-se por um momento:
  Fletcher, voc me surpreende. Julguei que fosse do tipo insensvel, desses que gostam de partir coraes e afogar as mgoas na bebida.  E sorriu-lhe.  Bem, 
est na hora do programa.
Bob Williams, o locutor do horrio das seis s dez, terminava seu programa. Alegre e brincalho, tinha a voz de rapaz, embora j tivesse quase quarenta anos. Ao 
v-la selecionar uns discos, Bob deu-lhe uma piscadinha.
  Hummm, a garota de voz de veludo acaba de chegar aos estdios  disse ao microfone, e soltou uma fita com o som vibrante das batidas de um corao.  Ateno 
pessoal, fique ligado porque a estrela da meia-noite comea a surgir no horizonte. O ltimo nmero de hoje, ser um grande sucesso do passado.
E comeou a tocar Honky Tonk Woman, sucesso dos anos 60. Bob levantou-se da cadeira, afastou o microfone e friccionou os msculos das pernas.
  Ol, garota, como vai?
  Bem, obrigada  ela afirmou pondo o primeiro disco no prato do toca-discos, com a agulha a postos.
  Li os jornais de hoje.
  Ora, voc sabe como esses caras exageram.
  Cilla, formamos uma verdadeira famlia aqui na KHIP. Se precisar de ajuda, no hesite em me pedir.
  Obrigada, Bob.
  Voc  o policial, no ?  perguntou a Fletcher.
  Sim, sou.
  Trate de pegar logo esse luntico ou todos ns acabaremos malucos.  Bob deu um tapinha amigo no ombro da colega.  Conte comigo para o que precisar.
  Pode deixar. Obrigada.
Faltando apenas trinta segundos para entrar no ar, Cilla no podia nem queria pensar no pior. Sentada na cadeira giratria, ajustou o microfone, testou a voz e mexeu 
no boto que abria o som.
  Boa noite, Denver. Esta  Cilla O'Roarke falando atravs da KHIP, a rdio mais ouvida em todo o Estado. Seguiremos juntos at as duas da madrugada e vamos comear 
distribuindo um prmio de cento e dez dlares para quem acertar o nome da msica, do cantor e o ano da gravao que tocarei daqui a pouco. Nosso nmero  555-5447. 
Fique ligado.
J aos primeiros acordes da cano, Cilla sorriu satisfeita. Recuperara totalmente o autodomnio.
  O cantor  Elton John, a msica se chama Honky Cate foi gravada em... 1972!  disse Fletcher ali ao lado.
Cilla virou-se para fit-lo e o surpreendeu com ares de satisfao, as mos enfiadas nos bolsos da cala, o sorriso juvenil nos lbios. Nunca o vira to bonito.
  Ora, ora, mais uma surpresa, Fletcher. No final do programa, lembre-me de lhe dar uma camiseta com o logotipo da rdio.
  Eu preferia ganhar um jantar.
  E eu, um Porsche. De qualquer forma... Ei!  Cilla exclamou ao v-lo segurar-lhe uma das mos.
  Voc andou roendo as unhas  ele constatou passando um dedo pela beirada irregular das unhas curtas.  um pssimo hbito.
 Tenho vrios outros.
 Entendo. No tive tempo de trazer um livro, portanto vou ficar observando seu trabalho, est bem?
 Por que no...  Cilla praguejou e apertou o boto de um dos telefones. A conversa a atrapalhava.  KHIP. E ento, amigo, sabe o nome da msica de hoje?
S o sexto ouvinte a telefonar acertou todos os dados em cheio. Tentando ignorar a presena de Fletcher, Cilla introduziu no toca fitas um cassete com os comerciais 
e anotou o nome e endereo do vencedor.
Mas ficava difcil concentrar-se no trabalho tendo-o ali to perto. Perto o suficiente para poder aspirar-lhe o aroma silvestre da colnia masculina. Era um perfume 
msculo, que lhe trazia  mente a imagem de uma montanha coberta de pinheiros, um chal de madeira, um quarto  meia luz...
"Que devaneio mais imbecil", criticou-se em pensamento. Nada daquilo lhe interessava. O mais importante naquele momento era localizar o autor dos telefonemas e retomar 
sua rotina normal. O lado sentimental e amoroso desempenhava uma parte mnima em sua felicidade. Toda sua energia voltava-se para a busca do sucesso profissional. 
Este sim, lhe trazia uma profunda satisfao pessoal.
Cilla mudou de posio e esticou-se para tirar um disco da prateleira cheia de compartimentos verticais. Com o movimento, sua pernas roaram as dele, e ela pde 
sentir-lhe os msculos rijos da coxa. Ocultando a agitao, Cilla ergueu o olhar e o encarou num desafio. E sentiu o corao disparar ao v-lo fixar a ateno em 
seus lbios midos.
Imediatamente um calor sbito subiu-lhe ao rosto. A msica ecoava em seus ouvidos atravs dos fones que insistia em usar para no ter de conversar com Fletcher. 
A letra da cano falava em noites quentes de vero e na paixo de dois enamorados.
Cilla afastou-se uns centmetros e, ao retomar o microfone, sua voz soou ainda mais rouca.
J prestes a se descontrolar, Fletcher achou por bem levantar-se. Seu intuito fora  aborrec-la fazendo-a distrair-se para que no tivesse tempo de pensar nos telefonemas 
ameaadores, que certamente se repetiriam naquela noite. Queria faz-la pensar em outras coisas. Ou melhor, nele. Quanto mais melhor. Porm, no sabia que ao alcanar 
seu objetivo, teria cado no mesmo lao. Ela cheirava a noite. As flores da noite. Uma verdadeira dama da noite: secreta, insinuante. Sua voz provocante o excitava, 
acendia-lhe a chama do desejo. Desejo de pecar. Contudo, seus olhos tinham uma expresso de inocncia verdadeiramente desconcertante. Aquela combinao de anjo e 
demnio, inocente e pecadora levava a maioria dos homens ao delrio.
''Distncia", disse a si mesmo ao sair do estdio sem fazer barulho. Distncia e profissionalismo. Nenhum dos dois lucraria com um possvel envolvimento amoroso. 
Seu dever era proteg-la das ameaas que vinha sofrendo e nada mais.
Sozinha, Cilla fez um esforo consciente para se descontrair, esticando cada um dos msculos dos braos e das pernas. Mais calma, procurou se convencer de que aquela 
tenso era fruto da presso dos ltimos dias e nada tinha a ver com a presena de Fletcher.
Afastando os cabelos do rosto, tocou dois sucessos sem intervalo, o que lhe dava mais uns momentos de descanso. Aos poucos, Fletcher ia se revelando uma pessoa muito 
diferente do que ela imaginara. Ele lia autores srios e sabia de cor o ano das gravaes de Elton Jonh. Falava manso e raciocinava com rapidez; usava botas riscadas 
e um palet de trezentos dlares.
Mas o que lhe importava aquilo tudo, perguntou-se ao pegar os discos e fitas que tocaria nos prximos vinte minutos de programa. No estava interessada em homem 
nenhum. Primeiro: jamais se envolveria com um policial. Segundo: qualquer um percebia que Fletcher e Althea tinham um relacionamento mais profundo do que o estritamente 
profissional.
De olhos fechados, mergulhou no ritmo da cano lembrando-se de que era considerada uma garota de sorte. Trabalhava no que gostava e alcanara sucesso em sua profisso.
A vida, no entanto, lhe ensinara uma lio: nada durava para sempre. Os bons e maus momentos passavam, e o importante era aproveitar as fases boas ao mximo.  Esta 
foi Joan Jett, nos fazendo companhia. Nossos relgios marcam onze e meia. Teremos um intervalo para as notcias oferecidas pela Wildwood Records e voltaremos em 
seguida com dois sucessos de Steve Winwood e Phil Collins. Esta  a KHIP,  a rdio nmero um no corao do Colorado.                      
Quando Fletcher voltou, encontrou-a de p, estirando-se para pegar uma fita na prateleira enquanto danava ao ritmo de uma cano. Detendo-se do lado de fora, ele 
a observou ondular os quadris e sorrir para si mesma num momento de descontrao.
Distrada, ela no o ouviu entrar e assustou-se quando ele pousou uma das mos em seu ombro.
  Eu lhe trouxe um ch. Voc toma muito caf. Experimente. Este  de jasmim.
Cilla sentiu o corao disparar numa reao que nada linha a ver com o esforo da dana.
  No bebo gua de flor.
  Ora, vamos, prove. Vai ajud-la a se acalmar.
Ambos olharam para o relgio, que j marcava meia-noite. Aquela tinha sido a parte do programa que Cilla mais gostava. No entanto agora, cada telefonema com pedidos 
dos ouvintes a deixava com os nervos  flor da pele.
  Talvez ele no ligue hoje, j que me telefonou em casa.
  Pode ser.
  Voc no acredita nessa possibilidade, no ?
  Acho que devemos nos preparar para enfrentar o que aparecer  ele disse, sentando-se a seu lado na cabine minscula.  Quero que se acalme e o mantenha na linha 
o mximo de tempo possvel. Faa perguntas; mesmo que ele no as responda.
Cilla bebeu o resto do ch a contragosto e foi franca:
  H uma coisa que gostaria de saber: por quanto tempo voc ainda vai me pajear?
  No se preocupe com isso. Voc  famosa, tem recebido ameaas de morte, e a imprensa j divulgou o caso. Vou ter de fazer-lhe companhia por algum tempo, at que 
consigamos prender esse sujeito.
O chamado veio, como todas as noites. Ao reconhecer a voz, ela tirou a ligao do ar, tocou uma msica para os ouvintes e, numa atitude inconsciente, agarrou a mo 
de Fletcher.
  Voc  persistente, no?
 Quero v-la morta. A hora j est quase chegando.
  Por acaso eu o conheo? Afinal nunca tive inimigos ocultos.
Cilla fechou os olhos ao ouvi-lo dizer uma srie de palavres e apertou a mo de Fletcher com mais fora. Ainda assim, seguiu o combinado e foi esticando a conversa.
  Puxa, voc est mesmo um bocado bravo, no? Oua, se no gosta do meu programa,  s mudar de estao ou desligar o rdio.
  Voc o seduziu  disse o homem com voz de choro e dio.  Voc o seduziu, o enganou, o iludiu. Depois o matou.
  Eu...  Suas palavras a chocaram mais do que as ofensas de baixo calo.  Quem? No sei do que est falando. Por favor, diga...
Mas o homem desligou.
Enquanto Cilla se recostava na cadeira, absolutamente sem ao, Fletcher entrou em contato com a polcia:
  E ento? Conseguiram? Droga!  E levantou-se.
 Precisariam de mais dez segundos para localiz-lo. Ele deve saber que o telefone est grampeado.  Fletcher assustou-se ao ouvir Nick Peters abrir a porta:  O 
que foi?
  Eu... eu...  o rapazinho gaguejava. Mark disse que eu podia vir assistir ao programa. Pensei que Cilla quisesse um caf.
  Ela avisa se precisar  respondeu Fletcher.  Acha que pode ajud-la a terminar o programa?
  No preciso de ajuda  Cilla alegou com voz calma.  Obrigada, Nick  E abriu o microfone:  Essa cano Laurie dedicou ao marido, Chuck com todo amor.
 O telefone continuou piscando e Cilla atendeu outro telefonema:  Boa noite, qual o sucesso que quer pedir?
De fato, Cilla terminou o programa sem problemas e no se ops quando Fletcher ofereceu-se para lev-la at sua casa. Ao ver a radiopatrulha estacionada junto  
calada, ela suspirou aliviada, ciente de que Deborah estava bem protegida.
  Vou descer com voc.
  Olhe, no  preciso  retrucou.  Acho que j entendi o que est acontecendo.
J na sala, ela tirou o casaco, guardou-o no armrio c acendeu um cigarro. Fletcher permaneceu de p.
  Ah, ? Ento, me diga.
   evidente que esse homem cometeu um engano. Ele deve estar me confundindo com outra pessoa. S preciso convenc-lo disso.
  E como pretende convenc-lo?
  Da prxima vez que ele ligar, vou obrig-lo a me ouvir. Fletcher, pelo amor de Deus, nunca matei ningum! S pode ser um engano!
  E quando voc lhe disser o que pensa, ele vai parar para raciocinar, concordar, e lhe pedir desculpas por t-la incomodado. Cilla, esse sujeito est fora de 
si, no raciocina como uma pessoa normal.
  Ento, o que espera que eu faa?  ela revidou, revoltada, apagando o cigarro no cinzeiro.  Tenho de faz-lo entender que est cometendo um erro. Nunca matei 
nem seduzi ningum.
  Ora, no me venha com essa conversa.
O comentrio foi a gota d'gua que faltava para faz-la perder o controle de vez.
  Por acaso me julga uma mulher falsa e dissimulada? Ou pensa que sou como a aranha viva-negra, que mata o macho depois da cpula? No sou nada disso. Tenho uma 
voz bonita e s. O resto no passa de fantasia.
  Ambos sabemos que no  apenas sua voz que excita os homens, Cilla. Ele tambm sabe.
  Pois saiba que est enganado. Meu ex-marido pode lhe confirmar o que digo.
Ele franziu os olhos:
  Voc nunca tinha me dito que j foi casada.
E nem pretendera, Cilla reconheceu. A fria a fez falar mais do que devia.
  Isso foi h muito, muito tempo. No faz diferena alguma.
  Quero que me d o nome dele e o endereo.
  No sei onde mora. O casamento durou apenas alguns meses. Eu tinha s vinte anos, mas parecia uma garotinha de treze.
  O nome, Cilla.
  Paul Lomax. No o vejo h oito anos, desde que nos divorciamos.  Ela caminhou at a janela e virou-se de frente para Fletcher.  O problema  que esse sujeito 
est totalmente enganado. Ele diz que seduzi e matei um homem, e ambas as afirmaes so falsas.
  Mas ele acha que no.
  Pois acha errado. No consegui fazer um homem feliz por mais de alguns meses, como seria capaz de seduzir algum?
  Ora, voc est falando bobagens.
  Fletcher, acha que  fcil para mim admitir que sou um fracasso na cama?  perguntou mordendo o lbio inferior.  O ltimo rapaz com quem sa me disse que tenho 
gua gelada nas veias em lugar de sangue. Mas nem por isso eu o matei.  E, minutos depois, admitiu com um sorriso:  Porm, cheguei a pensar no caso.
Fletcher riu mas logo reassumiu o tom srio:
  Acho que j  hora de voc encarar este caso e a si mesma com mais seriedade.
  Eu me levo a srio.
 Profissionalmente, sim. Sabe desempenhar seu trabalho com perfeio. J pessoalmente... Voc foi a primeira mulher que conheci capaz de admitir que no consegue 
seduzir um homem.
  Conheo meus limites.
  Acho que isso  sinal de covardia. 
Ela ergueu o queixo:
  Ora, v para o inferno!
Mas Fletcher no se deixou abater. Precisava faz-la ver que estava enganada.
  Acho que voc tem medo de se aproximar dos homens, medo de se descobrir. Talvez descubra algo que no consiga controlar.
  Oua: agradeo seus conselhos, mas dispenso-os, sim? Seu dever  me proteger desse luntico que est me ameaando.
Cilla ia sair da sala, porm Fletcher a impediu, segurando-a pelo brao.
  O que acha de fazermos uma experincia?
  Experincia?
  Comigo, Cilla. Voc estaria segura, j que no pode nem ver um policial. Seria um teste em que no correria risco algum  explicou segurando-lhe o outro brao. 
Os msculos dela tremiam, e os olhos faiscavam de raiva.
timo. Por motivos que no saberia descrever, ele tambm estava furioso.  Aposto dez contra um que no sentirei nada  acrescentou, puxando-a para mais perto.  
Por que no tenta provar que estou errado? O desafio estava lanado.






CAPITULO IV

Eles estavam bem prximos. Cilla ergueu uma das mos num gesto inconsciente de autodefesa e surpreendeu-se espalmando os dedos sobre o peito de Fletcher. O corao 
dele batia num ritmo inalterado enquanto o seu, disparava.
  No vou provar nada a ningum.
Fletcher assentiu reparando na fria estampada nos olhos de Cilla. Era prefervel o dio ao medo que ainda h pouco vira.
  Ento, prove a si mesma  insistiu provocando-a. - Afinal, qual  o problema? Por acaso eu a amedronto?
Ambos sabiam que ele havia tocado no ponto certo. Para Fletcher, o importante era faz-la pensar e reagir, ainda que movida pela revolta.
Cilla jogou os cabelos para trs e deliberadamente escorregou-lhe as mos pelo peito at alcanar-lhe os ombros. Queria v-lo reagir quela atitude, mas Fletcher 
limitou-se a erguer uma sobrancelha e observ-la com um sorriso malicioso.
Se ele queria jogar, ela estava disposta a entrar na brincadeira e, pondo o bom senso de lado, beijou-lhe os lbios.
Fletcher os manteve impassveis, frios, rijos. De olhos abertos, Cilla o viu permanecer calmo, paciente, parecendo estar se divertindo com a situao. Revoltada, 
cerrou os punhos e esmurrou-lhe os ombros que, h pouco, acariciava.
  Satisfeito?
   No, no.  Seu olhar permanecia calmo, como fruto de um treinamento de anos de servio da polcia, mas se Cilla tivesse pousado um dedo em seu pescoo, perceberia 
que suas pulsaes estavam aceleradssimas.  Voc no est se empenhando, Cilla.  Fletcher deslizou-lhe as mos pelos quadris puxou-a de leve para si, deliciando-se 
com seus movimentos.  Isso  o melhor que consegue fazer?
Humilhada e furiosa, Cilla praguejou e tornou a beij-lo. S que, agora, para valer.
Os lbios dele continuavam rijos, porm quentes e midos. Receptivos, at. Por um instante, Cilla teve vontade de se retrair, contudo o desejo, to adormecido em 
seu ntimo, comeou a despertar, provocando-lhe sensaes que h tempos no experimentava. Vencida por aquela fora que a impelia a prosseguir, apoiou-se em Fletcher 
e entregou-se quela deliciosa onda de calor que lhe aquecia o corpo.
Todas as preocupaes, todos os temores se dissiparam. Cilla sentia o corpo rijo e musculoso de Fletcher amparando o seu, e o calor de sua mos subindo-lhe pelas 
costas at mergulharem entre seus cabelos. Os lbios dele, antes passivos e indiferentes, agora exigiam e proporcionavam-lhe prazer.
Desde que a ouvira pela primeira vez atravs do rdio, Cilla povoava suas fantasias. Ao conhec-la, Fletcher se surpreendera ao descobri-la to diferente do que 
imaginara e no cessara de desej-la. Ao contrrio, toda vez que a via imaginava que gosto teriam seus lbios carnudos, que reaes seus beijos lhe provocariam.
Mas, de novo, a realidade superara qualquer expectativa.
Cilla era mais ardente, mais excitante do que poderia imaginar. Seu beijo o deixou sem flego. Excitado, Fletcher tentava aprofund-lo, mas a sentia temerosa e assustada.
Cilla estremeceu e gemeu baixinho protestando, confusa, e tentou se afastar. Ele, porm, a impediu. Tendo as mos entrelaadas nos cabelos dela, puxou-os de leve 
obrigando-a a pender a cabea para trs. Ento, o verde de seus olhos se misturou ao castanho dos dela.
Fletcher manteve a calma e estudou-lhe o rosto com ateno. Queria ver estampada em sua fisionomia as mesmas sensaes que sentira; o desejo, a paixo. Satisfeito, 
sorriu de maneira sensual e viu os olhos dela brilharem.
  Ainda no terminei  avisou e, comprimindo-a contra si, tornou a beij-la com paixo.
Cilla queria reagir, pensar, mas no conseguia. As emoes lhe turvavam o raciocnio, roubando-lhe a razo. E, antes que o pnico a dominasse, abandonou o bom senso 
entregou-se sem restries.
Fletcher sabia que jamais se cansaria de prov-la. Seus lbios midos e quentes eram irresistveis. Para no falar no corpo, vibrante e tentador. Seus gemidos eram 
carregados de promessas.
Incapaz de resistir, Fletcher insinuou uma das mos sob suter de Cilla, tocando-lhe a pela acetinada. E se deleitou com aquela carcia at que o desejo comeasse 
a tortur-lo.
Calma, ainda  cedo demais", dizia-lhe o bom senso, designado, ergueu o rosto e esperou-a abrir os olhos.
Cilla, ao abri-los, viu-o estud-la atentamente e, constrangida, levou uma das mos s tmporas.
  Eu... preciso sentar.
  Ento, somos dois.
Puxando-a pela mo, Fletcher acomodou-a a seu lado no sof. Cilla focalizou o olhar na janela escura procurando acalmar a respirao. Talvez com o tempo e uma certa 
distncia conseguisse se convencer de que o que acabara de acontecer no passara de mero... acaso.
  Foi uma estupidez.
  Me desculpe, mas no concordo. Na minha opinio, foi muito bom.
Cilla respirou fundo mais uma vez.
  Voc me provocou, me fez ficar brava.
  O que no  nada difcil, convenhamos.
  Oua, Fletcher...
  No preciso ouvir mais nada, Cilla  ele afirmou acariciando-lhe os cabelos com ternura.  No tente me convencer de que no foi bom.
Na esperana de que as pernas parassem de tremer, Cilla levantou-se e comeou a andar pela sala.
  Acho que exageramos; passamos do limite.
  Somos ns mesmos quem impomos nossos limites  ele ponderou recostando-se no sof.
Fletcher se deliciava ao observ-la caminhar pela sala, reparando nos movimentos graciosos das pernas longas. Sorridente e confiante, estendeu um brao sobre o encosto 
do sof e esticou as pernas para a frente.
  Meus limites so bem definidos  disse Cilla olhando-o por sobre um ombro.   bom que saiba.
  Tudo bem. Procuraremos nos manter dentro deles, por enquanto.  Fletcher no se importava de exercitar a pacincia.  Voc tem uma idia distorcida da realidade, 
achando que os homens s se sentem atrados pela sua voz, pela imagem falsa que eles criam atravs do rdio. Acho que acabei de lhe provar que est enganada.
  O que acabou de acontecer no provou nada.  Aquele sorriso lnguido que ele lhe dirigia a enervava.  E mais: No sei o que isso tem a ver com os telefonemas 
que venho recebendo.
  Voc  uma garota inteligente, Cilla. Use a cabea. Ele quer que voc pague pelo que fez a um outro homem. Algum que voc conheceu e com quem esteve envolvida.
  Eu j lhe disse que no h ningum  ela confirmou acendendo um cigarro.
  Hoje.
  Hoje, ontem, o ano passado. H tempos que no me envolvo com algum.
Tendo-a visto reagir com tanta paixo aos seus beijos, Fletcher custava a acreditar no que ouvia.
  Ento, isso significa que o caso que teve com essa pessoa no foi muito importante para voc. A  que est o problema.
  Ora, Fletcher, seja razovel. Nem sequer tenho namorado. Me falta tempo e disposio para namorar.
  Falaremos sobre sua disposio mais tarde. 
Cilla virou o rosto em direo  janela:
  Por favor, no me aborrea, sim?
  Mas estamos falando da sua vida.  Seu tom insinuante despertou em Cilla a vontade de responder-lhe  altura, porm, refletindo melhor, calou-se.  Se nunca saiu 
com nenhum rapaz desde que se mudou para Denver, comearemos a investigar o passado. Antes, no entanto, quero que pense com bastante cuidado. Houve algum que tenha 
lhe feito uma proposta, um convite? Algum que telefone muitas vezes para a estao? Algum que tenha se insinuado ou feito algum tipo de brincadeira?
  S voc.
  Lembre-me de me incluir na lista de suspeitos  ele brincou sem, no entanto, ocultar a frustrao.  Quem mais?
  Ningum.  Atormentada e ansiosa por um pouco de paz, ela pressionou as mos sobre os olhos.  Recebo muitos telefonemas na rdio. Alguns me convidam para sair, 
outros me mandam presentes. Flores, bombons, coisas do tipo.
  Nenhuma brincadeira de mau gosto?
  Nada. No me lembro de nenhum que tenha flertado comigo enquanto estvamos no ar. E os rapazes que eu recuso no costumam insistir, pois sou bastante positiva.
Fletcher balanou a cabea. No era possvel que uma mulher to inteligente pudesse ser to ingnua com relao a certas coisas.
  Tudo bem, vamos mudar de perspectiva. A maioria de seus colegas na rdio so homens.
  Sim, mas somos todos profissionais  ela lembrou recomeando a roer as unhas.  Mark  feliz no casamento; Bob  mais feliz ainda com o divrcio. Jim  apenas 
um amigo, nada mais.
  Esqueceu-se de Nick.
  Nick Peters? O que tem ele?
  Ele praticamente a venera.
  O qu?  Surpresa, ela virou-se para encar-lo.  Que ridculo! Ele  um garoto!
Fletcher calou-se por uns segundo e suspirou:
  Voc nunca percebeu, no ?
  No h nada para perceber. Oua, esta conversa no vai nos levar a lugar algum e eu estou...  Virando-se de frente para a janela, Cilla, de repente, emudeceu. 
 Fletcher?
  O que foi? Aconteceu alguma coisa?
  Tem um homem do outro lado da rua olhando para c.
  Saia da janela.
  O qu?
Fletcher levantou-se do sof e tirou-a dali.
  Mantenha-se longe das janelas e conserve as portas trancadas. No abra para ningum at eu voltar.
Ela o acompanhou at a porta e arregalou os olhos ao v-lo sacar uma arma. Foi um gesto natural e instintivo, mas suficiente para traz-lo de volta  realidade. 
Em dez anos de servio na polcia, quantas vezes j no devia ter repetido o mesmo movimento?
Era intil dizer-lhe que tomasse cuidado.
  Vou dar uma olhada l fora. Tranque a porta assim que eu sair.  Fletcher j nem parecia ser o mesmo romntico que h pouco a beijara. Incorporara novamente a 
imagem do policial frio e insensvel no cumprimento do dever. Os olhos haviam perdido o brilho de antes.  Se eu no voltar dentro de dez minutos, ligue para a polcia 
e pea reforo, entendeu?
  Sim.
  Assim que ele saiu, ela tornou a fechar a porta e trancou-a.
Com o palet dasabotoado, Fletcher sentiu no peito o vento frio da madrugada. A arma, aquecida pelo contato com o corpo, estava perfeitamente encaixada  curva da 
mo. Olhando para a esquerda e a direita, no viu nada na rua exceto os fachos de luz espalhados pelas luzes dos postes. quela hora, num bairro estritamente residencial, 
a maioria das casas j estavam s escuras, e as famlias dormiam. O vento assobiava por entre as rvores sem folhas.
Se no tivesse visto com os prprios olhos um vulto atravs da janela, no teria acreditado nas palavras de Cilla. Quem quer que fosse certamente j tinha ido embora, 
alarmado pelo fato de ter sido visto.
E, de fato, Fletcher ouviu o barulho de um motor de carro a distncia, porm no se preocupou em ir verificar. Seria intil tentar alcan-lo. Por precauo, chegou 
at a esquina, deu uma olhada e certificou-se de que no havia ningum.
Cilla j estava prestes a telefonar para a polcia quando ele voltou.
  Cilla, sou eu, abra.
Ela correu at a porta e perguntou, ansiosa:
  E ento? conseguiu v-lo?
  No.
  Mas eu juro que vi algum.
  Eu sei  ele tranquilizou-a ao trancar a porta.  Fique calma; no h ningum l fora.
  Calma?  S ela sabia o que sofrera naqueles dez minutos que Fletcher passara na rua. O medo chegara  beira do pnico.  Ele sabe onde moro, onde trabalho. Como 
espera que eu consiga me acalmar? Se voc no o tivesse assustado, ele poderia ter...
Era melhor nem pensar no que poderia ter acontecido. Fletcher, calado, viu-a aos poucos recuperar a calma.
  Por que no tira uma licena, passa uns dias em casa?  Sugeriu.  Podemos providenciar para que a radiopatrulha policie o quarteiro vinte e quatro horas por 
dia.
Cilla afundou-se entre as almofadas do sof.
  Que diferena faz se estiver aqui ou na rdio? Nenhuma. E, em casa, eu s ficaria mais preocupada ainda, imaginando mil coisas. Pelo menos o trabalho me ocupa 
e me distrai. Ele no esperava mesmo que ela concordasse.
  Falaremos nisso mais tarde. No momento,  melhor voc ir para a cama. Durmo aqui mesmo no sof da sala.
Cilla gostaria de ter coragem o bastante para dizer-lhe que no era preciso, que no se incomodasse, porm no conseguiu.
  Vou buscar um cobertor.

O dia quase amanhecia quando ele voltou para casa depois de ter percorrido diversos subrbios. A princpio, sentira muito medo, mas o vencera dirigindo sempre com 
calma para no ser detido por nenhum guarda. Se algum o pegasse, estragaria todo o seu plano.
Cansado, suava sob a capa grossa e o bon que usava. Os ps, no entanto, descalos dentro do tnis, estavam gelados. O desconforto, porm, no o incomodava.
Sem acender nenhuma luz, entrou no banheiro cambaleando. Ainda assim, conseguiu contornar a pilha de latas vazias de cerveja depositadas junto  porta do quarto. 
Tinha excelente viso, mesmo no escuro, algo de que sempre se orgulhara.
Depois de abrir a torneira de gua fria, entrou sob o chuveiro e deixou que o jato lhe aliviasse os msculos tensos. J mais calmo, deu-se ao luxo de aspirar a fragrncia 
do sabonete que usava, seu favorito. Ento, pegou uma escova de cabo longo e esfregou todo o corpo vigorosamente.
L fora, a escurido da noite cedia aos primeiros raios avermelhados do amanhecer.
Ainda sob a gua, acariciou a intrincada tatuagem que tinha no peito retratando duas facas de lminas longas cruzadas em formato de "X". Ainda lembrava-se de como 
John ficara impressionado ao v-la pela primeira vez.
A imagem voltou-lhe  mente com incrvel nitidez. Seus olhos escuros arregalados de espanto, o modo rpido como falava, atrapalhando-se com as palavras. Por vezes, 
sentavam-se na quarta  noite, no escuro, trocando idias, fazendo planos. Tencionavam viajar juntos.
Mas, de repente, o mundo exterior interferiu em seus planos. Aquela mulher se intrometera pondo fim em tudo.
Com o corpo molhado, fechou o chuveiro e pegou a toalha, pendurada exatamente onde a deixara. Ningum entrava ali no seu quarto, no seu mundo. Depois de se enxugar, 
foi at o quarto e pegou um pijama j desbotado que o fazia recordar os tempos de infncia. Uma infncia que terminara de modo to brusco.
O sol j estava mais alto no horizonte quando ele preparou dois sanduches enormes e os comeu de p, junto  pia da cozinha, cuidando para que as migalhas no caissem 
no cho.
Alimentado e limpo, sentiu-se novamente confiante. Era mais inteligente que a polcia e conseguia engan-los muito bem, o que o deixava satisfeitssimo. Estava deixando-a 
em pnico, atormentada, sem sossego. Quando a hora chegasse, cumpriria cada uma de suas promessas.
Pena que ainda no fosse o bastante para sentir-se vingado.
De volta ao quarto, fechou as persianas e pegou o telefone.

Deborah saiu do quarto usando uma lingerie branca e um robe azul-escuro. As unhas, bem vermelhas, haviam sido pintadas na noite anterior, enquanto assistia  televiso.
Preocupada com a prova que teria logo mais s nove horas, comeou a pronunciar em voz alta as perguntas que desconfiava que cairiam no exame. As perguntas no lhe 
causavam problemas, ao contrrio das respostas, com as quais ainda se atrapalhava. Quem sabe uma xcara de caf a ajudasse.
Bocejando, tropeou num par de botas, apoiou-se no sof e quase gritou de susto ao tocar um brao peludo.
Fletcher sentou-se numa frao de segundos, a mo j pousada no cabo do revlver. Bem prximos, ele olhou para Deborah, a pele alva, os olhos azuis, cabelos cacheados, 
e suspirou de alvio.
  Bom dia.
  Investigador Fletcher? 
Ele esfregou os olhos.
  Sim. Acho que sim.
  Me desculpe, no sabia que estava aqui.  Deborah pigarreou e lembrou-se de fechar melhor o robe. Ento, olhou em direo aos quartos e abaixou a voz, sabendo 
que a irm tinha sono leve.  Por que est aqui?
Fletcher flexionou um dos ombros, dolorido pela noite mal dormida no sof.
  Eu j lhe disse que vou tomar conta de Cilla.
  Sim, disse.  A garota franziu os olhos.  Voc leva seu trabalho a srio, no?
  Claro que levo.
  timo.  Deborah lanou-lhe um sorriso juvenil e franco.  Eu j ia fazer caf. Tenho prova logo mais s nove. Aceita uma xcara?
 Aceito, sim. Obrigado.
 Imagino que tambm queira tomar um banho quente. No deve ter dormido muito bem encolhido nesse sof.
 No posso negar que  um pouco desconfortvel para algum da minha altura  ele reconheceu, massageando o pescoo dolorido.
 Pode ficar  vontade. Vou trazer o caf.
Antes que sasse da sala, o telefone tocou e, mesmo sabendo que Cilla o atenderia antes do segundo toque, Deborah deu um passo na direo da mesinha onde ficava 
o aparelho. Fletcher, porm, balanou a cabea e, tirando o fone do aparelho com cuidado, tampou o bocal e ouviu a conversa.
Puxando as lapelas do robe com as mos, Deborah observou-lhe o rosto impassvel e reparou no brilho de raiva estampado em seus olhos. No foi preciso mais nada para 
saber quem estava do outro lado da linha.
Fletcher desligou o telefone para, logo em seguida, discar o nmero.
  E ento? Conseguiram?  A resposta negativa de certa forma no o surpreendeu.  Entendo.  Desligando, olhou para Deborah que, muito plida, sentara-se no sof. 
 Vou at o quarto falar com Cilla. Acho que vou deixar o caf para uma outra ocasio, est bem?
  Cilla deve estar nervosa, quero falar com ela. Fletcher afastou as cobertas e levantou-se do sof usando apenas a cala jeans.
  Eu preferia que voc me deixasse cuidar disso sozinho.
Deborah quis retrucar, mas viu uma advertncia bem clara no olhar que Fletcher lhe dirigiu.
  Est bem, mas, tenha cuidado, sim? Ela no  to forte quanto aparenta.
  Eu sei.
Entrando pelo corredor, Fletcher passou pela porta aberta de um quarto que, pela decorao rosa e branca, julgou ser o de Deborah. A cama estava impecavelmente arrumada. 
Parado diante da segunda porta fechada, bateu e foi entrando sem esperar por consentimento.
Cilla estava sentada no centro da cama com os joelhos encolhidos contra o peito. Os lenis e as cobertas revirados eram os testemunhos da noite maldormida.
Ali, no havia nenhum toque feminino ou juvenil na decorao. Cilla ergueu o rosto lentamente e Fletcher no viu sinais de lgrimas em seus olhos. Em vez de amedrontada, 
Cilla parecia abatidssima, o que era ainda mais preocupante.
  Era ele.
  Eu sei. Ouvi pela extenso.
  Ento, j deve saber que era ele que estava l fora a noite passada.  Ela voltou-se para a janela, atravs da qual pde ver o sol comeando a brilhar por entre 
as nuvens.  Ele disse que me viu. Ou melhor, que nos viu.
E fez insinuaes horrveis.
  Cilla...
  Ele estava nos espionando!  Cilla exclamou com vigor.  Nada do que faa ou diga ir det-lo. Se ele conseguir me pegar, cumprir todas as promessas horrendas 
que vem fazendo.
  Ele no vai peg-la.
  Por quanto tempo conseguirei fugir?  Ela curvava os dedos ao redor do lenol enquanto lanava um olhar de desafio a Fletcher.  Quanto tempo voc vai continuar 
me seguindo? Esse sujeito no tem pressa e aposto como no vai desistir de esperar. Enquanto isso, continuar a me amedrontar com seus telefonemas e ameaas.  Movida 
mais pelo medo do que pela revolta, Cilla pegou o telefone na mesinha de cabeceira e o atirou contra a parede do quarto. O aparelho caiu ruidosamente no cho.  
Voc no conseguir det-lo. Ouviu o que ele disse!
  Isso  o que ele quer.  Fletcher segurou-a pelos braos e sacudiu-a.  Cilla, esse sujeito quer v-la desesperada, com os nervos em frangalhos. Ele quer ter 
certeza de que consegue control-la. Voc est entrando nesse jogo.
  No sei mais o que fazer  ela revelou, desolada.  Juro que no sei.
  Voc tem de acreditar em mim, Cilla.  Ela ergueu o rosto e o fitou.  Quero que confie em mim e acredite quando lhe digo que nada de mau lhe acontecer.
  Voc no pode me proteger vinte e quatro horas por dia.
Ele curvou os lbios, afrouxando as mos que a apertavam, friccionou-as com carinho em seus braos.
  Claro que posso.
  Eu quero que...
Cilla fechou os olhos antes de completar a frase. Detestava ter de pedir-lhe algo.
  O qu? Diga.
  Preciso ter algo em que confiar. Um apoio. Por favor.
Sem uma palavra, ele a puxou para sim e a envolveu num abrao caloroso, fazendo-a pousar a cabea em seu peito. Ela cerrou os punhos e comeou a tremer, lutando 
contra as lgrimas.
  No tente conter as lgrimas. Chorar faz bem.
  Eu... no posso.  Cilla continuava de olhos fechados apreciando a solidez do corpo dele a lhe transmitir mais confiana.  Tenho medo de comear a chorar e no 
conseguir mais parar.
  Est bem. Ento, tente pensar apenas em mim.  Fletcher a fez erguer o rosto e pousou os lbios macios sobre os dela.  S em mim. Aqui, agora, a seu lado  insistiu 
acariciando-lhe as costas tensas.
Cilla no sabia que um beijo pudesse conter tanto carinho, tanta compaixo. Os lbios de Fletcher acalmavam-lhe o medo, abrandavam-lhe os temores, a reanimavam. 
Aos poucos, cada msculo de seu corpo foi relaxando. Ele agora lhe beijava todo o rosto com doura, sem exigncia. Apenas compreenso.
Foi to simples seguir seu conselho...
Hesitante, Cilla ergueu uma das mos e tocou-lhe a face, deslizando os dedos pelo contorno da barba por fazer. Em questo de instantes, suas tmporas pararam de 
latejar. Ela murmurou o nome dele baixinho e aninhou-se entre seus braos.
Fletcher, por outro lado, sabia que devia se precaver. Aquela rendio absoluta era por demais tentadora... Naquele momento, porm, estava ali para confort-la. 
Era preciso ignorar o prprio desejo, atiado por aquele beijo to terno, pelo calor do corpo de Cilla junto ao seu. Ignorar o perfume floral que sua pele macia 
exalava.
Sabia que se a deitasse ali entre os lenis e a prendesse sob si, Cilla no ofereceria resistncia. Talvez at apreciasse tendo um motivo para esquecer-se dos problemas. 
Fletcher, no entanto, queria ser muito mais do que uma simples distrao temporria para ela.
Lutando com as prprias emoes, beijou-lhe a testa e recostou o rosto em seus cabelos.
  Est se sentindo melhor?
Cilla respirou fundo e assentiu, no se atrevendo a falar. Na verdade, gostaria de permanecer ali para sempre, nos braos de Fletcher, ouvindo-lhe as batidas aceleradas 
do corao. Mas ele, na certa, a julgaria uma boba.
  Eu... desconhecia esse seu lado to humano, Fletcher. 
Ele achou graa do comentrio:
  S o revelo em ocasies especiais.
  Entendo. Bem, voc cumpriu muito bem seu dever.
Fletcher preferia achar que ela falava srio e no apenas com o intuito de provoc-lo. Ainda assim, ergueu-lhe o queixo com a ponta de um dedo e afirmou:
  O beijo que lhe dei no tem nada a ver com meu trabalho. Beijei-a porque quis, porque tive vontade, entendeu?
Seu intuito tinha sido o de agradecer-lhe pelo carinho e no o de aborrec-lo. Contudo, vendo seu tom de advertncia, Cilla franziu a testa.
  Entendi.
  Ainda bem.
Revoltado, Fletcher enfiou as mos nos bolsos da cala.
S naquele momento foi que Cilla notou que ele usava apenas a cala jeans, sem cinto. O friozinho que sentiu no estmago, e que lhe roubou a fala, no tinha nada 
a ver com o medo.
Desejava-o muito. No apenas para trocarem uns beijos apaixonados ou uns abraos carinhosos. Queria-o ali, em sua cama, como seu amante. Jamais um homem lhe despertara 
aquela vontade. Reparando em seu peito bronzeado, nos quadris estreitos, no movimento dos msculos do brao quando a mo se movia, no podia deixar de imaginar qual 
a sensao de ser possuda por Fletcher. Um homem forte, corajoso mas capaz de gestos de intensa ternura.
 Mas, afinal, o que est acontecendo com voc, garota?  Cilla murmurou inadvertidamente. 
 O que disse?  perguntou Fletcher, tirando-a daquele devaneio.  Est falando sozinha?
  Bem, eu...  Com a boca seca e um n na garganta, Cilla piscou vrias vezes imaginando o que ele diria se soubesse em que estava pensando.  Acho que vou tomar 
um caf,
"Ou, quem sabe, um banho gelado surtisse melhor efeito", corrigiu-se em pensamento.
  Sua irm j preparou.
Bastante srio, Fletcher estudou-a enquanto franzia a sobrancelha. Por um momento, lembrou-se de Deborah quando, h pouco, tropeando no sof, quase cara em seu 
colo. A garota usava apenas um robe entreaberto por baixo do qual ele pde ver a lingerie. Deborah tinha umas pernas lindas, um corpo escultural, entretanto no 
o atraa.
J Cilla lhe parecia irresistvel naquele pijama largo cuja camiseta cor de laranja trazia um emblema de um time de beisebol.
  Por que no toma um caf da manh reforado?  perguntou, de sbito, interrompendo o curso dos pensamentos.
  No costumo comer nada pela manh.
  Abra uma exceo. No vai demorar mais do que dez minutos.
  Oua, Fletcher, no gosto que...
  E veja se penteia os cabelos  ele acrescentou j saindo do quarto.
Na cozinha, encontrou Deborah, j vestida, tomando uma xcara de caf e, ao v-lo, a garota pulou da cadeira. Evidente que o aguardava com ansiedade.
  Sua irm est bem. Vou lhe preparar uma caf reforado.
Deborah espantou-se, porm no retrucou.
  Oua, por que no senta e fica  vontade? Deixe a cozinha por minha conta.
    Pensei que tivesse aula logo cedo.
    Posso perfeitamente faltar.
Fletcher pegou uma xcara e aproximou-se da cafeteira para se servir.
  Acho que ela vai ficar brava conosco se voc no for  escola.
Deborah riu da observao precisa e abriu a gaveta  procura de uma colher para o acar:
  Voc j a conhece bem, no ?
  Nem tanto.  Fletcher bebeu metade da xcara num s gole e apreciou o calor da bebida descendo pela garganta. Era preciso pensar em Cilla apenas em termos profissionais, 
caso contrrio poria em risco o sucesso da misso.  Voc tem algum tempo para conversarmos?
  Cinco minutos.
  Conte-me sobre o ex-marido de sua irm.
  Paul?  Deborah indagou sem surpresa.  Por qu?  E balanou a cabea antes que ele respondesse.  No est suspeitando que Paul esteja envolvido nessa histria, 
est?
  Suspeito de tudo e de todos. O divrcio foi amigvel?
  E por acaso algum divrcio o ?
Apesar da pouca idade, Deborah era bastante observadora.
  Estou interessado no de sua irm.
  Bem, eu diria que sim, na medida do possvel.  No lhe agradava o fato de estar revelando dados sobre a vida particular de Cilla, porm tinha conscincia de 
que o fazia pensando em seu bem.  Eu tinha apenas doze anos na ocasio, e Cilla nunca conversou abertamente comigo a esse respeito, mas sempre tive a impresso 
de que foi Paul quem pediu o divrcio.
  Por qu?
Constrangida, Deborah aprumou os ombros:
  Ele tinha se apaixonado por outra mulher  revelou torcendo para que a irm no a julgasse uma traidora.  Fui morar com eles logo depois que meus pais morreram, 
mas os dois j viviam brigando. Cilla tinha poucos meses de casada, porm... Bem, acho que a lua-de-mel terminou cedo demais. Cilla j comeava a ficar famosa com 
seu programa em Atlanta, e Paul, que era do tipo conservador, reprovava o fato de minha irm trabalhar no rdio. Ele queria concorrer a um cargo de deputado e achava 
que a imagem de Cilla ia prejudic-lo.
  Para mim, seria justamente o contrrio. Deborah riu e serviu-lhe mais um caf.
 Lembro-me de como era difcil para ela prosseguir com a carreira e manter o casamento. Foi uma poca penosa para todos ns, e o fato de Cilla ter de arcar com 
a responsabilidade de me criar s complicou as coisas. Depois de dois meses da minha chegada, ele saiu de casa e pediu o divrcio. Cilla concordou sem contestar.
Fletcher imaginou o contexto: Cilla, com vinte anos de idade, tendo acabado de perder os pais, arcava com a criao da irm menor e via seu casamento desmoronar.
  Pelo que vejo, o divrcio s fez bem a ela.
 Para ser franca, nunca gostei muito de Paul. Ele era um sujeito fraco, sem personalidade. Um chato.
  Por que ela casou com ele?
 Por que no pergunta a mim mesma?  Cilla indagou aproximando-se da porta da cozinha.






CAPITULO V

Cilla seguira o conselho de Fletcher e prendera os cabelos num rabo-de-cavalo, deixando o rosto  mostra. Seus olhos faiscavam, e as mos, cerradas, ela enfiara 
nos bolsos da cala do agasalho de ginstica que vestira sobre o pijama.
  Cilla  disse Deborah num tom suave, dando um passo em direo  irm.  Estvamos falando sobre...
  Pode deixar; eu ouvi a conversa.  Ento, voltou-se para Deborah com uma expresso serena:  No se preocupe, querida, no foi culpa sua.
  No  uma questo de culpa. Ns nos preocupamos com voc.
  Nada vai me acontecer. Agora,  melhor voc se apressar ou vai acabar perdendo a aula. Eu e o investigador Fletcher precisamos ter uma conversinha.
Deborah ergueu os braos e soltou-os ao longo do corpo em sinal de derrota. Ento, lanou um olhar solidrio para Fletcher e beijou a irm.
  Tudo bem. No adianta querer discutir com voc esta hora da manh.
  Espero que v bem na prova.
   o que desejo. Josh e eu combinamos de ir ao cinema hoje  noite, mas prometo chegar cedo em casa.
  Divirtam-se.  Cilla aguardou, imvel, at ouvir a porta fechar. Ento, voltou-se para Fletcher, dando vazo ao dio que lhe ardia no peito:  Que coragem!
Ele, inabalvel, tirou mais uma xcara do armrio:
  Quer um caf?
  No gostei de v-lo submetendo minha irm a um interrogatrio. Fletcher encheu a xcara e deixou-a sobre a mesa.
  Vamos esclarecer uma coisa.  Cilla aproximou-se dele mantendo as mos nos bolsos. Se as tirasse, temia descontrolar-se a ponto de esbofete-lo.  Quando quiser 
saber alguma coisa a meu respeito, venha perguntar a mim, entendeu? No quero ver Deborah envolvida nesse caso, como j disse.
  Ela  muito mais direta e objetiva do que voc. Por acaso, tem uns ovos a na geladeira?  perguntou, j abrindo a porta do refrigerador.
Cilla conteve o mpeto de bater-lhe a porta nos dedos.
 Confesso que por uns instantes voc conseguiu me enganar e cheguei a pensar que Tosse um bom sujeito.
Fletcher encontrou meia dzia de ovos, um pedao de queijo e algumas fatias de bacon.
  Por que no se senta e toma o caf, Cilla? Irritada, ela o xingou e viu nos olhos dele um brilho perigoso que a intimidou. Fletcher, contudo, manteve a calma, 
e pegando uma panela sob a pia, comeou a fritar o bacon.
  Se quiser me impressionar, vai ter de aprimorar seu vocabulrio  disse depois de uns instantes.  Depois de dez anos trabalhando para a polcia, j no me choco 
com tanta facilidade.
  Voc no tinha o direito  ela alegou em voz baixa mas carregada de indignao.  No devia ter perguntado nada a Deborah. Ela era apenas uma criana, ainda abalada 
pela morte dos pais. Foi uma fase difcil voc no tinha o direito de faz-la recordar todo aquele sofrimento.
  Deborah se saiu muito bem.  Ele quebrou um ovo numa tigela e apertou a casca na mo.  Parece que o problema  s com voc.
  Ora, me deixe em paz.
Fletcher segurou-lhe o brao com tal rapidez que Cilla no teve tempo de sair da cozinha. Seu tom era perigosamente manso:
  De jeito nenhum.
  O que aconteceu no passado no tem relao alguma com o que est acontecendo agora; e  s isso o que me preocupa. O resto, no lhe diz respeito.
 Eu  que sei o que me diz respeito.  Respirando fundo, Fletcher fez um esforo sobre-humano para se conter. Ningum nunca o provocara daquela forma, levando-o 
 beira do descontrole.  Se quiser enterrar o assunto, conte logo tudo o que houve e no voltarei a aborrec-la. Ex-maridos so sempre suspeitos em casos de ameaas.
 Foi h oito anos!  Cilla exclamou ao pegar a xcara que ele deixara na mesa.
S que, com a pressa, parte do caf derramou no pires.
 Ou voc fala ou terei de apelar para outras fontes. De uma forma ou de outra, obterei as informaes de que preciso.
 Ento, quer mesmo que eu lhe conte tudo? Est certo. A esta altura, j no me importo com mais nada. Eu tinha vinte anos e era to ingnua quanto uma garota de 
quinze. Ele era bonito, charmoso e inteligente: tudo que uma garota ingnua procura num rapaz.
Cilla bebeu um gole de caf e pegou um pano para enxugar o pires e a mesa.
 Namoramos apenas dois meses. Paul era muito romntico, persuasivo, e resolvi me casar porque queria algo estvel em minha vida. E, sobretudo, porque pensei que 
ele me amasse.
Ela surpreendeu-se mais calma, menos agitada e pegou uns pratos no armrio.
  As coisas entre ns comearam a dar errado desde o incio do casamento. Paul ficou decepcionado comigo fisicamente e no se conformava em saber que eu considerava 
meu trabalho to importante quando o dele. Seu intuito era me fazer mudar de profisso para que meu trabalho no interferisse em seus planos.
  Que planos eram esses?  perguntou Fletcher pondo o bacon sobre uma toalha de papel para escorrer a gordura.
 Ele pretendia ingressar na poltica. Na verdade, nos conhecemos numa festa beneficente organizada pela emissora onde eu trabalhava. Paul foi l  caa de votos, 
e eu comandava a festa. O problema todo estava exatamente a: no nos conhecamos como pessoas; apenas como personagens.
 E o que aconteceu depois?
 Ns nos casamos depressa demais e comeamos a nos desentender com a mesma rapidez. Eu j estava at pensando em seguir o conselho dele e mudar para o ramo de marketing, 
na tentativa de salvar o casamento. Foi quando meus pais morreram e eu trouxe Deborah para morar conosco.
Lembrando-se de toda a dor, de todo o sofrimento que haviam passado na poca, Cilla calou-se por uns instantes .
 Deve ter sido difcil para vocs, no?
 Fiquei muito abalada e precisava trabalhar para me distrair e no ter tempo de pensar nos problemas. A tenso foi aos poucos destruindo nosso casamento, que j 
vinha bastante abalado, e Paul acabou me trocando por outra.  s.
"E agora, o que dizer?", Fletcher se perguntava. "Fez muito bem em ter se livrado desse panaca? Todos ns cometemos erros?" Refletindo bem, achou melhor omitir qualquer 
comentrio.
 Alguma vez ele a ameaou?
 No.
 Nem a espancou?
 No, no. Acho que voc est fazendo uma imagem errada de Paul. Ele era um bom sujeito, s que cometemos o erro de nos casarmos cedo demais. Nenhum dos dois estava 
preparado para enfrentar a vida de casados.
Pensativo, Fletcher serviu-lhe uma poro de ovos mexidos.
  s vezes as pessoas guardam um certo ressentimento, mesmo sem perceber. Ento, um dia, acabam explodindo.
  Paul no ficou magoado comigo  Cilla afirmou ao partir em dois uma fatia de bacon torrado.  Ele no gostava de mim a esse ponto.  Ela sorriu mas seus olhos 
continuaram tristonhos.  Paul pensava que eu fosse exatamente como a voz que ouvia pelo rdio: sedutora, sofisticada, sexy. Era este o tipo de mulher que queria 
na cama. Em pblico, queria aparecer acompanhado por uma esposa glamourosa, elegante, devotada. Eu no era nada disso. Por outro lado, ele tambm se revelara bem 
diferente do rapaz atencioso e compreensivo que imaginei, e a decepo foi mtua. Nos divorciamos de modo amigvel, sem brigas, e cada um seguiu seu caminho.
  Sinto que voc est me escondendo alguma coisa. Se foi tudo to simples, por que se recusa a falar no assunto at hoje?
Cilla ergueu os olhos e o fitou serssima:
  Voc nunca foi casado, no ?
  No.
  Ento, no adianta explicar. Se quiser cham-lo para depor, esteja  vontade, mas ser perda de tempo. Posso lhe garantir que ele nunca mais deve ter pensado 
em mim desde que sa de Atlanta.
Fletcher duvidava que algum homem fosse capaz de esquec-la, porm achou melhor encerrar o assunto.
  Voc est demorando para comer; os ovos vo esfriar.
  Eu lhe disse que no costumo comer nada pela manh.
  H sempre uma primeira vez  ele afirmou e, tirando uma garfada, levou-a aos lbios de Cilla.  Experimente.
  Puxa, como voc  teimoso!  ela exclamou depois de engolir.  No est na hora de ir se apresentar ou coisa parecida?
  J telefonei para a central a noite passada, depois que voc foi dormir.
Ela brincava com a comida tirando uma garfada de vez em quando s para que ele no a aborrecesse. Comovia-a saber que ele passara a noite no sof mesmo j no estando 
em servio.
  Fletcher, quero lhe agradecer por ter ficado aqui esta noite e sei que faz parte do seu servio me fazer este tipo de perguntas, mas quero que deixe minha irm 
longe desse caso.
  Prometo poup-la o mais que puder.
  As frias esto se aproximando e quero ver se consigo convenc-la a ir passar uns dias na praia.
  Boa sorte  respondeu Fletcher, observando-a por sobre a borda da xcara.  No lhe faria mal algum fazer-lhe companhia por uns dias. Voc precisa descansar.
  No; no quero fugir.  Enfastiada, empurrou o prato ainda cheio para o lado e apoiou os cotovelos na mesa.  Cheguei a pensar nisso depois do telefonema de ontem 
pela manh, mas percebi que seria intil. S voltarei a ter sossego depois que descobrirmos quem  esse sujeito e o que quer de mim. 
 Isso faz parte do meu trabalho. 
 Eu sei. Foi por esse motivo que decidi cooperar. 
 Ah, decidiu? 
 Hum hum. De hoje em diante, minha vida ser um livro aberto. Responderei a qualquer pergunta que me fizer.
  E far tudo o que eu lhe disser?
  No. Isto , s farei o que julgar razovel.  E, surpreendendo a ambos, tocou-lhe uma das mos.  Voc me parece cansado; no dormiu bem  noite?
  No foi exatamente uma noite tranqila.  Antes que Cilla encolhesse a mo, Fletcher entrelaou-lhe os dedos com os seus.  Voc  ainda mais bonita pela manh. 
Mais uma vez ela sentiu aquele friozinho no estmago.
  No foi o que insinuou ainda h pouco, no meu quarto.
  Mudei de idia  afirmou com um sorriso charmoso.  Antes de ir embora, gostaria de conversar a respeito da noite passada e o que houve entre ns.
  No acho que seja uma boa idia.
  De fato, no .  Fletcher continuou segurando-lhe a mo.  Sou o policial designado para proteg-la, para desvendar o seu caso. No h como negar essa verdade. 
Porm, tampouco posso negar que te desejo. Muito.
Cilla permaneceu calada e imvel, sentindo o corao bater disparado. Ento, ergueu o olhar, apenas o olhar, lentamente, at encar-lo e achou excitante o brilho 
clido que viu nos olhos verdes de Fletcher.
  Acho que me precipitei  ele reconheceu diante do silncio dela.  Mas creio que para certas coisas no h um momento ideal. Estou tentando desempenhar meu trabalho 
da forma mais objetiva possvel, porm confesso que no est sendo fcil. Se quiser que a central designe outra pessoa para me substituir,  s dizer.
 No  ela respondeu depressa demais.  Isto   emendou , acho que no me sentiria  vontade sendo seguida por um outro policial. J estou acostumada com a sua 
companhia.  Ao se surpreender roendo a unha de um polegar, ela baixou depressa a mo.  Quanto ao resto... No somos mais crianas; saberemos como lidar com esta 
situao.
Fletcher j sabia que Cilla no admitiria o fato de a atrao ser mtua, mas no desistia de esperar pela confisso.
Vendo-o levantar da cadeira, Cilla pulou de susto e provocou em Fletcher um riso divertido:
  Calma, Cilla. S vou lavar a loua.
  Deixe que eu mesma lavo  ela disse, odiando-se por aquela reao desastrada.  Aqui em casa, temos um regulamento: um cozinha, o outro lava a loua.
  timo. Voc vai fazer uma externa para a rdio hoje ao meio-dia, no ?
  Sim. Como voc sabe?
  Verifiquei seu esquema de trabalho para hoje. Vamos sair com algumas horas de folga para que eu possa passar em casa e tomar um banho.
  Fletcher, vou estar no shopping center cercada por dezenas de fs. No acho que seja...
  Mas eu acho.
Quando Cilla voltou para a sala, encontrou-o recostado no sof lendo o jornal. Ele a fitou por sobre a beirada da pgina de esportes e refreou o comentrio que estava 
prestes a fazer a respeito de sua ligeireza ao se vestir.
Cilla estava linda naquela saia curta de couro vermelho vivo, justa nos quadris. Acostumado a v-la sempre de cala comprida, no fazia idia do quanto suas pernas 
eram longas e bem torneadas. A jaqueta, do mesmo tom e material, tinha abotoamento duplo sobre o peito e parava exatamente  altura da cintura. Fletcher imaginava 
o que Cilla estaria usando por baixo.
Os cabelos permaneciam soltos e volumosos porm cuidadosamente ajeitados sobre os ombros. J de p, Fletcher notou, ainda, que Cilla havia passado um pouco de blush 
no rosto e um lpis escuro no contorno dos olhos.
  Que coisa mais boba  ela murmurava enquanto lutava para colocar um brinco.  No sei quem foi que disse que os homens acham isso atraente. Diabo! No consigo 
lidar com este fecho. Por acaso voc tem jeito?
Ela havia se aproximado do sof e seu perfume o inebriava.
  Para qu?
  Para   colocar   brincos      Cilla   esclareceu, entregando-os.  No costumo us-los com freqncia e sou muito desajeitada. Quer me ajudar?
Fletcher procurava manter a respirao inalterada, mas era quase impossvel.
  Quer que eu ponha os brincos para voc? 
Impaciente, ela revirou os olhos:
 Puxa, voc custa para entender as coisas, no?  Ela entregou-lhe os brincos de pingentes dourados e puxou o cabelo para trs da orelha.   s colocar e prend-lo 
com a tarraxa.
Fletcher resmungou algo incompreensvel e comeou a coloc-los. Havia um peso em seu peito que o impedia de respirar fundo. Jamais conseguiria esquecer aquele perfume.
Desajeitado, custou um pouco mas conseguiu prend-los.
   uma coisa to simples.
   sim.
Cilla mal conseguia falar. No momento em que sentira o breve roar dos dedos de Fletcher em seu pescoo, percebera que havia cometido um erro ao pedir-lhe ajuda. 
O hlito quente a tocar-lhe a nuca era pura provocao.
Ento Fletcher comeou a deslizar-lhe a ponta de um dedo pelo maxilar inferior, para baixo e para cima, tocando-lhe um ponto sensvel junto  orelha. Cilla, excitada, 
reprimiu um murmrio e ergueu uma das mos, bastante trmula.
  Oua, acho melhor pararmos por aqui.
  Tudo bem.  Fletcher soltou a respirao e deu um passo para trs. Sentia-se um tolo, um adolescente desastrado e inexperiente. Contudo, ficou satisfeito ao ver 
que Cilla no era imune aos seus carinhos. Sorrindo, balanou um dos brincos com a ponta dos dedos e acrescentou:  Quando precisar de ajuda,  s me chamar.
Cilla preferiu no responder e foi tirar os casacos do armrio. Deixou o palet de Fletcher sobre o sof e o observou recolocar o coldre sob a camisa. Aquela imagem 
trouxe-lhe  mente lembranas desagradveis e ela preferiu sair da sala indo esper-lo no jardim. Fletcher no comentou nada ao entrar no carro.
  Voc se incomoda se eu puser o rdio na KHIP?  Cilla indagou acomodando-se no banco de passageiro.
  No, no.  a estao nmero trs na memria.
Satisfeita, ela sintonizou a rdio. A equipe humorstica do show da manh realava suas brincadeiras e piadas com efeitos sonoros divertidssimas. O locutor fez 
propaganda de uma pea teatral, prometeu dar mais trs pares de ingressos durante a programao e convidou os ouvintes a irem conhecer Cilla O'Roarke pessoalmente 
no shopping center.
  Ela estar distribuindo mais ingressos de teatro, camisetas e discos  Fred anunciou.
  Ora, Fred  interveio o segundo locutor , voc sabe que os rapazes no esto interessados em ganhar camisetas. Eles vo l s para conhecer Cilla  acrescentou 
ao som de assobios e gritinhos.
  Que engraadinhos  Fletcher ironizou enquanto Cilla ria.
  Faz parte do programa deles  ela explicou.  As pessoas gostam de programas alegres e cheios de bobagens a esta hora da manh, quando esto saindo da cama ou 
rumando para o trabalho. A ltima pesquisa apontou-os como campees do horrio.
  Voc deve se divertir quando v um rapaz suspirar por sua causa.
 Ora, faz parte da fama!  Cilla comentou, bem-humorada demais para sentir-se ofendida. Olhando ao redor, reparou no luxuoso carro esporte cheirando a novo. Um 
carro e tanto para um policial.  Vamos, Fletcher, no fique aborrecido.
Reconhecendo estar se portando como um tolo, ele resolveu calar-se. Suas investigaes j haviam provado que ambos os apresentadores do tal programa eram bem casados. 
Frantic Fred e a esposa esperavam o primeiro filhinho. Os dois trabalhavam na KHIP havia quase trs anos e s a conheceram ali na rdio.
Mais relaxada, Cilla olhou pela janela. O dia prometia ser bonito e quente, j num prenncio da primavera. Seria sua primeira primavera ali no Colorado.
A estao, no entanto, a sua preferida, trazia-lhe lembranas dos tempos em que morara na Gergia, onde o perfume das magnlias pairava no ar. Os ps haviam sido 
plantados por seu pai.
  Cilla? Voc est bem?
  Ah, claro.  De volta  realidade, reparou na alameda arborizada que conduzia a um sobrado de trs andares com detalhes em pedra e madeira. As janelas altas reluziam 
ao sol.  Onde estamos?
  Na minha casa. Preciso trocar de roupa, esqueceu?
  Sua casa?
  Isso mesmo. Afinal, todo mundo tem um lugar para morar.
Era bem verdade, ela reconheceu ao abrir a porta para descer. Mas nunca conhecera um policial que morasse numa manso como aquela. O bairro tradicional era composto 
em sua maioria de famlias ricas, de estirpe privilegiada.
Surpresa e bem impressionada, Cilla o acompanhou at a porta de entrada, em vidro rayban.
O hall de entrada era amplo, o assoalho e o teto de madeira avermelhada envernizada. As paredes eram de coradas por quadros de pintores famosos, e uma escada curva 
conduzia ao segundo andar.
  Pensei que voc fosse um policial honesto.
  E sou.
Fletcher tirou-lhe o casaco dos ombros e pendurou no espaldar de uma cadeira. Cilla, no fundo, no tinha dvidas quanto  honestidade dele, porm, era preciso muito 
dinheiro para se ter uma casa daquele tamanho.
 Herdei muito dinheiro de minha av  ele explicou como se lhe adivinhasse os pensamentos.
Pegando-a pelo brao, Fletcher a conduziu atravs de uma porta em arco rumo a um outro ambiente. A sala de estar era belssima, decorada com muito bom gosto. O detalhe 
que mais chamava ateno ali era a lareira de pedras ricamente adornada por uma moldura entalhada. Cada uma das paredes externas tinha uma janela imensa com vista 
para o gramado.
Havia diversas peas antigas espalhadas pelos mveis, misturadas a esculturas modernssimas numa combinao indita e refinada. Atravs de outra porta em arco, Cilla 
pde ver a sala de jantar.
  Puxa, sua av devia ter muito dinheiro.
  Ela era uma pessoa muito especial. Presidiu as Indstrias Fletcher at os setenta anos de idade.
  O que produzem as Indstrias Fletcher?
  Um pouco de tudo. O negcio pertence  nossa famlia e atua desde a minerao at o ramo imobilirio.
  Minerao? Voc quer dizer ouro?
  Entre outras coisas.
Cilla cruzou os dedos para evitar roer as unhas.
 Ento, por que no est sentado num escritrio contando seus dlares se multiplicarem?
 Porque gosto de ser policial  afirmou, imperturbvel.  Algo errado?
  No. Acho melhor voc ir trocar de roupa. Preciso chegar ao shopping antes do horrio marcado.
  Prometo no demorar.
Ela esperou que ele subisse e ento afundou-se num dos sofs da sala. Indstrias Fletcher... Tirando um cigarro da bolsa, acendeu-o e observou melhor o ambiente. 
Elegante, sofisticado e...rico.
Embora no gostasse de admitir, reconhecia que alimentava uma pequena, bem pequena, esperana de que pudessem ter um relacionamento mais pessoal, mas agora, vendo 
que ele pertencia a uma classe to alta, suas esperanas caam por terra. Fletcher devia pertencer a uma famlia milionria. Ela,por sua vez, no passava de uma 
moa simples, nascida e criada numa cidadezinha no interior da Gergia. Evidente que tinha conquistado uma certa fama em seu ramo de atividade, mas suas origens 
eram bem humildes.
Agitada, levantou-se e foi jogar o cigarro na lareira.
Esperava que Fletcher voltasse logo para que pudessem ir embora dali. Mal via a hora de comear a trabalhar e se distrair para no ter tempo de pensar na confuso 
em que sua vida se transformara. Era melhor abafar seus sentimentos com relao a Fletcher e voltar a encar-lo como profissional.
Assim que o caso das ameaas estivesse esclarecido, cada um seguiria seu caminho e jamais voltariam a se encontrar. A relativa intimidade de que desfrutavam no momento 
nascera de uma mera circunstncia e acabaria to logo deixassem de se ver. Cilla estava de p junto  janela quando Fletcher voltou para a sala. A luz do sol produzia 
reflexos lindos em seus cabelos, e Fletcher reconheceu que ali era o lugar dela.
Era incrvel como a presena dela preenchia o ambiente, dava mais vida  casa. Queria-a ali para sempre; dona da casa, dona dos seus sonhos.
Ela certamente discutiria e se recusaria a desempenhar aquele papel, caso Fletcher lhe desse uma chance. Sorrindo, ele se aproximou dela e decidiu que o melhor era 
no dar-lhe oportunidade de escolher.
  Cilla.
Assustada, ela virou-se para trs.
  Oh. No o vi entrar. Eu estava...
As palavras morreram-lhe na garganta no exato instante em que Fletcher segurou-a pelos braos e puxou-a para si, beijando-lhe os lbios.
Cilla s conseguia comparar o que sentia aos ventos fortssimos que antecedem as tempestades de vero, as ondas imensas de uma ressaca quando chegam  praia. Havia 
um turbilho de emoes e sensaes em seu ntimo.
Sua vontade era empurr-lo, mas suas mos o puxavam para mais perto. Estava tudo errado; era uma loucura. Uma deliciosa loucura...
Ao pressionar o corpo contra o dele e corresponder s exigncias de seus lbios, entendeu que ainda h pouco mentira para si: queria-o muito, apesar das diferenas, 
apesar de tudo.
Por mais amedrontador que fosse, sabia que precisava de seu apoio, de seu carinho. Era como se at ento sua vida tivesse sido uma longa espera at que, um dia, 
seus caminhos se cruzassem.
As mos de Fletcher deslizavam pelo couro da saia  medida que ele amoldava os quadris de Cilla aos seus. Dois corpos que se completavam perfeitamente, feitos um 
para o outro. Fletcher queria ouvi-la gemer, murmurar seu nome, confessar que tambm o desejava.
E, de fato, ouviu-a gemer quando a obrigou a pender a cabea para trs para que pudesse deslizar-lhe os lbios tmidos por seu pescoo. Excitadssimo, desabotoou 
os botes da jaqueta vermelha e descobriu-a nua.
Cilla arqueou as costas e prendeu o flego quando Fletcher tocou-lhe um seio. Seus joelhos fraquejaram, obrigando-a a se apoiar nos ombros dele e no conseguiu abafar 
um gritinho de prazer ao senti-lo acariciar-lhe um mamilo.
Num gesto irrefletido, Cilla tomou a iniciativa de aprofundar o beijo, numa ousadia que deixou-os ainda mais excitados. Ansiosa por toc-lo com a mesma intensidade 
com que era tocada, puxava-lhe o palet com fora, num apelo mudo para que o tirasse.
Mas, de repente, suas mos esbarraram no couro do coldre e tocaram o metal frio da arma.
Foi como uma ducha de gua gelada. Cilla encolheu os dedos e deu um passo para trs. Apoiando as mos sobre uma mesinha, ela pendeu o pescoo para frente e balanou 
a cabea.
 Estamos cometendo um terrvel engano  disse pausadamente.  No quero mais me envolver com ningum.
 Tarde demais.
 No , no.  Com mos trmulas, ela tornou a abotoar a jaqueta e pediu:  Vamos embora.
Fletcher, contudo, permaneceu exatamente onde estava.
 Antes de irmos, quero ouvi-la dizer que no sente nada por mim. Olhos nos olhos.
Cilla forou-se a encar-lo.
 Seria intil negar que voc me atrai. Ambos j sabemos disso.
 Quero traz-la para c esta noite. Podemos passar a noite juntos.
Mas Cilla balanou a cabea com mais fora. No queria sequer imaginar como seria passar umas horas ali na casa dele, na cama dele.
 No posso.
 Por qu?  quis saber Fletcher, aproximando-se sem toc-la.  Voc j me falou que no tem namorado. E, se tivesse, no faria diferena nenhuma para mim.
 No  por causa de ningum.  por minha causa.
 Ento, por que no me conta do que tem medo?
 Tenho medo de atender ao telefone.  E era verdade, embora no fosse aquele o motivo da recusa.  Tenho medo de dormir, medo de acordar.
Fletcher esticou um brao e tocou-lhe o rosto com suavidade.
 Entendo o que sente e farei o que for possvel para ajud-la. Porm, ambos sabemos que no  esse o motivo que a impede de vir dormir aqui comigo esta noite.
 H outros motivos.
 Quais? D-me pelo menos um.
 Voc  policial  disse Cilla indo pegar a bolsa.
 E dai?
 Minha me tambm era  ela revelou saindo da sala.
  Ei! Espere!
  Afaste-se, Fletcher; estou falando srio.  Ainda bastante agitada, ela vestiu o casaco.  Minha vida j est complicada o bastante; no preciso arranjar mais 
problemas. Vou pedir  central que providencie um policial para substitu-lo. Agora, se no puder me levar ao shopping center, vou chamar um txi.
Ele percebeu que se a forasse mais um pouco, Cilla acabaria entrando em colapso.
  Eu a levo at J e prometo me afastar. Por enquanto.






CAPITULO VI

Cilla descobriu que Fletcher era um homem de palavra. Durante o resto do dia, e todo o dia seguinte, ambos s conversaram sobre assuntos profissionais.
No que ele tivesse se retrado ou se mostrado distante. Ao contrrio: acompanhou-a o tempo todo em que esteve no shopping transmitindo o programa, e afastava os 
fs mais afoitos que se aproximavam demais para pedir um autgrafo ou uma camiseta.
Fletcher parecia at ter se divertido bastante. Circulou vrias vezes pelas lojas durante os intervalos, conversou com o engenheiro de som que os acompanhava e cuidou 
para que Cilla tivesse sempre um copo de refrigerante a seu lado.
Com os outros, ele era o mesmo. Mas, com ela, Fletcher havia mudado. S se aproximava para uma conversa fria e impessoal e no a tocou nem de leve. Em resumo: tratava-a 
como Cilla pensara que preferia ser tratada. Um relacionamento puramente profissional.
Enquanto ele agia com naturalidade, oferecendo-se at para pagar-lhe um hambrguer depois do programa, antes que voltassem para a rdio, Cilla no conseguia ocultar 
o desaponto.
Foi Althea quem a acompanhou na cabine nas duas noites seguintes e monitorou os telefonemas. Cilla no entendia por que, mas a ausncia de Fletcher e seu sbito 
silncio a entristeciam.
Refletindo sobre o que acontecia, concluiu que poderia tratar-se de uma nova ttica de Fletcher. Ignorando-a talvez quisesse obrig-la a tomar a iniciativa de se 
reaproximar. Pois enganava-se. Cilla ps no ar o mais novo sucesso de Bob Seger e fechou o microfone.
Queria que o relacionamento entre eles se mantivesse em termos estritamente profissionais e era isso o que Fletcher estava fazendo. Porm, no precisava se empenhar 
tanto.
Com certeza, o que houvera entre eles, ou o que quase houvera, no significara muito para ele. Tanto melhor. Ficava mais fcil esquec-lo sabendo que Fletcher no 
lhe dava tanta importncia. A ltima coisa que precisava na vida era um policial milionrio e sedutor.
Pena que no conseguisse passar cinco minutos que fosse sem pensar em Fletcher...
Enquanto Cilla lidava com a mesa de controle, Althea se distraa fazendo palavras cruzadas. Nunca se importara em ficar horas parada num mesmo lugar desde que tivesse 
algo com que exercitar a mente. J Cilla O'Roarke, constatou, era bem diferente. A garota era uma pilha de nervos e no sabia relaxar. Preenchendo os quadrinhos 
com sua caligrafia precisa, Althea reconheceu que Fletcher era o homem ideal para uma mulher assim. A seu lado, Cilla aprenderia a viver melhor.
Naquele momento, via-se que ela estava ansiosa para iniciar uma conversa. Mas, no uma conversa qualquer. Althea notara seu desapontamento ao deparar com ela em 
lugar de Fletcher na porta da emissora.
"Ela deve estar curiosa, querendo saber onde est Fletcher", pensou Althea mordendo a ponta da caneta.
Como mera espectadora, a situao lhe parecia divertida. Fletcher tambm andava muito calado nos ltimos dias. Pelo que soube, ele havia feito um levantamento mais 
detalhado do passado de Cilla e descobrira fatos que o perturbaram. Fatos de cunho pessoal, com certeza; de outra forma, teria lhe revelado a descoberta.
Porm, mesmo sendo colegas h tanto tempo, ambos respeitavam a privacidade do parceiro, evitando a todo custo qualquer pergunta mais ntima. Quando estivesse disposto, 
Fletcher a procuraria naturalmente para discutirem o caso.
De repente, Cilla empurrou a cadeira para trs:
  Vou buscar um caf. Quer tambm?
  Nick no lhe traz uma xcara todas as noites?
  Esta  sua noite de folga.
  Quer que eu v buscar o caf?
  No.  Sua agitao era indisfarvel.  Tenho quase sete minutos at que a fita termine e preciso esticar as pernas.
  Tudo bem.
Cilla foi at o corredor e notou que Billy, o faxineiro, j havia passado por l. O assoalho brilhava como espelho, e as xcaras de loua, j lavadas, estavam todas 
empilhadas. O cheirinho silvestre de desinfetante pairava no ar.
Enchendo duas xcaras, virou-se com uma em cada mo e viu o vulto de um homem parado junto  porta. Assustada, gritou de medo e deixou as duas xcaras carem no 
cho.
  Srta. 0'Roarke?
Billy aproximou-se, hesitante.
  Oh, meu Deus!  Cilla apertou uma das mos sobre o peito.  Pensei que voc j tivesse ido embora!
  Eu...  Ao ver Althea vir correndo pelo corredor com uma arma em punho, o faxineiro ergueu as mos, apavorado.  Eu no fiz nada. Juro que no!
  A culpa foi minha  disse Cilla tocando-lhe o brao de leve.  Eu no sabia que havia algum por aqui a esta hora, e quando me virei...  Desolada, cobriu o rosto 
com as mos.  Sinto muito; ando um pouco assustada.
  O sr. Harrison trouxe uns amigos para almoarem hoje no escritrio  Billy explicou, fitando-a com olhos muito arregalados.  Havia muitos pratos e demorei mais 
para terminar a faxina.
 Me desculpe, Billy. Tambm devo t-lo assustado bastante.  E olhou ao redor.  Sujei todo o assoalho que j estava limpo,
  No tem importncia  ele garantiu, j mais calmo, vendo Althea guardar o revlver.  Eu limpo outra vez. A senhorita vai tocar muitos sucessos dos anos 50 no 
programa de hoje? So os meus favoritos.
  Claro. Vou dedicar um deles especialmente para voc.
Billy abriu um sorriso radiante:
  Vai falar meu nome no ar?
  Claro que sim. Agora, preciso voltar  cabine. Cilla voltou depressa para a cabine e ficou feliz por ver que Althea permanecia l fora. Gostava de um pouco de 
solido.
O susto servira para lhe mostrar em que estado de nervos estava nos ltimos dias. O melhor era se dedicar ainda com mais afinco ao trabalho e esquecer os problemas. 
Quando Althea entrou na cabine trazendo outro caf, encontrou Cilla convidando os ouvintes a permanecerem ligados em mais uma frequncia de sucessos:
 Agora, vou tocar uma srie de dez sucessos sem interrupo e o primeiro ser dedicado ao meu grande amigo Billy, que no perde um s programa. Vamos juntos voltar 
ao ano de 1958 e ouvir o inigualvel Jerry Lee Le wis com Great Balis of Fire.
Desligando o microfone, ensaiou o sorriso amarelo e voltou-se para Althea:
  Me perdoe, sim?
  Eu provavelmente teria reagido da mesma forma se estivesse no seu lugar.  Althea estendeu-lhe uma das xcaras.  Estas ltimas semanas no tm sido fceis para 
voc, no ?
  Terrveis, eu diria.
  No se preocupe. Vamos conseguir peg-lo.
  Espero que sim.  Cilla pegou um disco e procurou a faixa que pretendia tocar.  Por que escolheu a carreira de policial?
  Eu queria me destacar em alguma coisa e consegui me sair bem nesta profisso.
  Voc  casada?
  No.  Althea no sabia onde Cilla pretendia chegar.  A maioria dos homens no se aproxima de mulheres que sabem manejar uma arma.  Ento, resolveu se abrir: 
 Voc deve estar imaginando que existe algo entre mim e Fletcher, no?
 Confesso que sim.  Cilla ergueu uma das mos pedindo silncio, anunciou a cano seguinte e tornou a fechar o microfone.  Vocs dois combinam muito bem.
Pensativa, Althea tomou uns goles de caf e sentou-se.
 Para ser franca, numa imaginei que voc tivesse essa mentalidade retrgrada e machista. Eu e Fletcher formamos uma dupla de trabalho, mas no dormimos juntos.
 No foi isso que eu pensei!  Cilla exclamou, ultrajada, pondo-se de p. Porm, diante do sorriso ameno de Althea, voltou atrs.  Pensei, sim.  E sorriu tambm: 
 Voc j deve estar acostumada com este tipo de suspeita, no ?
 Tanto quanto voc  respondeu Althea, apontando para a mesa de controle.  Ambas ocupamos cargos tidos pela maioria como tipicamente masculinos.
O pouco que tinham em comum ajudou Cilla a se descontrair na presena da policial.
 Havia um colega de rdio em Richmond que pensava que eu estava ansiosa para... dar umas voltinhas com ele.
Althea riu.
 E como voc conseguiu se livrar dele?
 Durante meu programa, anunciei que ele estava disponvel, solteirssimo e ansioso para conhecer outras garotas. As interessadas deviam ligar para a estao durante 
o programa dele.  Cilla sorriu ao recordar o episdio.  Nunca mais ele me aborreceu.  Ligando o microfone, anunciou a atrao seguinte: os pedidos telefnicos.
Aps uma breve previso do tempo, deu a hora certa e anunciou o sucesso seguinte. Ento, tirou os fones de ouvido. 
 Acho que Fletcher no desistiria to facilmente.
  No mesmo. Ele  um bocado teimoso. Alis, prefere ser chamado de paciente mas, para mim, aquilo  teimosia. Quando quer uma coisa, luta at o fim.
 J percebi.
 Ele  uma excelente pessoa, Cilla. Se no estiver interessada,  melhor que seja bem clara. Fletcher pode ser teimoso mas jamais seria inconveniente.
 H uma grande diferena em no estar interessada e no querer estar.
 Entendo o que quer dizer. Oua, espero no estar sendo indiscreta mas gostaria de lhe fazer uma pergunta.
 Claro.
 Por que voc diz que no quer se interessar? 
Cilla escolheu um outro disco e o acrescentou  pilha dos selecionados.
 Porque ele  um policial.
 Ento, se Fletcher fosse um vendedor voc se interessaria?
 Sim. No.  Suspirando, resolveu ser bem sincera para com Althea:  Seria mais fcil. Alm disso, j fracassei no nico relacionamento srio que tive na vida.
 Foi a nica culpada pelo divrcio?
 Oitenta por cento da culpa foi minha, sem dvida  revelou entre uma msica e outra.  Prefiro me preocupar com meu trabalho e o futuro de minha irm.
 Voc no  do tipo que se satisfaa com uma vidinha montona e cmoda.
 Pode ser que no  afirmou olhando para o telefone.  Mas, no momento,  o que mais quero.
Althea a admirava. Cilla era uma mulher de fibra e levava adiante seu trabalho mesmo sob um insuportvel estado de tenso. Ainda assim, enfrentava o prprio medo, 
melhor do que os sentimentos que comeava a alimentar com relao a Fletcher.
Sim. No havia dvidas de que ela estava apaixonada, porm, via-se que no sabia como agir diante de tal situao, que provavelmente lhe era indita.
Calada, Altnea viu-a vacilar antes de atender ao primeiro telefonema. Contudo, engolia o medo e atendia aos ouvintes com a simpatia de sempre. Com todos tinha uma 
conversa breve, amigvel e atendia a seus pedidos com satisfao.
Fletcher entrara em sua vida para proteg-la e no para amea-la; contudo, ela o temia. Suspirando, Althea indagava-se por que a chegada de um homem era capaz de 
transtornar a vida da mais autoconfiante das mulheres...
Se um dia se apaixonasse por algum, o que vinha conseguindo evitar at aquele momento, acharia uma maneira de racionalizar seus sentimentos e mant-los sob controle.
De repente, ouviu uma ligeira diferena no tom de voz de Cilla e no foi preciso olh-la para saber quem estava do outro lado da linha. De p, respirou fundo e murmurou:
  Mantenha-o na linha o mais que puder. Faa-o falar.
Cilla afastava o fone do ouvido, pois descobrira que desta forma se sentia menos intimidada pelas ameaas terrveis que o sujeito lhe fazia. Por outro lado, mantinha 
os olhos fixos no relgio que marcava o tempo transcorrido, e ficou satisfeita ao ver que j o mantinha na linha h mais de um minuto.
Com muito esforo, conseguia fazer-lhe perguntas, mesmo que no obtivesse as respostas. E cuidava para manter sempre a voz inalterada para no lhe dar o gosto de 
saber que a amedrontava.
Esta noite, esforava-se para no ouvi-lo e prestava toda ateno no relgio.
  Eu no o magoei  disse.  Nunca lhe fiz nenhum mal.
  Para mim, no. Para ele  o sujeito respondeu com voz sibiliante.  Ele est morto por sua causa.
  Mas, de quem voc est falando? Se me disser o nome...
  Voc ter de lembrar sozinha. Quero ouvi-la dizer o nome dele antes que eu a liquide.
Cilla fechou os olhos e contou at trinta enquanto ele descrevia o modo como pretendia mat-la.
  Voc devia am-lo muito. Ele deve ter sido muito importante.
  Ele era tudo para mim. Tudo que eu tinha. Ele era jovem, tinha a vida toda pela frente. Mas voc o magoou, o traiu, agora vai me pagar na mesma moeda. Sua vida 
pela dele.
Assim que ele cortou a ligao, Cilla ligou o microfone e anunciou o prximo sucesso com voz inalterada. Ento, ignorando as luzes piscantes dos telefones, acendeu 
um cigarro e deu uma tragada.
 Eles conseguiram localiz-lo.  Althea desligou o telefone e pousou uma das mos no ombro de Cilla.  Eles finalmente conseguiram. Voc se saiu muito bem esta 
noite, Cilla.
 .  Agora, era s vencer os ltimos setenta minutos de programa.  Acha que a polcia vai peg-lo?
 Saberemos daqui a pouco.  a primeira chance que temos, portanto vamos torcer para que tudo d certo.
Cilla j no suportava mais aquele tormento e no via a hora de tudo terminar. Althea guiava com cuidado pelas ruas desertas da cidade, e a msica suave do rdio 
as entretinha. A polcia havia conseguido descobrir de onde tinha sido dado o telefonema. Mas, o que isso significaria em termos prticos? Que descobririam o nome 
do tal sujeito? Que o prenderiam em flagrante?
Se tivesse uma oportunidade, faria questo de conhec-lo pessoalmente. Olharia-o bem dentro dos olhos e tentaria encontrar algum elo de ligao entre ele e seu passado. 
S assim descobriria o motivo de tanto dio.
Ao virarem a esquina, Cilla viu o carro de Fletcher estacionado em frente  sua casa. Ele estava de p na calada, o casaco desabotoado. A noite, apesar de estrelada, 
estava fria e de longe Cilla pde ver a nuvem de vapor que o hlito dele formava.
Ansiosa desceu logo do carro, e Fletcher aguardou que ela se aproximasse pela passagem da casa.
 Vamos entrar  disse-lhe, bastante srio.
 Quero  saber  de tudo    Cilla exigiu.  Porm, fitando-o, reconheceu a decepo estampada em seus olhos verdes.  No conseguiram peg-lo...
 No.
Fletcher olhou para Althea, que entendeu a mensagem e manteve o autocontrole.
 O que houve?
 Ele ligou de um telefone pblico a alguns quilmetros da estao de rdio, porm no deixou nenhuma impresso digital.
Cilla mordeu o lbio inferior:
 Quer dizer que voltamos ao ponto de partida?
 No  bem assim.  Fletcher segurou-lhe as mos procurando transmitir-lhe mais confiana.  Ele cometeu o primeiro erro e no tardar a cometer outros.
Apreensiva, Cilla olhou por sobre o ombro atravs da janela. O tal sujeito podia estar l fora naquele instante, oculto nas sombras, observando-a.
 Cilla, sente-se. Procure descansar um pouco.
 Eu estou bem.  S queria ficar sozinha no escuro de meu quarto, nada mais.  Agora, se me do licena, eu preferia ficar s. Althea, obrigada pela carona.
Ambos se entreolharam e se despediram, atendendo ao apelo dela.
 Entendo o que Cilla deve estar sentindo  disse Althea, j no jardim.
Fletcher queria gritar, esmurrar a parede para dar vazo quela frustrao terrvel, porm limitou-se a olhar para a porta fechada.
  Ela no quer me deixar ajud-la.
 No, no quer.  Althea viu a luz do quarto de Cilla acender.  Quer que eu pea uma radiopatrulha  central?
 No; eu vou ficar por aqui.
 Seu horrio de servio j terminou, Fletcher.
 inda assim, prefiro ficar.
 Quer companhia?
 No, obrigado. Voc tambm precisa descansar. Althea hesitou e sugeriu:
 Vamos nos revezar. Voc fica com o primeiro turno, enquanto eu durmo.
De p junto  janela do quarto, Cilla observou a camada fina de neve que recobria o gramado. Na Gergia, as azalias j deviam estar florescendo. Era a primeira 
vez em anos que sentia saudade de casa... Tristonha, perguntava-se se havia cometido um erro ao ter deixado todas aquelas lembranas para trs.
Soltando as cortinas, afastou-se da janela mais preocupada com outros assuntos. Vira o caro de Fletcher estacionado em frente  casa.
Pensando nele, arrumou-se com mais vagar e cuidado do que o normal. Continuava achando um erro envolver-se com ele, porm, agora, j era tarde para voltar atrs.
Ao vestir o suter de cashemere lils, alisou-o sobre os quadris admirando-se no espelho. A malha, de mangas amplas e corte moderno, tinha sido um presente de Deborah 
e combinava muito bem com o fuseau preto colante. Para completar, escolheu um par de brincos prateados em formato de estrela.
Fletcher a esperava sentado no sof da sala com o jornal do dia numa das mos e uma xcara de caf na outra. A camisa estava toda amassada pela noite dormida dentro 
do carro.
Cilla sorriu para si mesma. Nunca conhecera algum com tal capacidade de adaptao. Quem o visse ali no sof pensaria que Fletcher passara todas as manhs de sua 
vida naquela sala, na sala da casa dela, com o jornal nas mos.
 Bom dia  ele a cumprimentou com tranqilidade. Um tanto constrangida, Cilla aproximou-se dele sem saber se deveria desculpar-se.
  Deborah me deixou entrar.
Ela assentiu e arrependeu-se de no ter vestido uma cala com bolsos, pois no sabia o que fazer com as mos.
 Voc passou a noite toda a fora?
 Faz parte do meu servio.
 Foi obrigado a dormir no carro?
 Estou acostumado.
 Desculpe-me  pediu Cilla sentando-se na beirada da mesinha de centro, em frente ao sof.  Eu deveria ter imaginado que voc no iria embora. Poderia t-lo deixado 
entrar. Acho que...
  Voc estava aborrecida, Cilla.  Fletcher lhe estendeu a xcara de caf.  E com toda razo.
 E verdade.  Cilla provou a bebida e estranhou o excesso de acar.  Eu estava certa de que vocs conseguiriam peg-lo ontem  noite e mal via a hora de encarar 
esse sujeito, de saber quem ele . Mas quando chegamos aqui e voc, nos deu a m notcia... Preferi me isolar para no falar no assunto.
 Tudo bem, eu entendo. Cilla deu um sorriso tenso:
 Por que tem de ser to gentil comigo? Fletcher estendeu uma das mos e tocou-lhe o rosto.
 Voc se sentiria melhor se eu gritasse, ficasse bravo?
 Talvez.  Cilla no resistiu e segurou-lhe a mo com ternura.  Acho mais fcil brigar do que ser razovel.
 J percebi. Alguma vez j teve vontade de tirar um dia inteiro s para descansar e se distrair?
 No.
 O que acha de fazermos isso hoje?
 Eu tinha pensado em fazer a contabilidade da casa e chamar um encanador. A pia da cozinha est pingando.  Ento, pousou as mos inquietas sobre os joelhos.  
Preciso lavar a roupa de cama e fui convidada para ser a discotecria de uma festa hoje  noite. Eles esto completando quinze anos de formados e vo se reunir numa 
discoteca da cidade. Bill e Jim vo me substituir na rdio.
 Eles j tinham me contado.
 Essas festas so muito divertidas. Talvez...  Fletcher havia posto a xcara vazia de lado e agora segurava-lhe as duas mos entre as suas.  Voc no gostaria 
de me acompanhar?
 Est me convidando para ir a uma festa com voc? Assim como se fssemos namorados?
 Eu estarei trabalhando e...  Cilla comeou e calou-se.  Sim, estou.
 Est bem. A que horas passo para busc-la?
 s sete. Preciso chegar cedo para pr tudo em ordem.
 Ento, passo s seis. Assim, poderemos jantar antes.
 Bem,  que...  Vacilou, porm aceitou.  Est combinado. Fletcher, preciso lhe dizer uma coisa. Minha opinio no mudou e continuo no querendo me envolver.
 Tudo bem.
 Acho que devemos ter em mente que somos pessoas muito diferentes. Um relacionamento mais profundo entre ns no poderia dar certo.
 Mas, afinal: trata-se de um romance ou de uma transao comercial?
Fletcher riu e Cilla franziu a testa.
 Acho que no  exatamente um romance. Nem um namoro.
 Por qu?
Curvando-se para frente, ele deslizou-lhe um dedo pelo lbio inferior, enquanto lhe acariciava as mas do rosto.. Sempre carinhoso, segurou-lhe uma das mos e beijou-lhe 
a palma mida.
 Porque um namoro tem outras implicaes e...
 Era s isso que voc queria me falar?
  o. Quer parar um pouco?
  ai ser difcil.
Cilla teve de rir diante do tom dele.
 Ento, faa o possvel, est bem? No consigo raciocinar.
 Fico lisonjeado  ele brincou, porm se conteve.
  Estou falando srio.
  Eu tambm.
  Ontem  noite, quando fui para o quarto, fiquei com muito medo. A voz dele no me saa da lembrana e no consegui esquecer todas aquelas ameaas terrveis que 
ele sempre repete. Ento, comecei a pensar em voc.  Fazendo uma pausa, respirou fundo e encheu-se de coragem para continuar:  E quando pensei em voc, consegui 
esquecer tudo o mais. O medo passou.
Fletcher apertou-lhe as mos com mais fora e viu os lbios de Cilla tremerem ligeiramente. Seus olhos, no entanto, o encaravam de modo direto e corajoso. Ele percebeu 
que ela esperava para ver qual seria sua reao, para saber o que ele diria. Porm, jamais poderia saber que naquele exato instante Fletcher abandonava qualquer 
temor e entregava-se de corpo e alma quela paixo.
Contudo, se lhe revelasse o que sentia, Cilla no acreditaria. O melhor seria convenc-la com gestos e atitudes.
Levantou-se com vagar, trouxe-a consigo e aninhou-lhe a cabea em seu peito, abraando-a. Cilla estremeceu em seus braos desfrutando daquele gesto amigo, que a 
comoveu.
Era o que mais queria naquele momento: um abrao amigo, reconfortante. Nada de palavras ou promessas. Apenas o momento, a emoo.
  Fletcher?
  Sim?  ele perguntou, virando o rosto s o suficiente para beijar-lhe os cabelos.
  Para ser franca, no me importo que seja sempre to gentil comigo.  E foi mais adiante:  Senti sua falta estes dias.
  Oua.  Agora, era a vez de ele respirar fundo. Seu corao parecia querer saltar-lhe pela boca.  Preciso dar uns telefonemas e depois vou dar uma olhada na 
pia da cozinha, est bem?
  Est timo.
Duas horas depois, Cilla estava perdida num mar de papis e contas que cobriam a mesa. Suas contas no conferiam com o extrato do banco e era preciso encontrar o 
erro.
Paciente, reviu todas as contas pela ensima vez at, finalmente, encontrar a diferena. Depois de conferir os nmeros, guardou o extrato bancrio e comeou a fazer 
os cheques para os pagamentos do ms.
Primeiro foi o da prestao da casa. Era a primeira vez que deixava de pagar aluguel para morar no que era seu. Ter uma casa era ao mesmo tempo motivo de satisfao 
e segurana para ela e Deborah.
Tendo nascido numa famlia de classe mdia, cuja renda provinha do salrio de sua me, uma policial, e de seu pai, um advogado a servio do governo, aprendera a 
controlar os prprios gastos, equilibrando o oramento. Sempre estudara em escolas particulares, porm nunca tivera um carro novo.
Finalmente, depois de tantos anos de carreira, as coisas comeavam a melhorar, e sua primeira providncia fora comprar uma casa.
 Cilla?
 O qu? Oh!  Virando-se, ela o viu parado na porta do escritrio com os cabelos completamente molhados. As mangas da camisa haviam sido enroladas at os cotovelos, 
mas a cala estava toda respingada. Cilla no conteve um riso.  Minha nossa!
  J consertei a pia.
  Ah, j?
  J.
Cilla mordeu o lbio inferior e conteve o riso ao ver que Fletcher mantinha a testa franzida. No queria ferir seu ego masculino.
  Bem... J que me prestou esse favor, o mnimo que posso fazer  oferecer-lhe um almoo. O que acha de um sanduche de pasta de amendoim e gelia?
  Sinto muito, mas  s o que sei fazer. Sua nica opo  atum enlatado.  Deixando as contas de lado, ela levantou-se da mesa.  Meu Deus, voc est todo molhado.
Fletcher mostrou-lhe as mos encardidas, pensou bem e no resistiu: esfregou-as no rosto dela.
  Ei!
Cilla esquivou-se e riu a valer, surpreendendo-o. Seduzindo-o. Fletcher j tinha ouvido aquele riso descontrado pelo rdio, mas era a primeira vez que ela lhe dirigia 
um riso assim grave, rouco, excitante...
  Venha. Vamos pr a camisa na mquina de lavar enquanto almoamos.
  Daqui a pouco.
Ele continuou a segurar-lhe o queixo exercendo leve presso para pux-la para perto. Quando seus lbios pousaram nos dela, Cilla no protestou nem se retraiu. Suspirando, 
ela os entreabriu para receb-lo, e suas lnguas se tocaram de modo ntimo.
  Acho que voc tem razo  murmurou.
  No qu?
Ela ergueu um dos braos e tocou-lhe os cabelos claros das tmporas. H tempos no era capaz de um gesto to... atrevido.
   tarde demais para voltar atrs.
  Cilla...  Fletcher segurou-lhe os ombros e seus olhos adquiriram um brilho intenso, quase primitivo.  Cilla, vamos para a cama.
Cilla fechou os olhos e balanou a cabea. Porm, por um segundo, Fletcher viu-os refletir o mesmo brilho que havia nos seus.
  D-me um pouco mais de tempo, sim? No se trata de um joguinho.  que me sinto insegura e preciso pensar.  Ento, ela abriu os olhos e confessou:  Voc  o 
tipo de homem pelo qual eu jurava que jamais me apaixonaria.
  Por  que  no  se  abre  comigo?     ele  pediu entrelaando-lhe os dedos nos seus.
  Agora no  ela respondeu, beijando-lhe uma das mos.  Ainda no estou pronta para me abrir. No momento, s quero aproveitar estes instantes de paz, de normalidade. 
No vou atender ao telefone nem  porta. Vou pr sua camisa para lavar e preparar um sanduche, est bem?
  Perfeito.  Fletcher beijou-lhe a testa.   o convite mais gentil que j recebi nos ltimos tempos.


CAPITULO VII

O ambiente era agitadssimo: o ritmo contagiante das canes, os instrumentos, o solo de guitarra. Luzes coloridas e piscantes giravam produzindo diversos efeitos, 
corpos se movimentavam ao sabor da msica. Cilla animava a festa com sua voz aveludada e, vez por outra, desligava o microfone apreciando o movimento da pista de 
dana. A discoteca estava cheinha de rapazes e moas, ex-colegas de escola. Cilla no os conhecia mas era como se fossem velhos amigos.
Fletcher bebericava um clube-soda num canto do salo e educadamente recusou o convite de uma loira sexy para que fosse danar. Alis, observar as pessoas era um 
de seus passatempos preferidos, do qual jamais se cansava.
A festa estava animadssima, e ele adoraria danar um pouco, porm, preferia manter-se de olho em Cilla.
Seu posto ficava bem em frente  pista de dana, diante de uma imensa mesa de controles. Os discos e fitas estavam todos empilhados nas laterais, para um fcil acesso. 
Cilla usava um traje bastante adequado para a ocasio: cala comprida de lantejoulas pretas e um blazer de lantejoulas prateadas. Nas orelhas, o brinco de estrelas. 
O efeito colorido das luzes sobre a roupa ficava fantstico. Os cabelos permaneciam soltos com bastante volume.
Sua seleo havia atrado diversos casais para a pista, onde agora se divertiam. Outros, perambulavam entre as mesas batendo papo e revendo os amigos.
A msica era alta, contagiante e rpida, bem ao gosto de Cilla. A julgar pelas fisionomias, a turma dos formandos de 1975 estavam se divertindo a valer. Cilla, tambm. 
De sua mesa, ela conversava animadamente com um grupo de rapazes. Fletcher notou que alguns deles haviam se excedido na bebida, mas Cilla se defendia muito bem das 
investidas.
Uma ponta de cime ardeu-lhe no peito ao ver um grandalho com ar de jogador de futebol abra-la pela cintura e murmurar-lhe algo ao ouvido. Cilla continuou sorrindo, 
balanou a cabea e respondeu-lhe algo baixinho. Foi o suficiente para que o rapaz se afastasse, sem perder o esprito esportivo.
 E ateno, pessoal. Ainda tem muito mais  disse ao microfone. Agora, vamos voltar para o ano de 1975, na noite da formatura.
Cilla soltou a gravao de One of These Nights, do grupo The Eagles, e percorreu o salo com os olhos  procura de Fletcher.
Ao v-lo, abriu um sorriso largo de satisfao. Um sorriso to especial que, mesmo estando bastante longe da mesa, Fletcher viu seus olhos brilharem. Excitado, ele 
se perguntava se conseguiria faz-la sorrir-lhe daquela forma quando estivessem sozinhos. E riu quando a viu levar uma das mos  garganta indicando estar com sede. 
Cilla achou-o lindo enquanto o observava virar-se na direo do bar. Engraado... Sempre considerara um palet cinza conservador demais para o seu gosto. Mas, em 
Fletcher, isso no acontecia. Alis, j havia percebido os olhares de cobia que diversas moas da festa haviam lhe dirigido.
"Desistam, garotas", pensou, feliz. "Esta noite, ele  meu."
Admirada com o rumo dos prprios pensamentos, balanou a cabea e pegou um disco da pilha pr-selecionada com os pedidos da turma. A julgar pelos sucessos pedidos, 
concluiu, os rapazes e moas eram do tipo nostlgico.
Ao pr o disco para tocar, reconheceu que gostava de ser solicitada para tais eventos. Era muito bom conviver com outras pessoas, v-las danar, se descontrair.
A comisso organizadora havia caprichado nos detalhes da festa. As toalhas de mesa brancas e vermelhas combinavam com as fitas e os bales de gs presos no teto. 
Uma esfera giratria coberta de espelho iluminava a pista de danas e, quando queria, Cilla acionava o comando de luzes estrosboscpicas que davam ao ambiente um 
ar nostlgico dos anos 70.
Em cada mesa, havia um singelo arranjo de flores do campo.
 Esta aqui vai para Rick e Sue que comearam a namorar nos tempos de escola e j completaram doze anos de casados. Eles escolheram Rockin' AU Over Ther World.
 Excelente escolha  murmurou Fletcher ao se aproximar para lhe dar um copo de refrigerante bem gelado.
Cilla virou-se e agradeceu.
 Est gostando da festa?
 Muito. Meus colegas de formatura tambm esto pensando em dar uma festa assim ano que vem. Voc est disponvel?
 Preciso consultar minha agenda. Puxa, olhe s!  Um casal mais animado dava um verdadeiro show de dana na pista, arrancando aplausos dos demais.  Eles so timos.
 Voc...dana?
 No assim como eles  ela admitiu.  Mas, bem que gostaria. O casal  excelente.
Antes que ela pegasse outro disco da pilha, Fletcher segurou-lhe a mo:  
  Posso pedir uma msica?
  Claro. Qual?
Fletcher comeou a mexer na pilha pr-selecionada, tirando os discos da ordem. Cilla, no entanto, no se importou. Depois de escolher um, Fletcher o entregou a ela.
 De muito bom gosto.  Cilla ligou o microfone: 
 Estou gostando de ver a animao da turma de 75. Esto se divertindo?  A resposta positiva veio em unssono.  Ficaremos juntos at a meia-noite, recordando o 
melhor dos velhos tempos. Agora, vou atender a um pedido especial de um f de Bruce Springsteen. A cano chama-se Hungry Heart.
Diversos casais deixaram as mesas rumo  pista indo danar ao som da cano romntica solicitada por Fletcher. Cilla virou-se para falar-lhe e surpreendeu-o bem 
juntinho a ela, a seu lado.
 Quer danar?  ele convidou.
O convite, no entanto, era mera formalidade pois, sem esperar pela resposta, ele a enlaou pela cintura, colou-a a si e comeou a mover os quadris de modo persuasivo 
e sensual.
 Eu...estou trabalhando.
  s uma cano.  Curvando-se, ele mordiscou-lhe o queixo.  Danar  a melhor coisa do mundo, depois de fazer amor.
Cilla tinha uma recusa pronta na ponta da lngua. Mas, numa questo de segundos, seu corpo comeou a acompanhar os movimentos ondulantes dos quadris de Fletcher 
e Cilla acabou se rendendo. De rostos praticamente colados, Fletcher sorriu ao v-la lanar-lhe os braos ao redor do pescoo. Com um olhar brilhante e cheio de 
promessas, ele deslizou-lhe as mos pelos quadris e foi subindo-as lentamente at alcanar-lhe a lateral dos seios.
Cilla sentiu o corpo todo se arrepiar.
  V-voc...dana muito bem.
 Obrigado.  Ele aproximou os lbios dos dela a ponto de quase beij-la e, ento, desviou-os para mordiscar-lhe o pescoo.  Voc tem cheiro de pecado, Cilla, e 
est me deixando maluco.
Cilla queria que ele a beijasse, esperava ansiosa pelo beijo e gemeu baixinho quando ele lhe puxou os cabelos obrigando-a a pender a cabea. Em suspense, ela fechou 
os olhos, aguardando. Fletcher, porm, limitou-se a roar-lhe os lbios midos pela pele macia do rosto.
Ofegante, Cilla apoiou-se nele, absolutamente entregue ao prazer e ao ritmo da msica. Ali na pista, dezenas de outros casais faziam o mesmo.
 Se continuarmos danando assim, no sei se vou conseguir terminar meu trabalho.
Fletcher sentia o corao de Cilla bater acelerado junto a seu peito. No era o bastante para satisfaz-lo, mas era prova concreta de que havia uma chance.
  Ento, acho que vamos ter de terminar a dana mais tarde.
Assim que ele a soltou, Cilla escolheu um disco qualquer e comeou a toc-lo. A rapaziada aplaudiu, vibrante, aos primeiros acordes da cano alegre e bem ritmada. 
Encalorada, ela levantou um pouco os cabelos, que lhe aqueciam o pescoo e a nuca.
 Quer outro copo?  Fletcher ofereceu-lhe, vendo-a beber os ltimos goles de refrigerante.
 No, obrigada.  Ela pegou a folha com os pedidos sobre a mesa e deu uma olhada nos ttulos.  Esta turma  tima. Adoro este tipo de reunio.
 J percebi.
 Admiro o esprito de unio que eles compartilham procurando se reunir depois de quinze anos de formados. Pessoas que viveram as mesmas experincias e conservam 
a amizade.  Ento, tornou a pr o papel sobre a mesa.  O ano de 1975 era o auge da poca da disco music, um gnero que no produziu muitos talentos. Por outro 
lado, naquela fase, os Doobie Brothers ainda estavam juntos. Os Eagles tambm.
 Voc sempre se localiza no tempo tomando a msica como referncia?
Cilla riu da observao.
  um vcio da profisso. De qualquer forma,  um excelente barmetro.  Jogando os cabelos para trs, virou-se para fit-lo.  O primeiro disco que toquei como 
profissional do rdio foi um dos Rolling Stones chamado Emotional Rctscue, em 1980. Ano em que Ronald Reagan foi eleito pela primeira vez e que John Lennon foi assassinado.
  Puxa, sua memria  tima.
  Tomar a msica como referncia ajuda muito.  E lanou um desafio que provava seu ponto de vista:  Aposto como voc ainda se lembra da msica que estava tocando 
no rdio quando voc beijou uma garota pela primeira vez no banco traseiro do seu carro.
  Dueling Banjos.
  Est brincando!
   verdade.
Cilla abriu um dos muitos papeizinhos dobrados no canto da mesa com pedidos vindos do pblico. De repente, o sorriso desapareceu-lhe dos lbios, e seu corao quase 
parou. Chocada, fechou os olhos bem apertados pensando ter enxergado mal, porm, ao reabri-los, viu a mesma frase escrita em letras de forma: "Quero ouvir seus gritos 
antes de mat-la".
Suas mos comearam a tremer de modo incontrolvel.
  Cilla?
Balanando a cabea, ela entregou o papel a Fletcher.
O tal sujeito estava ali, naquele salo, Cilla ponderou  beira do pnico. De algum lugar daquele salo, ele a observava e esperava.
E se aproximara o suficiente para deixar aquele bilhe-tinho aparentemente inocente sobre a mesa de som. O suficiente para sorrir-lhe, para encar-la. Talvez tenha 
at conversado com ela.
  Cilla.
Ela pulou de susto quando Fletcher ps uma das mos em seu ombro e teria perdido o equilbrio se ele no a apoiasse.
  Oh, no! Eu achava que pelo menos esta noite ele me deixaria em paz. Mas no adianta. Ele no desiste de me perseguir.
  Faa uma pausa.
  No posso.  Perplexa, ela esfregava as mos uma na outra e olhava para o salo.  Tenho de...
 Preciso dar um telefonema  ele lhe disse , mas quero que voc fique num lugar bem visvel.
O autor daquelas ameaas estava ali, sob o mesmo teto que ela, pensava Cilla, horrorizada. Estaria armado? Teria trazido consigo a tal faca de lmina longa que sempre 
descrevia pelo telefone? Talvez estivesse esperando por um momento ideal, quando a msica estivesse bem alta, o pblico bem barulhento, para atac-la...
 Venha comigo.
 Espere um pouco.  Nervosssima, ela abriu o microfone e disse:  Vamos fazer uma breve pausa, mas fiquem atentos. Estarei de volta em dez minutos e quero ver 
a pista lotada.  Ento, desligou o microfone e voltou-se para Fletcher:  Por favor, fique por perto, sim?
Abraando-a pela cintura, Fletcher acompanhou-a atravs do pblico. Cada vez que algum se encostava nela ou chegava mais perto, Cilla estremecia. E quando um homem 
veio ao seu encontro e segurou-lhe ambas as mos, ela quase gritou.
 Cilla 0'Roarke.  O rapaz tinha uma fisionomia amigvel e o rosto molhado de suor, de tanto danar. Ele sorria, encantado, enquanto Cilla o fitava com olhos arregalados, 
e Fletcher se mantinha alerta.  Meu nome  Tom Cillins; sou o chefe da comisso organizadora da festa, lembra-se?
 Ah...  ela exclamou com um sorriso forado.  Claro.
 S gostaria de lhe dizer que  um prazer para ns t-la aqui no comando da nossa festa. Voc tem muitos fs aqui.  Ele soltou-lhe uma das mos para gesticular 
enquanto falava:  Mas acho que sou o maior. No h uma noite sequer em que eu no oua pelo menos uma parte do seu programa. Perdi minha esposa no ano passado.
  Eu...sinto muito.
 No, ela no morreu. Simplesmente, saiu de casa levando toda a moblia. Cheguei em casa uma noite e encontrei tudo vazio. Nunca mais a vi,  Ele ria a valer enquanto 
Cilla pensava em algo que pudesse dizer.  Seu programa me ajudou a vencer muitas madrugadas solitrias. Eu s queria lhe agradecer e dizer que a festa est tima. 
 E entregou-lhe seu carto de visita:  Sou dono de uma loja de eletrodomsticos. Se precisar de algo, me telefone.
 Obrigada.  A situao era engraada, mas Cilla s conseguiria rir mais tarde. Bem mais tarde.  Prazer em v-lo, Tom.
  O prazer foi meu.
Tom afastou-se, feliz da vida, e Fletcher conduziu-a a um canto do salo, junto ao telefone pblico.
  No se afaste daqui. Est se sentindo melhor? Ela assentiu e at conseguiu sorrir para um grupo de garotas que passava por ali rumo ao toalete.
 Sim, estou. Vou me sentar ali  disse, apontando para uma fileira de cadeiras dispostas perto de um vaso de plantas.
Deixando-o para trs, ela foi sentar-se no local que indicara, soltando o corpo numa das cadeiras.
Estava vivendo um terrvel pesadelo. No; era pior que isso, pois dormia, acordava e a realidade era a mesma.
Trmula, acendeu um cigarro.
Fora tolice achar que ele a deixaria em paz pelo menos naquela noite; o sujeito era esperto demais. Por outro lado, jamais pudera imaginar que ele a seguiria ali 
na festa. As chances de que pertencesse  turma de 1975 eram mnimas, porm, ainda assim, conseguira se infiltrar.
Com as costas apoiadas no encosto da cadeira, observava o fluxo de pessoas que entravam e saam da discoteca. Podia ser qualquer um daqueles, pensava, tentando ver 
se conseguia reconhecer algum.
Podia ser um comerciante, um frentista do posto de gasolina que ela frequentava, um funcionrio do banco onde tinha conta... Ou um desconhecido.
Ainda assim, ele a conhecia pessoalmente, sabia seu nome, seu endereo. Roubara-lhe a paz de esprito e s sossegaria quando lhe tirasse a vida.
Ela viu Fletcher desligar o telefone e ir ao seu encontro.
  E ento?
  Thea est vindo apanhar o bilhete. Vamos mand-lo para o laboratrio da polcia.  Ele massageou-lhe os msculos rijos do ombro.  Mas, no alimente muitas esperanas: 
no creio que haja impresses digitais.
  Nem eu  ela afirmou aprovando sua sinceridade.  Ser que ele ainda est aqui?
 No sei.  Ele olhava ao redor.  O hotel  muito grande mas a segurana no se responsabiliza pelos sales alugados. Fechar as portas e interrogar os presentes 
tambm no ajudaria muito. Se quiser ir embora mais cedo, posso dizer-lhes que voc no est se sentindo bem.
 No, de jeito nenhum  ela assegurou apagando o cigarro.  Fao questo de ir at o fim. Assim, se ele ainda estiver por perto, vai ver que no me acovardo com 
suas ameaas.
 Est bem. Qualquer coisa, lembre-se: estarei sempre por perto.
Cilla segurou-lhe uma das mos e levantou-se:
 Fletcher, ele mudou sua forma de aproximao e escreveu o bilhete. O que isso significa?
  Muita coisa. Esse foi o melhor modo que encontrou de entrar em contato com voc aqui na festa.Por outro lado, ele pode estar se tornando mais displicente.
 Ou impaciente. Por favor, diga a verdade. Fletcher segurou-lhe o rosto com ambas as mos:
 Cilla, para alcan-la, ele ter de passar primeiro por mim, e eu lhe garanto que no ser fcil.
 Os policiais gostam de se julgar invencveis.
  o que nos d coragem para prosseguir  ele murmurou beijando-lhe a testa.
Fletcher no duvidava que ela fosse mesmo capaz de chegar ao final da festa, porm sua coragem era mesmo impressionante. Em nenhum momento Cilla permitiu que sua 
voz tremesse ou errara ao lidar com os controles. Enquanto a msica tocava, ela discretamente olhava para as pessoas presentes, reparando em cada um dos rostos.
Suas mos estavam em constante movimento. Ora lidando com os botes, ora pegando algum disco, ou ainda marcando o ritmo da msica sobre a mesa. Fletcher reconheceu 
que Cilla jamais mudaria seu jeito agitado e inquieto de ser. Era aquela energia toda que a impulsionava, que a levava a prosseguir em sua luta. Como companheira, 
devia ser exigente e autoritria.
Exatamente o oposto do que ele procurava numa esposa. Porm, era por Cilla que seu corao batia mais forte e estava determinado a conquist-la, tendo-a s para 
si.
Proteg-la com a prpria vida era sua misso. Am-la por toda a vida era seu maior desejo. Se seus planos dessem certo, ela logo entenderia esta diferena.
Sempre atento, tambm observava os presentes  procura de algum suspeito, porm, tudo lhe parecia absolutamente normal: a msica alegre continuava a tocar, e as 
pessoas se aglomeravam na pista.
Fletcher viu Althea entrar. No s ele, constatou, como a maioria dos homens ali presentes. E riu quando uma moa deu uma cotovelada no namorado, que acompanhava 
o andar de Althea com um olhar significativo.
 Voc sempre atrai os olhares masculinos quando entra num local qualquer, Althea  brincou.
Ela riu e deu de ombros. Estava muito elegante num vestido reto, preto e sem alas.
 Tenho de lhe agradecer por ter me livrado de um camarada chatssimo. Marcamos um encontro, e ele trouxe uma escova de dentes no bolso. Parecia um manaco s sabia 
falar em sexo!
 Animal.
 Uns mais, outros menos, mas, no fundo, so todos iguais  Althea filosofou, bem-humorada. Ento, mais sria, olhou para Cilla:  Como ela est se saindo?
 Cilla  fantstica.
Althea ergueu uma sobrancelha:
 Fletcher, minha intuio feminina me diz que voc est apaixonado por essa garota.
 No d mais para disfarar. Eu a amo. Estou at pensando em casamento. Quer ser minha madrinha?
 Ser um prazer.  Ainda assim, Althea tocou-lhe o brao de leve:  Oua, Fletcher, no quero ser chata, mas estamos numa misso. A garota est correndo risco de 
vida.
Fletcher entendia a preocupao de sua parceira, porm, ficou aborrecido com o alerta.
 Pode deixar.  E mudou de assunto.  Aqui est o bilhete. Althea o leu e colocou na bolsa:
 Vamos ver o que os rapazes do laboratrio podem fazer.
 Terminei de averiguar a ficha do ex-marido e me parece que  um sujeito honesto  Fletcher revelou, desapontado.  O senador Lomax est casado h seis anos, tem 
trs filhos e no sai de Atlanta h trs meses.
 Consegui entrar em contato com o dono da emissora onde ela trabalhou em Chicago. Ele a elogiou bastante. Andei averiguando e descobri que esteve a semana passada 
toda em Rochester visitando a filha. Ele me enviou a lista dos locutores e funcionrios que trabalhavam na rdio na poca de Cilla e at agora nada.
 Segunda-feira, quando eu chegar ao departamento, daremos outra olhada.
 Pode deixar que eu mesma vejo isso durante o fim de semana. Fique de olho na garota.
Thea, no sei como lhe agradecer.
 Nem pense nisso  disse Althea ao se despedir. Ao cruzar a discoteca rumo  sada, dois rapazes se aproximaram, convidando-a para danar. Althea, no entanto, recusou 
o convite.
A experincia mostrara a Cilla que as melhores festas eram as que terminavam bem agitadas, portanto reservara os trs melhores sucessos para o fim.
E de fato. Ao terminar a ltima cano, estavam quase todos na pista, exaustos, suados, sorridentes.
 Quero agradecer  turma de 1975 pelo convite. Vocs so demais! Espero rev-los daqui a cinco anos na comemorao do vigsimo aniversrio de formatura. At l.
  Bom trabalho  cumprimentou Fletcher.
  Ainda no terminei.
Cilla precisava desmontar todas as ligaes e, com a ajuda de Fletcher, levar todo o equipamento para o carro dele. E ainda precisaria deixar tudo na rdio para 
s depois voltar para casa.
 Ele tem razo. Foi uma noite excelente. Cilla ergueu o rosto, surpresa.
 Mark! O que est fazendo aqui?
 Vim lhe dar uma mozinha.  Mark pegou um dos discos e verificou o nome da msica.  Meu Deus! No me diga que voc tocou isso!
 Era um grande sucesso em 1975. Agora, seja franco e me diga por que veio.
 Vim buscar meu equipamento.
 Desde quando isso  servio do dono da estao?
 Sou o chefe e posso fazer tudo o que tiver vontade   ele lembrou, bem-humorado. Cilla riu.
 E de agora em diante...  avisou-a, consultando o relgio  voc estar de licena por motivos de sade.
Cilla entendeu tudo e lanou-lhe um olhar acusatrio:
 Mas eu no estou doente.
 Estou dizendo que sim e pronto. E, se voc aparecer na emissora antes de segunda-feira  noite, estar despedida.
 Mark!
  pegar ou largar.  Ento, num tom mais suave, pousou uma das mos no ombro dela:  Cilla, fao isso para o seu bem. J vi outros locutores ficarem estressados 
por muito menos. Estamos preocupados com voc, e achei melhor afast-la por uns dias para que possa descansar.
 Estou conseguindo enfrentar a situao muito bem.
 Ento vai poder apreciar melhor o descanso. Agora, d o fora.
 Mas, quem vai... 
Fletcher puxou-a pelo brao:
 Voc o ouviu.
 Detesto receber ordens  Cilla murmurou enquanto caminhavam para a porta.
 No seja exagerada. Acha que a KHIP vai se arruinar s porque voc vai tirar um fim de semana de folga.
Sem virar a cabea, ela lhe lanou um olhar severo:
 No  esse o problema.
 No mesmo. O problema  que voc precisa e vai descansar.
 E o que acha que devo fazer nestes dias de folga?
 No sei; pensaremos em algo.
Atravessaram o estacionamento, e alguns casais remanescentes lhes acenaram. Cilla sorriu-lhes e entrou no carro de Fletcher.
 Pensaremos?
 Sim. Por coincidncia, eu tambm tirei o fim de semana de folga.
 Ela franziu a testa e o observou colocar-lhe o cinto de segurana.
 Isto est me parecendo uma conspirao.
 Voc ainda no viu nada!
Fletcher escolheu uma fita de msica clssica e a colocou no toca-fitas antes de dar partida no carro.
Suspirando, Cilla acendeu um cigarro. No queria que as pessoas se preocupassem por sua causa; no gostava de admitir que estava cansada.
 Essas msicas sempre me do sono.
 Ento, durma. Vai lhe fazer bem.
Sonolenta, Cilla fechou os olhos por uns instantes pensando no sucesso da festa, no quanto se divertira at que... Era melhor abrir os olhos.
Observou que Fletcher no seguia o rumo de sua casa. Consultando o relgio do carro, constatou j haverem passado vinte minutos desde que saram da festa.
 Onde estamos?
 Na rodovia nmero 70, seguindo rumo oeste.
 Rodovia? Mas, para onde vamos?
 Para as montanhas.
 Montanhas?  Ainda sonolenta, Cilla afastou os cabelos que lhe caam na testa.  Que montanhas?
 Montanhas Rochosas      ele   explicou,   bem-humorado, citando o nome da famosa cordilheira.  Acho que j ouviu falar nelas.
 No banque o espertinho, Fletcher. Voc falou que ia me levar para casa.
 E vou. Isto , de certa forma. Vou lev-la para a minha casa.
 J estive na sua casa e sei que no fica nesta regio.
 No estou falando dessa, mas de outra casa. E um lugarzinho bem simples, confortvel, com uma linda vista. Vamos passar o fim de semana l.
 Pois saiba que no vamos a lugar nenhum. Vou passar estes dias em casa. Oua, Fletcher, voc como policial deve saber que levar algum a algum lugar contra sua 
vontade  crime.
 Pode me processar quando voltarmos.
 Olhe, acho que j fomos longe demais. Sei que faz tudo pensando no meu bem, mas no vou deixar Deborah sozinha naquela casa  merc desse manaco.
  Bem pensado.  Ele pegou uma sada  direita e Cilla, por um instante, respirou mais aliviada.   por isso que ela foi passar estes dias na casa de Althea. Ela 
me pediu que lhe desejasse um timo descanso. Ah...  Cilla protestava, porm Fletcher prosseguia, indiferente  tambm arrumou sua mala.
 Quando foi que vocs planejaram tudo? Fletcher percebeu que a voz dela estava muito calma.
Calma demais.
 Tirei umas horinhas de folga durante o dia. Mas, como j disse, o lugar  gostoso. Voc vai gostar.
 Espero que tenha um penhasco bem alto de onde eu possa jog-lo!
Fletcher diminuiu a marcha para seguir pela estrada tortuosa.
 Tem sim.
 Eu sabia que voc era teimoso e autoritrio, mas passou do limite. Quem lhe deu o direito de programar minha vida e a de minha irm para me trazer para as montanhas?
 Achei que era o melhor para voc.
 Pois saiba que no gosto de montanhas, detesto a vida no campo e no vou para chal nenhum!
 Sinto muito, mas j estamos quase l. Cilla mordeu o lbio inferior.
 Se arranjou esta escapada com o intuito de me levar para a cama, desista. Prefiro morrer congelada aqui dentro do carro.
 O chal tem vrios quartos. Voc ser muito bem-vinda se quiser compartilhar o meu, mas pode escolher qualquer outro.
Furiosa, Cilla cruzou os braos e calou-se, sem argumentos.


CAPITULO VIII

Para Cilla a situao parecia totalmente absurda. Ser raptada rumo s montanhas por um mocinho estava mais apropriado s histrias romnticas de antigamente. Entretanto, 
s portas do sculo XXI, aquilo lhe parecia ridculo.
Como vingana, pretendia manter-se calada e distante, deixando evidente que desaprovava aquela conspirao, da qual at sua prpria irm participara. Fletcher no 
receberia sequer um sorriso seu at lev-la de volta a Denver.
No entanto, todas as suas resolues caram por terra quando, aps uma curva estreita, teve a primeira viso da casa, sob o luar.
Fletcher chamava aquilo de chal? Por sorte a msica da fita encobriu sua exclamao de espanto. Sua idia de chal nas montanhas nada mais era do que uma cabana 
de madeira em meio  mata sem nenhum tipo de conforto.
A casa era, de fato, feita de madeira. Mas no como as que se vem em filmes de Hollywood. Era uma construo slida, com vigas de madeira tratada que brilhavam 
sob o luar. A casa era dividida em diversos planos, com telhado inclinado e janelas enormes. Nas extremidades, dois deques de madeira proporcionavam uma viso panormica 
da regio. O terreno era todo cercado por uma fileira de pinheiros semi-recobertos de neve.
Apesar da boa surpresa, Cilla continuou calada e desceu do carro com a fisionomia fechada. Para completar sua revolta, viu seu melhor par de sapatos se afundar na 
camada grossa de neve que cobria o gramado.
 Que timo  murmurou.
Deixando Fletcher para trs, caminhou com dificuldade at chegar  varanda de entrada.
Tanto fazia que o lugar fosse bonito ou feio, pensou. No queria ficar ali de modo algum. Mas, j que no teria como sair dali, armou sua estratgia: manteria a 
boca fechada, escolheria o quarto mais distante do de Fletcher e entraria debaixo das cobertas o quanto antes.
De fato, Cilla manteve a primeira parte da promessa quanto Fletcher juntou-se a ela na varanda. Os nicos rudos por ali eram o estalar das vigas de madeira sob 
o peso de Fletcher e o barulho de um animal qualquer na floresta. Pondo as malas no cho, ele abriu a porta e convidou-a a entrar.
A casa estava escura e gelada, o que deixou Cilla bastante satisfeita. Quanto pior, mais motivos teria para reclamar. Contudo, Fletcher logo acendeu a luz e Cilla 
no conteve outra exclamao.
A sala principal, no centro da casa, era magnfica. Ampla, confortvel, aconchegante. Tinha o teto suspenso por vigas de madeira avermelhada e lareira com revestimento 
em granito. Ao seu redor, um jogo de estofados bastante convidativos. A chamin se erguia at o teto. Um balco de madeira contornava toda a largura da sala, cujo 
p direito era altssimo. As paredes eram brancas e abrigavam vrias estantes repletas de livros e enfeites.
A construo no se parecia em nada com a casa onde Fletcher morava, em Denver. Ali, em vez de arcos e curvas, as linhas eram extremamente simples e retas. Uma escada 
com degraus de madeira envernizada levava ao segundo pavimento e, ao lado da lareira, havia uma caixa de madeira repleta de lenha. O nico toque extravagante ficava 
por conta de dois drages de lato que serviam como suporte para a lareira.
  A casa logo estar aquecida  disse Fletcher divertindo-se com seu silncio.
Deixando-a exatamente onde estava, tirou o casaco, pendurou-o num cabide junto  porta e foi pr um pouco de lenha para acender a lareira.
  A cozinha fica naquela direo  disse, apontando, enquanto punha fogo num monte de jornais amassados que introduzira entre as toras.  Se tiver fome,  s abrir 
a despensa.
Cilla estava mesmo faminta, mas se recusava a admiti-lo. Trmula de frio, viu-o acender a lareira em poucos minutos e reconheceu sua habilidade. "Ele deve ter sido 
escoteiro quando criana", pensou.
Como ela no respondesse, Fletcher ergueu-se e limpou as mos. Por mais teimosa que fosse, no o venceria.
  Se preferir ir direto para a cama, h quatro dormitrios no segundo pavimento. Para no falar no alpendre com telhado de vidro, onde se dorme observando as estrelas. 
Mas ainda est fazendo muito frio aqui dentro para experiment-lo.
Percebendo o tom de sarcasmo na voz dele, Cilla empinou o queixo, pegou a mala e subiu a escada.
Porm, deparou com mais um problema: qual seria o quarto dele? Eram todos to bonitos, to bem decorados... Cilla acabou optando pelo menor. Detestava reconhecer, 
mas o quarto era lindo com seu teto reclinado, porta de vidro deslizante para a varanda e um armrio embutido enorme. Pondo a mala sobre a cama estreita, resolveu 
abri-la para ver o que sua irm cmplice da trama tinha lhe mandado.
O grosso suter feito  mo foi bem recebido, bem como a cala de veludo, as meias de l e as botas de cano alto. Havia at uma bolsinha de maquiagem, que Cilla 
duvidava tivesse vontade de usar. Em vez de pijama com o emblema do time, Deborah lhe enviara um conjunto de camisola e robe em jrsei preto, super sexy. Entre as 
dobras do tecido, Cilla encontrou um bilhetinho: "Feliz aniversrio com algumas semanas de antecedncia. Divirta-se. At segunda-feira. Deborah".
Cilla assobiu para si mesma. Sua irm. Sua prpria irm caula! Inconformada, ergueu o conjunto transparente para admir-lo melhor. O que Deborah tinha em mente 
quando o colocara na mala?, perguntava-se. Era melhor no responder, concluiu e decidiu que dormiria com o suter. No entanto, no conteve o desejo de correr os 
dedos pelo jrsei negro.
O toque era... delicioso. Raramente se dava ao luxo de comprar um traje to pouco prtico. A maior parte de seu guarda-roupa era dedicada a roupas confortveis e 
simples, para serem usadas no dia a dia.
Deborah no devia ter escolhido um presente to extravagante. Por outro lado, o conjunto era to feminino... Talvez no houvesse mal nenhum em experiment-lo. Afinal, 
acabara de ganh-lo e no havia ningum ali para v-la.
O calor do aquecimento central comeava a entrar no quarto pelas aberturas de ventilao junto do teto. Satisfeita, Cilla tirou o casaco e os sapatos. Seu plano 
era tomar um banho de imerso na banheira ali da sute e ir dormir.
Toda sua determinao, no entanto, caiu por terra ao entrar na banheira. O pacotinho com espuma de banho que Deborah inclura na bagagem tinha um aroma irresistvel, 
repousante, e Cilla quase adormeceu na banheira.
No teto do banheiro, havia uma clarabia de vidro que permitia ver o cu e as estrelas. Cilla respirou fundo e afundou-se ainda mais na gua quente. Tudo ali era 
to... romntico, repousante. Deliciosamente envolvente.
Fora tolice ter acendido as duas velas que vira junto  janela em vez de acender as luzes, mas a iluminao difusa lhe parecera mais apropriada, e Cilla no resistira 
 tentao.
Meia hora depois, ao sair da banheira, dizia a si mesma que estava apenas tentando tirar o melhor proveito de uma situao adversa. Aps enxugar-se, soltou os cabelos 
e experimentou a camisola que Deborah lhe mandara.
O decote s costas era bem profundo, deixando-as praticamente nuas at a altura da cintura. A frente era toda enfeitada de renda preta semi transparente, e o recorte 
abaixo do busto tornava-os ainda mais redondos.
O robe tinha as mesmas aplicaes da camisola e fechava-se com um lao de fita preta acetinada. Sorrindo para a prpria imagem refletida no espelho, imaginou as 
mos grandes de Fletcher tentando abrir o lao delicado para tocar-lhe a pele. Os dedos largos deslizando pelo contorno da renda e... ''Oh, meu Deus!"
Maldizendo o curso de seus pensamentos, abriu a porta do banheiro e voltou para o quarto.
Era ridculo entregar-se quele tipo de fantasias, dizia a si mesma. Nunca fora uma pessoa sonhadora e gostava de planejar tudo o que fazia, sem perder o senso de 
realidade. Desde que comeara a trabalhar, seus planos e sonhos s tinham relao com a carreira.
Por mais atrada que estivesse por um homem, jamais alimentara fantasias erticas a seu respeito. Ainda mais sabendo que jamais se tranformariam em realidade.
O melhor era ir para a cama, parar de pensar em bobagens e torcer para que o desejo que a consumia desaparecesse por si s. E, antes que pusesse a mala no cho, 
viu o copo sobre o criado mudo.
Era um copo fino de cristal, com p lapidado, e ao provar dele Cilla fechou os olhos deliciando-se com o vinho branco ligeiramente gelado. Com certeza, devia ser 
francs. Virando-se, viu-se refletida no imenso espelho disposto no canto do quarto.
Seus olhos estavam brilhantes, a pele, rosada do banho. Uma imagem frgil e delicada. O que Fletcher estava tentando fazer-lhe? Por que sua ttica de seduo dava 
resultados?
E, antes que mudasse de idia, vestiu o robe do conjunto e foi procur-lo.
Fletcher lia a mesma pgina do livro pela oitava vez. Seu pensamento estava em Cilla. Contava os minutos se passarem, se maldizia por desej-la tanto. Tinha sido 
preciso apelar para todo seu autocontrole quando deixara o copo no quarto e sara, resistindo ao mpeto de entrar no banheiro e surpreend-la na banheira.
No era uma paixo unilateral, pensou, aborrecido. Sabia que a atraa. Tampouco tratava-se de um mero fascnio passageiro; estava apaixonado por Cilla. Pena que 
ela no conseguisse enxergar esta verdade em seus olhos.
Pousando o livro no colo, prestou ateno na letra da cano interpretada por Billie Holiday e lanou um olhar perdido em direo s chamas da lareira. O fogo logo 
aquecera o quarto e fora por este motivo que construra uma lareira menor ali, alm da outra na sala principal. Para no falar no toque romntico que o levara a 
tomar aquela deciso. Ficara furioso consigo mesmo ao surpreender-se sonhando com Cilla ao acend-la momentos antes.
Em seu sonho, ela viera ao seu encontro usando um traje fluido e sedutor. Sorridente, lhe estendera a mo com um olhar malicioso. Ele, ento, a erguera nos braos, 
a pusera na cama e...
"V sonhando", disse-lhe o bom senso. As chances do sonho tornar-se realidade eram mnimas. Cilla jamais iria ao seu encontro num traje insinuante e...
Diabos! Nunca conhecera uma mulher to teimosa. Se ela no fosse to orgulhosa e no se preocupasse tanto em ocultar os prprios sentimentos, no passaria tanto 
tempo fumando e roendo as unhas.
Tristonho, ergueu um brinde silencioso e quase deixou o copo cair quando a viu parada junto  porta.
 Quero conversar com voc.
Cilla perdera parte da coragem no caminho, mas conseguiu entrar no quarto sem tropear nos prprios ps. E no se deixaria intimidar pelo fato de encontr-lo usando 
apenas um agasalho de ginstica.
Fletcher precisava de um drinque. Depois de beber um gole de vinho, pigarreou e assentiu com a cabea. Estaria sonhando? Mas em seu sonho ela sorria.
 O que foi?
Cilla viera com o intuito de dizer-lhe tudo o que pensava e ir embora. Porm, para tanto, tambm precisava de um gole de vinho.
 Acredito que suas intenes ao me trazer para c tenham sido as melhores, j que tenho vivido dias difceis.  Comeou,depois de beber do prprio copo.  Mas agiu 
de modo incrivelmente arrogante.  Ela mesma julgou-se uma tola por estar fazendo aquele discurso e esperou por uma resposta, que no veio.  E ento? No tem nada 
a dizer?
 Sobre o qu?
Frustrada, ela deu um passo  frente e pousou o copo com fora sobre a mesa.
 Depois de ter me trazido aqui contra a minha vontade, o mnimo que pode fazer  ouvir minhas reclamaes.
Fletcher mal conseguia respirar, quanto mais ouvir. E tomou mais um pouco de vinho s por no saber o que fazer com as mos.
  E voc no fosse to teimosa e usasse mais as pernas, digo, a inteligncia  corrigiu-se, tarde demais , veria que o descanso lhe far bem.
A raiva fez os olhos de Cilla faiscarem, tornando-a ainda mais adorvel. Atravs do tecido fino do conjunto que ela usava, Fletcher podia ver as chamas tremulando 
ao fundo.
 E ento, voc se viu no direito de tomar esta deciso por mim.
  Isso mesmo.  Temendo estilhaar o copo tal a fora com que o segurava, Fletcher deixou-o obre a mesinha lateral.  Se eu tivesse lhe pedido para vir, voc teria 
inventado mil desculpas para recusar o convite! Mas, agora, estou lhe dando chance de escolher o que quer fazer, Cilla. Diga o que quer.
 Do que voc est falando?  ela perguntou, insegura, deslizando um dedo pelo lao que amarrava o robe. Fletcher correu os dedos pelos cabelos, levantou-se e foi 
at a janela. Seu controle estava por um fio.
 Cilla, por que no volta para a cama e pra de me provocar?
 Provoc-lo? Fletcher, eu no o entendo.
Fletcher no conseguiu mais se conter e, aproximando-se, agarrou-a pelos braos. Excitado, mediu-a dos ps  cabea com um olhar capaz de fazer arder a pele dela. 
Suas curvas moldadas pelo tecido fino da camisola o deixavam quase maluco.
 Voc vestiu essa roupa hoje s para me torturar, no foi?
 Eu...  Cilla olhou para o conjunto que usava e se retraiu.  Foi Deborah quem o colocou na mala.
 Pois est me deixando louco, Cilla.
 S vim at aqui porque pensei que poderamos esclarecer tudo conversando como dois adultos.
 Se  isso o que quer, tudo bem. L em cima h um armrio repleto de cobertores.  s se enrolar num deles.
Mas Cilla no precisava se aquecer. O olhar que ele lhe lanava e o modo como lhe acariciava os braos, subindo e descendo as mos bem devagar queimavam-lhe a pele.
 Talvez eu quisesse mesmo faz-lo sofrer um pouco.
 Pois, funcionou.  O robe deslizara pelo ombro direito e Fletcher agora lhe tocava aquela curva to sensvel.  Cilla, no vou lhe facilitar as coisas simplesmente 
levando-a para a cama porque, se fizermos amor, quero que a escolha seja sua.
E no fora exatamente por aquele motivo que ela fora ao encontro dele? Torcendo para que Fletcher tomasse as rdeas da situao?
 No  fcil para mim.
 Deveria ser  ele murmurou segurando-lhe as mos.  Se voc estiver preparada. Ela ergueu o rosto e percebeu que ele aguardava por sua resposta.
 Acho que estou preparada desde o dia em que o conheci. Um tremor o sacudiu, mas Fletcher continuou se contendo:
  s dizer sim.
Dizer no bastava, ela concluiu.
 Solte a minha mo.
Fletcher olhou-a bem dentro dos olhos e soltou-lhe as mos. Porm, antes que pudesse recuar, ela lanou-lhe os braos ao redor do pescoo.
 Eu te quero, Fletcher. Fique comigo esta noite. E o beijou.
No foi preciso dizer mais nada.
Por um momento, surpreso, Fletcher quase perdeu o flego. O sabor de seu beijo, seu perfume, a textura do jrsei. O suspiro profundo que ela deu ao beij-lo... Queria 
possu-la, conhec-la, descobri-la... Suas mos tocaram-lhe os ombros afastando as alas da camisola e a outra parte do robe, mas Cilla o puxava para a cama.
Ela o beijava, acariciava, seduzia. Fletcher estava excitadssimo, mas procurava conter-se tentando prolongar o prazer. Cilla, por outro lado, tinha pressa e, entre 
carcias e beijos, tirou-lhe a cala do agasalho.
Ela no queria que ele se arrependesse de t-la desejado; seria muita humilhao.
A pele dele estava quente e mida sob seus dedos. Cilla gostaria de poder toc-la mais demoradamente, mas acreditava que os homens preferiam um amor rpido e tempestuoso.
Deliciava-se ao ouvi-lo murmurar seu nome e puxar-lhe de leve os cabelos cada vez que o tocava num ponto mais sensvel. Quando Fletcher deitou-se por cima dela, 
Cilla deu seu consentimento e ele a possuiu. Ele, porm, pretendia demorar-se, aproveitando ao mximo aqueles momentos. Contudo, ao receb-lo, Cilla comeou a mover 
os quadris e Fletcher no resistiu por muito tempo quela provocao.
Ela sorria quando ele afundou o rosto entre seus cabelos, a respirao ainda ofegante. Satisfeita, Cilla sabia que o agradara e que ele no se arrependeria.
Nem ela. Fora muito melhor do que esperava. Fletcher era carinhoso, gentil e sabia tornar aqueles momentos ainda mais especiais.
Fletcher se maldizia mentalmente pela falta de controle e no entendia o porqu de Cilla ter apressado a relao daquela maneira, mal lhe dando chance de toc-la 
como pretendia. E mais: embora fosse ela mesma quem houvesse imprimido aquele ritmo, Fletcher sabia que Cilla no ficara plenamente satisfeita.
Procurando manter-se calmo, rolou para o lado e fitou o teto, curioso.
 Por que fez isso?  perguntou-lhe. Cilla ia tocar-lhe os cabelos, mas se deteve.
 No entendo o que quer dizer. Pensei que quisesse fazer amor.
 E queria  ele confessou, sentando-se na cama.  Mas pensei que voc tambm quisesse.
  que os homens gostam de...  Cilla fechou os olhos e sentiu o contentamento se esvair.  Eu lhe disse que no era boa nisso.
Ouvindo-o praguejar ruidosamente, ela saltou da cama e tornou a vestir o robe.
 Aonde voc vai?
 Para a minha cama.  Como o choro lhe embargasse a voz, Cilla a manteve bem baixa.  Foi apenas mais um erro que cometemos.  Ao vestir a segunda manga do robe, 
ouviu a porta bater com fora e virou-se. Fletcher girou a chave na fechadura e jogou-a num canto do quarto.
 No quero ficar aqui com voc. Abra a porta.
  uma pena, mas voc j fez sua escolha. Cilla cobriu-se com o robe e cruzou os braos. Estava indignada e magoadssima. No era a primeira briga que teria por 
causa de seus fracassos na cama.
 Oua, fiz o melhor que pude. Se no foi o bastante, tudo bem. Mas, deixe-me ir.
 No foi o bastante?  Ele avanava dois passos, ela recuava trs at que viu-se comprimida entre Fletcher e o p da cama.  Eu devia matar o responsvel por essa 
sua insegurana. H duas pessoas envolvidas quando se faz amor, Cilla, e ambas tm de se satisfazer. No estou  procura de uma expert no assunto.
O rosto dela, que h pouco estava transfigurado pelo dio e ressentimento, ficou branco como mrmore e seus olhos se encheram de lgrimas. Fletcher cobriu os prprios 
olhos com as mos e praguejou. Seu intuito no era mago-la, mas apenas mostrar-lhe que queria uma parceira.
 Voc no sentiu nada, no ?
 Senti, sim  ela alegou, enxugando as lgrimas que lhe corriam pelas faces.
 Ento, foi um milagre, Cilla. Voc mal me deixou toc-la. Oua, no a estou culpando de nada.  Fletcher deu mais um passo  frente mas, vendo-a arregalar os olhos 
cheios de medo, deteve-se.  Quando eu percebi, j era tarde demais para voltar atrs. Quero que voc tambm tenha prazer.
 Vamos esquecer o que houve, sim?  Ela j recuperara a calma. Tinha os olhos secos e a voz firme. No peito, um desejo enorme de morrer.  Quer, por favor, destrancar 
a porta?
Ele soltou a respirao e deu de ombros. Vendo-o dirigir-se para a porta, ela o seguiu mas Fletcher apenas apagou a luz.
 O que est fazendo?
 J tentamos  sua maneira.  Sob a luz azulada do luar, Fletcher acendeu um castial que tinha na mesa de cabeceira e virou o disco no toca-discos.  Agora, vamos 
tentar  minha. Cilla comeou a tremer de medo e embarao.
 Eu falei que queria ir para a cama.
 timo  disse Fletcher erguendo-a nos braos.  Eu tambm.
Embora ela se mantivesse tensa, Fletcher colocou-a delicadamente na cama e, sempre fitando-a, espalhou-lhe os cabelos sobre o lenol, acariciando-os demoradamente.
 Eu a imaginava exatamente aqui, com os cabelos em meu travesseiro,  luz de velas.  Curvando-se, beijou-lhe os lbios num breve roar.  O luar tocando sua pele. 
Ningum por perto, nenhuma preocupao. S voc.
Comovida, ela virou o rosto para o lado. No se deixaria seduzir por palavras bonitas e fazer papel de idiota novamente. Fletcher sorriu e comprimiu os lbios contra 
seu pescoo delicado.
 Gosto de desafios e vou fazer amor com voc, Cilla.  Afastando as mangas do robe, traou o trajeto do jrsei com os lbios midos.  Vou lev-la a um lugar que 
voc jamais pensou existir.  Fletcher segurou-lhe uma das mos e sentiu-lhe o pulso acelerado.  No precisa ter medo.
 No tenho medo de nada.
 Voc tem medo de relaxar, se soltar, deixar que algum se aproxime e descubra o que h a dentro de voc.
Ela tentou afastar-se, mas ele a abraou.
 Que bobagem. J fizemos sexo.
 Fizemos, sim  Fletcher concordou beijando-lhe os cantos da boca.  S que agora vamos fazer amor.
Cilla ia virar a cabea novamente, porm Fletcher segurou-lhe o rosto entre as mos. E quando ele a beijou, Cilla sentiu o corao disparar em seu peito como se 
quisesse saltar-lhe pela boca. Era um beijo to suave, tentador.  medida que os dedos dele escorregavam por suas faces, ela suspirou. Fletcher aproveitou para aprofundar 
o beijo, provocando-a com a ponta da lngua.
 E-Eu no quero...  ela tentou dizer ao senti-lo morder-lhe o lbio inferior.
 Diga-me o que voc quer.
 No sei.
Cilla ergueu os braos para afast-lo, mas suas mos pousaram delicadas nos ombros dele, como se agissem por vontade prpria.
 Ento, vamos experimentar um pouco de tudo e, quando terminarmos, voc pode dizer do que gostou mais.
Fletcher murmurou palavras doces, carinhosas, quase hipnticas que a deixaram num delicioso estado de torpor. Seu beijo exigente a estremecia e, ainda assim, ele 
se limitava a acariciar-lhe o rosto com suavidade.
Sua lngua deslizou-lhe pelo pescoo at tocar o colo alvo, logo acima da renda da camisola. Sua pele tinha gosto de mel, Fletcher constatou, provando o vale entre 
os seios. O corao de Cilla batia forte e quando ela levantou uma das mos, Fletcher prendeu-a contra o colcho, imobilizando-a.
Com toda calma, ele afastou a renda preta com os dentes e viu Cilla arquear as costas num convite irresistvel. Seus dedos se entrelaavam aos dele com fora. Murmurando 
algo incompreensvel, Fletcher baixou a outra ala da camisola.
Sua respirao estava rpida e ofegante, mas ele fazia o possvel para conter o desejo. Excitadssimo, deslizou os lbios ardentes pela curva dos seios at alcanar-lhe 
um mamilo rijo. Cilla gemeu e murmurou o nome dele, ao que Fletcher respondeu sugando-os alternadamente.
Ondas de calor se espalhavam pelo corpo de Cilla  medida que o prazer crescia em seu ntimo. Respirando de modo rpido, remexeu-se sob o peso do corpo dele e cravou-lhe 
as unhas nas costas, arqueando-as. Cilla ouviu seu prprio grito de alvio quando teve a sensao de que algo explodia dentro de si num misto de dor e prazer.
 Aos poucos, todos os msculos de seu corpo foram relaxando e Fletcher beijou-lhe a boca com volpia.
  Cilla, voc  maravilhosa.
  No  ela protestou, levando uma das mos  testa.  No quero pensar em nada.
  Ento, no pense. Sinta.
Fletcher separou-lhe as pernas com vagar e descobriu-a pronta para receb-lo. Fitando-a com intensidade, lendo cada mensagem estampada em seus olhos, comeou a soltar 
o lao do robe com calma. Toda calma de que era capaz. O jrsei fino foi escorregando pela pele de Cilla, que estremeceu ao senti-lo beijar-lhe o ventre.
Tomada pelo desejo, ela deixou que o pensamento e as sensaes continuassem a lev-la por aquele mundo desconhecido. Sentia o lenol quente e amarrotado sob suas 
costas e se deliciava com o caminho que as mos de Fletcher percorriam ao livr-la de vez da camisola. A pele dele, mida e quente, estava colada  sua.
Cilla agora lhe pertencia. Toda. De corpo e alma. Desta vez, de fato, a possua. Admirava-lhe o corpo alvo sob o luar, a luz das velas danando em seu rosto. Ela 
murmurava seu nome baixinho quando Fletcher a tocava com mais ousadia, e o ondular de seus quadris era um estmulo para que prosseguisse.
Ele deslizou-lhe as mos pelas pernas afastando o robe e a camisola de vez. O perfume dela, suave e feminino, jamais lhe sairia da lembrana.
Percorrendo o caminho inverso, Fletcher subiu as mos pelas coxas de Cilla chegando bem perto do centro de todo seu prazer, e s ento, a possuiu.
Primeiro foi o gemido rouco, depois, os murmrios incompreensveis, deixando-o louco de paixo. Pela segunda vez, Cilla alcanou o clmax, conduzida pelas carcias 
e os beijos experientes de Fletcher. Exausta, ela lanou-lhe as pernas ao redor da cintura e acompanhou lhe o ritmo cada vez mais rpido at que ele, tambm, chegasse 
ao xtase.
Exaurido, Fletcher reuniu suas poucas foras e rolou para o lado trazendo Cilla consigo, de tal modo que suas posies se inverteram. A sensao de t-la deitada 
sobre si, pressionando-o com seu corpo era indescritvel.
Sentindo-a estremecer, ele aqueceu-a num abrao.
 Est com frio?
Ela balanou a cabea, afirmativamente.
 Bem, daqui a meia hora talvez eu j tenha toras para ir buscar um cobertor.
 T-Tudo bem.
Percebendo o tom inseguro e baixo da voz dela, ele tocou-lhe o rosto e sentiu as lgrimas que lhe molhavam os olhos.
 Voc est chorando? Por que?
 N-No foi nada.
 Diga, Cilla; o que houve?
 E-Eu nunca pensei que pudesse ser to maravilhoso.
 Isso  um elogio?  ele perguntou, bem-humorado, acariciando-lhe os cabelos.
 Nunca ningum me... Eu nunca havia...  E desistiu de tentar explicar:  Foi lindo.
 Cilla, foi e sempre ser assim.

CAPITULO IX

Cilla cruzou os braos sobre o peito e olhou pela janela. Fletcher tinha toda a razo: a vista dali era linda.
De onde estava, podia ver os picos nevados das montanhas da regio. A chamin de uma casinha a distncia soltava uma fumaa branca que o vento carregava. Os pinheiros, 
verdejantes apesar do frio, resistiam s rajadas mais fortes vergando ligeiramente.
As sombras longas do final de tarde davam um toque tristonho  paisagem, e o azul do cu lmpido se refletia na neve. Momentos antes, havia visto um veado afundar 
o focinho no gelo  procura de alguma plantinha que pudesse comer. Agora, no entanto, estava absolutamente s.
Jamais desfrutara de uma paz to grande; nem mesmo nos tempos de infncia, onde vivia cercada de bonecas e contos de fada. Tampouco pensara que aquela estada ali 
nas montanhas trouxesse uma mudana to profunda em sua vida. Considerava-se uma outra mulher.
Fletcher mantivera sua promessa de faz-la conhecer lugares que no imaginara existir. Em apenas uma noite, ele a fez compreender que no amor  possvel dar e receber, 
aceitar e ofertar. Mais que isso: aprendera o que  intimidade.
Ao despertar ao lado dele naquela manh, no se sentira constrangida ou sem jeito. Sentira uma calma deliciosa. Ficava difcil acreditar que havia um outro mundo 
para alm dos muros da casa; um mundo cruel e perigoso.
Mas era intil tentar iludir-se. Teria de voltar a encarar toda aquela crueldade dentro de pouco tempo. No podia se esconder ali para sempre. Por outro lado, queria 
se dar ao luxo de aproveitar ao mximo aqueles momentos de tranqilidade.
Suspirando, ergueu o rosto em direo ao sol poente e concluiu que o melhor era ser bem honesta consigo e com Fletcher. No iria permitir que o relacionamento entre 
eles ultrapassasse o ponto que j havia atingido. No podia. Era prefervel sofrer um pouco agora do que v-lo tra-la mais tarde, quando a dor seria maior.
Fletcher era um homem bom, digno, honesto e...policial.
Arrepiando-se, abraou-se com mais fora.
Havia uma cicatriz em seu ombro. Na frente e nas costas, lembrou-se. Um ferimento provocado por bala, sem dvida, mas nunca lhe perguntara como e onde o acidente 
ocorrera.
Porm, nada ocultava o fato de que suas prprias cicatrizes eram to profundas quanto as dele.
No podia se iludir achando que aquele relacionamento teria algum futuro. Na verdade, as coisas j haviam ido longe demais. No entanto, no havia como voltar atrs: 
eram amantes. Embora tivesse conscincia de que cometiam um erro, sabia tambm que jamais se esqueceria dos momentos lindos que haviam passado juntos.
A atitude mais lgica e racional seria discutir as limitaes que os cercavam, e Cilla tinha certeza de que Fletcher apreciaria uma abordagem prtica do assunto. 
Nada de promessas ou compromissos. De resto, cabia a si prpria a tarefa de liquidar aquela paixo que sentia por Fletcher.
Ele a encontrou debruada sobre a grade, como se quisesse sair voando por sobre as rvores e as montanhas; sinal de que as preocupaes haviam voltado. Frustrado, 
lembrou-se de quanto ela estivera calma aquela manh ao despertar preguiosamente para, em seguida, fazerem amor.
Naquele momento, ao senti-lo tocar-lhe os cabelos, ela estremeceu de susto antes de recostar a cabea em sua mo.
 Gostei da sua casa, Fletcher.
 Que bom.
Ele pretendia traz-la ali ainda inmeras vezes. Ela mexeu os dedos sobre a grade, depois, enfiou-os nos bolsos.
 Voc a comprou pronta ou mandou constru-la?
 Mandei  constru-la.   Cheguei at a ajudar na pintura.
   uma pena s poder vir aqui nos fins de semana.
Sempre consigo tirar uma licena e fugir para c durante o ano para passar uns dias. Meus pais vm aqui com bastante frequncia, tambm.
 Eles moram em Denver?
 No, em Colorado Springs   explicou massageando-lhe a nuca.  Mas costumam viajar muito por toda parte.
 Imagino que seu pai tenha ficado desapontado por voc no ter querido cuidar dos negcios da famlia.
 Minha irm ficou no meu lugar.  Fletcher beijou-lhe os lbios quando os viu se curvarem num sorriso.  Confesso que ela se saiu muito bem na direo das empresas. 
Melhor do que eu, sem dvida.
 Mas eles no ficam chateados pelo fato de voc ser um policial?
 No, no. Tm coisas mais importantes com que se preocuparem. Est ficando frio. Vamos entrar.
Ela o acompanhou atravs da porta de vidro e desceu a escadinha que levava  cozinha.
 Que cheirinho bom...
 Estou preparando um ensopado especial.  Ele caminhou at o fogo, instalado bem no centro da cozinha, e levantou a tampa de um caldeiro.  Fica pronto dentro 
de uma hora.
 Por que no me pediu ajuda?
 Tudo bem  Fletcher afirmou escolhendo um vinho na pequena adega.  Da prxima vez, voc cozinha. 
Ela achou graa:
 Ento, voc gostou do meu sanduche de pasta de amendoim?
  igual ao que minha me fazia. No vai tirar o casaco?  Fletcher perguntou-lhe ao abrir a garrafa de vinho.
 Ah, claro.  Cilla tirou-o e o pendurou num cabide ao lado da entrada dos fundos.  Quer que eu faa alguma coisa?
 Sim; relaxe.
  as eu estou calma.
 Estava.  Fletcher pegou dois copos no armrio.  No sei o que a deixou ansiosa de novo, mas vamos falar a respeito. Por que no vai se sentar junto  lareira? 
Levo o vinho num instante.
Se em to pouco tempo ele j a conhecia to bem, como seria dali a anos, Cilla imaginava, acomodando-se num almofado perto da lareira.
Quando Fletcher chegou trazendo os copos, ela abriu um sorriso muito mais descontrado, que o deixou feliz.
 Nunca imaginei que uma lareira pudesse tornar uma casa to aconchegante.
Ele se sentou ao lado dela e entregou-lhe um dos copos:
 Olhe para mim. Est preocupada com a volta ao trabalho, no ?
 No.  Ento, Cilla suspirou.  Um pouco. Confio em voc e Althea; sei que esto fazendo o possvel, mas estou apavorada.
 Acredita mesmo em mim?
 J falei que sim  ela garantiu sem fit-lo.
 Ele ergueu-lhe o queixo at que seus olhares se encontrassem.
 No apenas como profissional.
 No.
 Ento,  a que est o problema. No fato de eu ser um policial.
 No tem nada a ver com isso. No gosto de policiais, porm no espero que voc compreenda meus motivos.
 Andei fazendo umas investigaes, Cilla. No apenas por motivos profissionais. Pesquisei seu passado porque quero proteg-la, quero compreend-la melhor. Voc 
me contou que sua me trabalhava na polcia e no foi difcil descobrir o que aconteceu.
Cilla segurou o copo com as duas mos e olhou para as chamas da lareira. Apesar de j haverem se passado muitos anos, as lembranas ainda lhe causavam dor.
 Ento, apertou uns botes no seu computador e descobriu que minha me morreu cumprindo seu dever. Assim, como se fosse uma descrio fria e banal.
 Faz parte do nosso ofcio.
Fletcher viu uma sombra de medo em seus olhos quando ela o fitou por um segundo apenas.
 . Fazia parte do servio dela morrer com uma bala naquele dia. Coitado de meu pai que no tinha nada a ver com o caso. Morreu sem saber por qu.
 Cilla, no  to simples quanto quer crer. Nada no mundo acontece dessa forma.
 Simples?  ela indagou afastando os cabelos que lhe caam na testa.  A palavra  irnico, isso sim. A policial e o advogado, marido e esposa, que muitas vezes 
lidavam com o mesmo caso. S que nunca os vi concordarem com um mesmo ponto de vista. Em nada. Pouco antes do incidente, eu os ouvi falando numa separao temporria. 
 E, franzindo a testa, pegou o copo:  Acho que meu vinho acabou.
Fletcher, calado, completou-o.
 Voc deve ter lido o relatrio oficial. A polcia prendeu o tal sujeitinho e o interrogou. Ele j tinha uma longa ficha de crimes e, escolado, exigiu a presena 
de um advogado durante o interrogatrio. Queria fazer um acordo com a polcia, tentou de tudo, mas sabia que era intil. Tinha matado duas pessoas e ia cumprir uma 
longa pena na cadeia.
Cilla fez uma pausa e bebeu mais um pouco de vinho.
 Muitas pessoas perderam o emprego por causa daquele incidente, e meus pais perderam a vida.
 No vou tentar negar que muitas vezes um policial morre desnecessariamente, por engano ou descuido.
Ela ergueu o rosto e o fitou bastante sria.
 timo. Nem me venha com aquela conversa de que devemos nos orgulhar do policial que morre em servio. Eu preferia que minha me estivesse viva.
Fletcher no conseguia esquecer uma foto que vira no arquivo da polcia onde Cilla, abaladssima, segurava a mo da irm, no cemitrio, no dia do enterro dos pais.
 Voc deve sentir muita falta dela, no?
 Sim. Mas acho que de certa forma eu a perdi no dia em que ela entrou para a polcia.
 Os colegas a admiravam muito. Naquela poca, no era fcil para uma mulher se destacar em meio a tantos colegas. Porm, quem mais sofre  sempre a famlia.
 Ora, o que voc entende disso?  medida que fui crescendo e compreendendo os riscos que ela corria, nunca mais tive sossego. Vivia esperando o dia em que um colega 
dela viria me contar que a encontraram morta.
 Cilla, esse seu modo de pensar  errado. No se pode viver esperando pelo pior.
 Vivi uma vida esperando para ter uma me de verdade. O servio vinha antes de tudo: de mim, de meu pai, de Deb. Ela nunca estava por perto quando eu precisava. 
 Cilla encolheu as mos antes que ele as segurasse.  Para mame, o juramento que fez ao entrar para a polcia era mais importante do que ns.
  Talvez ela estivesse preocupada demais em seguir uma carreira.
 No ouse me comparar a ela!
 Eu no ia fazer isso  ele alegou, admirado, segurando-lhe a mo, apesar da resistncia.  Mas parece que voc mesma se compara.
 Eu tinha de me preocupar com a casa, a famlia, a comida. Mame alegava que um policial no tem horrio para chegar ou sair de casa.
 Eu no conheci sua me e prefiro no critic-la, mas no acha que j  hora de se desligar um pouco e viver a sua vida?
 Foi o que fiz. Vivi minha vida como quis, fiz o que achei melhor.
 E est apavorada porque se apaixonou por um policial. Bem, teremos de aprender a lidar com isso.
 Fletcher, no tenho o direito de interferir na sua vida. No estou lhe pedindo que mude nada por minha causa. No pretendia me envolver tanto com voc, mas no 
me arrependo. Em outras palavras: se agirmos e pensarmos de modo racional, acho que conseguiremos des-complicar a situao.
 No  ele negou bebendo todo o vinho do copo.
 No o qu?
 Me recuso a ser racional e acho que a situao j est bastante complicada.  Fletcher encarou-a e confessou pela primeira vez:  Estou apaixonado por voc.
Cilla arregalou os olhos, assustada, e desviou o olhar.
 Vejo que isso a assusta  comentou, j de p, indo ajeitar a lenha na lareira.
 O amor  algo muito complexo, Fletcher. Nos conhecemos h apenas algumas semanas, sob circunstncias bastante difceis. Acho que...
 Estou cansado de saber o que voc acha e pensa. Quero saber o que voc sente.
 No sei  mentiu, consciente de que se arrependeria em seguida. As lembranas do passado a amedrontavam, impedindo-a de acreditar num futuro melhor.  Fletcher, 
tudo aconteceu muito rpido. Rpido demais, at. Perdi o controle da situao e isso me deixa assustada. Eu no queria me envolver e me envolvi. No queria gostar 
de voc e acabei gostando.
 Puxa, finalmente conseguiram faz-la confessar.
 No durmo com um homem s porque ele me atrai.
 Ora, est melhorando.  Fletcher sorriu e beijou-lhe os dedos.  Eu a atraio e voc gosta de mim. Ento, case comigo.
Cilla tentou puxar a mo.
 No gosto dessas brincadeiras.
 No  brincadeira  ele disse. E acrescentou bastante srio:   um pedido de casamento.
Ela ouviu um pedao de lenha estalar na lareira, projetando luz e sombra no rosto dele. As mos de Fletcher, quentes e firmes, seguravam as suas, envolvendo-as por 
completo.
 Fletcher...
 Eu te amo, Cilla.  Calmamente, sempre fitando-a, ele a puxou para si.   verdade  reforou, beijando-lhe a boca com suavidade.  Estou lhe pedindo que venha 
viver comigo durante os prximos cinquenta ou sessenta anos para que eu possa lhe mostrar o quanto te amo.  pedir demais?
 No. Sim.  Lutando para conservar o raciocnio claro, ela pousou uma das mos em seu peito:  Fletcher, no pretendo me casar com ningum.
 Claro que pretende  ele alegou, beijando-a e acariciando-a de modo persuasivo.  S precisa se convencer de que ser comigo.  E aprofundou o beijo at que ela 
deixasse de oferecer resistncia e o abraasse.  Estou disposta a lhe dar um tempo para que se acostume com a idia. Um dia, ou dois. Uma semana, quem sabe. 
Cilla balanou a cabea:
 J cometi um erro e no pretendo repeti-lo.
Ele segurou-lhe o queixo com tamanha revolta que Cilla abriu os olhos. Ele estava transfigurado de dio.
 No ouse me comparar ao seu ex-marido.
Ela ia protestar, mas Fletcher apertou-lhe o queixo com mais fora e ela calou-se.
 No compare o que sinto por voc com o que outras pessoas sentem.
 No estou fazendo comparao.  O corao de Cilla batia disparado contra o peito de Fletcher.  Fui eu que cometi esse erro e no vou repeti-lo de forma alguma.
 Diabo, Cilla, entenda:  preciso duas pessoas para que um casamento d certo ou errado.  Furioso, ele segurou-lhe as duas mos, e obrigou-a a deitar-se no cho, 
prendendo-a com o peso do corpo.  Mas, j que insiste em pensar o contrrio, tudo bem. S quero que voc se faa uma pergunta: algum j a fez sentir-se assim?
Os lbios de Fletcher beijaram os de Cilla com volpia e violncia, fazendo-a contorcer-se e arquear as costas. De prazer? Em protesto? Nem Cilla saberia dizer. 
Era como uma tormenta que despertava em seu ntimo. Uma tormenta de paixo e desejo. E, antes que pudesse fugir, Cilla viu-se presa em meio  tempestade.
"No", dizia-lhe a voz do corao. Ningum nunca a fizera sentir-se assim, Fletcher fora o nico a despertar seu lado mais feminino, mais mulher. Porm, ainda que 
o desejo lhe latejasse nas veias, o bom senso lhe dizia que s a atrao no era suficiente para uni-los.
Frustrado e furioso, ele tornou a beij-la repetidas vezes. Ainda que s por uma noite, Fletcher lhe mostraria que em seus braos ela conheceria a verdadeira felicidade.
O gemido baixo e sensual que Cilla deu foi a resposta que ele esperava. Como as chamas da lareira ali na sala, o desejo os consumia. O carinho e a ternura que haviam 
compartilhado at aquele momento cedeu lugar a um sentimento muito mais forte, selvagem, quase animal.
Para Cilla, era uma experincia nova e totalmente avassaladora. De fato, naquele instante, no havia lugar para palavras ternas e meigas. A paixo que sentiam exigia 
uma satisfao imediata.
Depressa. Cilla soltou as mos que ele prendia para puxar-lhe a camisa.  Toque-me. Ambos gemeram em unssono no momento em que seus corpos se tocaram, livres das 
roupas. Mais. Num arroubo ousado, Cilla rolou por sobre Fletcher e beijou-lhe o peito com ardor.
Fletcher prendeu a respirao e segurou-lhe o rosto entre as mos. Tinha urgncia em possu-la. Penetr-la. T-la s para si.
gil, ela se movia sobre ele. O rosto alvo brilhava contra a luz da lareira. O corpo frgil e perfeito estremecia de prazer.
Ento, por uns instantes, ela aprumou as costas, levou as mos aos cabelos e sorriu de satisfao quando a primeira onda de tremor percorreu-lhe o corpo. Alucinada, 
clamava por Fletcher, que a penetrou, completando seu prazer.
S ele possua a chave de seu corao, s ele conhecia seus mistrios e a fazia vibrar. Eram feitos um para o outro.
Mas Cilla no queria am-lo. Esticando os braos, ela lhe segurou as mos com fora e abriu os olhos. Fletcher a fitava de modo intenso com um brilho faiscante no 
olhar. Embora ela no falasse, ele lhe adivinhava os pensamentos, os receios. Ento, suspirando de desespero e deslumbramento, ela voltou a curvar-se e o beijou.
Fletcher estava determinado a explorar-lhe os anseios e afastar-lhe os medos. Mantendo-se exatamente onde estava, enlaou-a pela cintura e imprimiu um ritmo ainda 
mais violento  relao. Cilla arregalou os olhos, admirada, feliz. Ela cravou-lhe as unhas no peito e abafou um grito ao atingir o xtase segundos antes de Fletcher.

Vestida num robe duas vezes maior do que ela e os ps calados em grossas meias de l, Cilla provou o ensopado. Fletcher sentou-se  sua frente, do outro lado da 
mesa, e tambm usava um robe e meias de l. Para ela, aquele jantar era to ntimo quanto um ato de amor.
Temendo que ele voltasse a tocar no assunto do casamento, Cilla partiu um pedao de po.
 E ento? Gostou do ensopado?
 Ah!  Ela deu mais uma colherada no prato.  Est uma delcia. Estou admirada  confessou, nervosa, bebendo um gole de vinho.  Pensei que um homem na sua posio 
preferisse ter uma cozinheira.
 Na minha posio?
 Isto , se eu pudesse pagar uma empregada, no voltaria mais a entrar na cozinha.
Fletcher se divertia com o fato de Cilla julg-lo um homem rico.
 Depois que nos casarmos, voc pode contratar uma se quiser.
Ela pousou a colher com calma:
 No vou me casar com voc.
 Quer apostar?
 No  um jogo.
 Claro que . E dos mais divertidos.
Cilla suspirou, revoltada, e comeou a brincar com a colher.
 Est se portando como um tpico machista. Para vocs, tudo  brincadeira, tudo  motivo para uma aposta.  O riso dele s serviu para deix-la ainda mais indignada. 
 Por que todo homem se julga irresistvel aos olhos das mulheres? Vocs sentem uma estranha necessidade de nos proteger, de nos paparicar.  como se no pudssemos 
ser felizes sem um homem ao nosso lado.
Ele pensou bem no que ouvira e respondeu com calma:
 Eu s disse que te amo e quero que case comigo.
  a mesma coisa.
 De jeito nenhum.
Imperturbvel, Fletcher continuou comendo.
 Bemn, a verdade  que no quero casar com voc, mas estou certa de que isso no faz diferena nenhuma. Nunca faz.
Ele lhe lanou um olhar breve de advertncia.
 J lhe disse para no me comparar a ele.
 Eu no estava falando s dele. Alis, h anos que nem sequer penso em Paul.  Afastando o prato, Cilla levantou-se para buscar um cigarro.  Falava dos homens 
em geral. E se tiver vontade de compar-lo a quem quer que seja, eu o farei.
Fletcher tornou a completar os copos com vinho.
 Quantos homens j a pediram em casamento?
 Dzias.  Era um exagero mas Cilla no se importava.  Mas consegui resistir aos demais.
 Ento, quer dizer que no estava apaixonada.
 Nem estou apaixonada por voc.
Sua voz soou falsa, forada, e ela teve certeza de que ele percebeu a mentira.
Fletcher sabia da verdade e aquilo lhe doa no peito. Porm, soube manter-se calmo e continuou comendo.
 Voc  louca por mim, Cilla, mas a teimosia no a deixa enxergar a realidade.
 Teimosia? Veja s quem fala!  Ela apagou o cigarro no cinzeiro.  Poupe seus argumentos, sim? No vou me casar com voc porque no quero me casar com ningum. 
Muito menos com um policial rico.
 Voc vai se casar comigo porque ambos sabemos que no pode ser feliz sem mim.
 Detesto essa sua arrogncia!  disse Cilla bebendo o resto do vinho num s gole.  S que j adquiri certa prtica em me livrar de homens inconvenientes como voc. 
Alis, s conheci um pior do que voc, Fletcher. Era um rapaz que conheci em Chicago. S que ele me tratava como uma princesa, me mandava cartes com poesias e buqus 
de flores.  E revirou os olhos.  Quanta idiotice!  exclamou, girando nos calcanhares.  Ele tambm achava que eu estava apaixonada e era teimosa demais para admiti-lo. 
No parava de me perseguir em casa, na rdio, em toda parte. Chegou at a me enviar um anel de noivado.
 Ele lhe deu um anel?
Cilla deteve-se e o encarou franzindo os olhos.
  No me venha voc tambm com essas bobagens, sim?
Mas Fletcher se manteve frio:
Era um anel de brilhantes?
 No sei, no mostrei para ningum. Simplesmente o devolvi.
 Como era o nome dele?
Cilla abanou uma das mos dando pouca ateno  pergunta:
 Isto no vem ao caso. O problema  que...
 Cilla, perguntei qual era o nome desse rapaz.
Ele levantou-se ao repetir a pergunta. Intrigada com aquela sbita mudana de comportamento, ela deu um passo para trs. Ele voltara a falar e a agir como um policial.
 Era John... McGill. No, John McGillis, acho. Oua, s toquei nesse assunto porque...
 Voc no tinha nenhum colega em Chicago corri esse nome.
 No,  Aborrecida, ela voltou a sentar-se.  Fletcher, no tente desviar o assunto.
 Pedi-lhe que me contasse o nome de todos os rapazes com quem se envolveu.
 Mas eu no me envolvi com ele! John era apenas um rapazinho, desses que se apaixonam por uma poro de artistas. Cometi o erro de ser gentil, e ele misturou as 
coisas. Com o tempo consegui convenc-lo de que havia sido tudo um engano e pronto.
 Durante quanto tempo ele a seguiu?
 Uns trs ou quatro meses.
 Trs ou quatro meses.  Fletcher segurou-a pelo cotovelo e obrigou-a a levantar-se da mesa.  Ele a importunou durante todo esse tempo e voc nunca me contou a 
respeito?
 Nunca me lembrei de contar. Fletcher conteve-se para no sacudi-la.
 Quero que me conte tudo o que lembra a respeito dele. Tudo o que esse rapaz disse, tudo o que fez.
  No posso me lembrar.
  Sente-se e faa um esforo  Fletcher sugeriu, soltando-a.
Cilla compreendeu sua preocupao e obedeceu.
 Ele trabalhava como estoquista  noite num supermercado e sempre ouvia meu programa. Telefonava numa hora de folga e, depois de batermos um papo, eu tocava seu 
pedido. Um dia, fui fazer uma externa, no me lembro onde, e ele apareceu. Achei-o jovem e bonito, um rosto quase infantil. Eu lhe dei um autgrafo e depois disso 
ele comeou a me enviar poemas na estao. Poemas melados, romnticos, sem nada de sugestivo.
 Continue.
 Quando percebi que ele estava indo longe demais, tratei de recuar, John me convidou para jantar, mas eu declinei do convite.  Encabulada, ela suspirou:  Por 
dois dias, encontrei-o no estacionamento da estao  minha espera. Ele nunca se insinuou, nunca me tocou e eu no o temia. No sei como John descobriu meu endereo 
e comeou a aparecer no meu apartamento, deixando flores e bilhetes na porta. Eu tinha pena dele e acho que John confundiu meus sentimentos.
  Ele nunca tentou entrar?
  No, nunca. Mas, com o tempo, ele foi ficando pior. Disse que me amava, que sempre me amaria e que havamos sido feitos um para o outro. Ento, comeava a chorar 
no telefone toda vez que me telefonava, dizendo que ia se matar se no nos casssemos. Quando recebi a caixa com o anel, devolvi-o com uma carta bem cruel. Achei 
que era melhor esclarecer tudo de uma vez por todas. Isso foi poucas semanas antes de nos mudarmos para Denver, onde eu j tinha fechado contrato com a KHIP.
  Desde ento, nunca mais o viu?
  No. E no  John quem tem me telefonado, pois, se fosse, eu teria reconhecido a voz. Alm do que, John nunca me fez ameaa alguma. Estava obcecado, mas no era 
uma pessoa violenta.
 Vou averiguar alguns detalhes dessa histria  disse Fletcher, j de p.   melhor voc ir dormir. Vamos voltar mais cedo.
Naquela noite, nem Fletcher nem Cilla conseguiam dormir. Mas no foram os nicos a passar horas em claro.

Ele acendeu as velas brancas novas que havia comprado aquela tarde e deitou-se na cama com a fotografia sobre o peito, junto das duas facas tatuadas no torso.
Com o passar das horas, o dio e a revolta iam crescendo em seu ntimo. No era a voz de Cilla que ouvia no rdio.
Ela havia fugido. Com aquele outro homem. Sabia que Cilla ia se entregar ao sujeito e no tinha esse direito. Ela pertencia a John. A John e a ele.
Ela era linda. Tinha olhos meigos, mas no o enganava. No fundo, era cruel e m. Merecia morrer.
Poderia mat-la da forma como aprendera: rpida e limpa. Contudo, isso no o deixaria satisfeito. Queria faz-la sofrer. Queria ouvi-la implorar-lhe.
Quando estivesse morta, voltaria a se unir a John, l no cu. S assim seu irmo ficaria feliz. Ele e John.


CAPITULO X

O sistema de aquecimento da central estava com defeito e trabalhava sem parar. Fletcher, j sem palet, revirava os fichrios da polcia enquanto o servio de manuteno 
lidava com o aparelho. Cansado e com calor, tirara tambm a camisa, ficando apenas com uma camiseta j bastante surrada, na qual se lia a inscrio "Departamento 
de Polcia  Denver". Momentos antes abrira uma das janelas do centro de conferncias para que se formasse uma corrente de ar mais fresco.
Dois dos casos que lhe haviam sido designados j estavam quase encerrados e um outro, de extorso, caminhava a passos lentos. Precisava preparar-se para se apresentar 
no frum no final da semana. Ainda precisava arquivar uns relatrios, fazer uns telefonemas mas, naquele instante, sua ateno estava voltada para a pasta em que 
constava o nome "O'Roarke, Priscilla A".
Ignorando o suor que lhe escorria pela testa, releu a ficha de Jim Jackson, o locutor que cumpria o horrio depois do de Cilla, na KHIP. A ficha o deixara intrigado.
Ela nunca mencionara que os dois j haviam trabalhado juntos antes, em Richmond. Tampouco o fato de Jackson ter sido despedido por beber no servio. Vrias vezes, 
ele se atrapalhara ao soltar as fitas e deixara a rdio praticamente fora do ar.
Jackson perdera a esposa, a casa e o posto privilegiado de diretor de programao e locutor do horrio matinal na segunda maior estao de Richmond.
Aps sua demisso, Cilla o substitura como diretora de programao e, em menos de seis meses, a emissora tornou-se a nmero um em audincia. Jackson, por outro 
lado, fora preso por bebedeira e desordem.
Quando Althea entrou na sala de convenes trazendo duas latas geladas de refrigerante, Fletcher soltou a pasta sobre a mesa. Sem dizer uma palavra, ela sentou-se 
na ponta da mesa, entregou-lhe uma das latas e olhou para a pasta.
 A ficha dele  limpa, exceto pela priso por bebedeira e desordem.
 Sabemos que h muitas vinganas nestes tipos de caso  Fletcher ponderou.  Jackson pode estar querendo revanche pelo fato de ela t-lo substitudo com louvor. 
 Ele tomou um gole do refrigerante.  Ele chegou  KHIP h apenas trs meses, e o diretor da rdio de Rich-mond falou que Jackson ficou revoltado quando foi demitido. 
Chegou a fazer-lhe umas ameaas e culpou Cilla de t-lo derrubado. Alm disso, ainda h o problema da bebida.
 Quer cham-lo para ser interrogado?
 Sim, quero.
 Tudo bem. Nesse caso, acho melhor fazermos duas intimaes  sugeriu Althea pegando a ficha de Nick Peters.  Este rapaz me parece inofensivo mas, as aparncias 
enganam. Ele no tem namorada,  jovem, bonito.  Ela tirou o blazer de linho azul-turquesa e o pendurou no encosto da cadeira.  Por coincidncia, Deborah e ele 
frequentam algumas aulas juntos e, durante o fim de semana, ela me contou que Nick no se cansa de fazer-lhe perguntas sobre Cilla, querendo saber mais a seu respeito. 
Que tipo de flores ela gosta, qual sua cor preferida, coisas assim.
Fletcher viu a tirar do bolso uma latinha de balas e escolher uma amarela.
 Segundo Deborah, Nick ficou desapontado quando soube que Cilla  divorciada. O fato deve t-la preocupado, pois ela o comentou comigo vrias vezes. Alis, Deborah 
 uma garota sensacional. Inteligente, simptica e adora a irm.  Althea pegou um lpis, rolou-o sobre a mesa e o largou.  Ela acha que voc  muito bom para Cilla, 
mas fico me perguntando se ela  boa para voc... 
Fletcher fitou-a, bastante srio.
 Sei me cuidar muito bem, parceira.
 Voc est se envolvendo demais, Fletcher  ela comentou num tom mais baixo, embora a porta estivesse fechada.  Se o capito soubesse que voc est envolvido com 
umas das vtimas, iria adverti-lo. E com razo.
Fletcher afastou a cadeira da mesa e reparou na fisionomia de Althea. Um rosto to familiar quanto o seu prprio.
 Isso no me impede de cumprir meu trabalho  disse, ocultando o ressentimento.  Se eu duvidasse de minha responsabilidade, seria o primeiro a pedir um afastamento 
do caso.
 Ser mesmo? Ele franziu o cenho.
 Claro que sim. Minha maior preocupao  para com a segurana da vtima em questo. Se voc quiser ir contar ao capito, eu no me importo; est no seu direito. 
Mas vou cuidar de Cilla de qualquer maneira.
 Bem,  voc quem vai acabar se dando mal  ela murmurou.
 O problema  meu.
Cansada de tentar faz-lo entender a gravidade da questo, Althea no conteve mais a calma:
 Diabo, Fletcher, eu me importo com voc! No comeo era diferente, voc estava apenas impressionado pela voz de Cilla. Mas, agora, j comeou a falar at em casamento 
e sei que no est brincando. Cuidado, Fletcher, voc vai arrumar problemas.
 Voc e eu estamos encarregados de cuidar desse problema, Althea. Quanto ao resto, deixe por minha conta. Obrigado pelo conselho.
 Tudo bem.  Revoltada, ela abriu uma outra pasta:  No achei nada de suspeito com relao a Bob Williams e seu nico contato com Cilla  atravs da rdio. Ele 
 bem casado, frequenta a igreja e nas ltimas duas semanas vem acompanhando a esposa nas aulas de parto sem dor.
 Tambm no h nada de errado com os locutores da manh  completou Fletcher bebendo mais refrigerante.
 A KHIP  uma grande famlia.
 Ainda estou averiguando Harrison. Ele me parece um bom sujeito mas foi o responsvel pela contratao de Cilla. Harrison a perseguiu muito tempo, ofereceu-lhe 
aumento e diversas outras vantagens no contrato at conseguir traz-la para a KHIP.
Althea escolheu cuidadosamente uma bala vermelha.
 E o tal de McGillis?
 Estou aguardando um telefonema de Chicago.  Fletcher pegou ainda outra pasta.  H o faxineiro, Billy Lomus. Ex-combatente no Vietn. Me parece um sujeito solitrio, 
nunca permanece num mesmo lugar mais do que um ano. Viveu algum tempo em Chicago antes de vir para c. No tem famlia nem amigos ntimos. Mora em Denver h quatro 
meses.  rfo desde os cinco anos e viveu em diversas instituies para menores carentes.
 Que vida dura, no?
 .  Fletcher viu-a pender a cabea e respeitou-lhe o silncio. Ningum jamais diria que Althea tambm tinha tido uma infncia parecida com a de Billy.  Acho 
que no vamos conseguir nada dentro da rdio.
 Tem razo. Na minha opinio, deveramos apertar o cerco em torno desse tal McGillis.  Ela ergueu o rosto sereno e manteve a voz controlada. S quem a conhecesse 
muito bem saberia que ainda estava zangada.  Prefere comear por Jackson ou Peters?
 Jackson.
 timo. Vou comear com calma e apenas pedir-lhe que venha at a central.
 Obrigado, Althea...  ele chamou antes que ela se levantasse  tente entender. No posso anular meus sentimentos, tampouco deixar de cumprir meu dever.
Ela suspirou:
 Ento, tome muito cuidado, parceiro.
Era o que pretendia fazer. E cuidaria de Cilla, tambm.
Desde que lhe revelara seu amor, ela vinha tentando esquivar-se, temendo a si prpria. Quanto mais o amava e se envolvia, mas se retraa com medo de perder o controle 
da situao.
Estranho... Nunca pensara que precisasse ouvi-la declarar seu amor, no entanto, em sonhos, ouvia-a dizer-lhe que o amava e mal podia esperar para escut-la de prpria 
voz.
Um sorriso, um toque, um gemido. Com Cilla isso no era o suficiente. Queria ouvir aquelas trs palavras mgicas que selariam uma promessa, um compromisso. Uma frase 
simples capaz de transformar a vida das pessoas, emprestando-lhes maior colorido.
Mas no seria fcil para ela dizer que o amava. Primeiro, teria de vencer seus medos, sua insegurana, as barreiras de autodefesa atrs das quais se escondia. Mas, 
ultrapassados os obstculos, a declarao viria do fundo da alma, com toda sinceridade. Fletcher aguardava ansiosamente por essa confisso.
No momento, contudo, tinha de se empenhar ao mximo para conseguir resolver o caso o mais breve possvel. S ento poderia comear a pensar no futuro.
  Fletcher?  Era Althea que surgia na porta.  J entrei era contato com Jackson. Ele est a caminho.
  timo. Talvez consigamos alcanar Peters antes que ele entre no servio. Quero que...  O telefone tocou, interrompendo-o.  Fletcher falando.  Ele fez sinal 
para que Althea entrasse.  Sim. Eu gostaria que vocs averiguassem.  E, tapando o bocal, disse para a parceira:   da polcia de Chicago. Exato  prosseguiu, 
falando com o colega do outro lado da linha. 
John McGillis.  Fletcher pegou um lpis e comeou a fazer umas anotaes. De repente, deteve-se.  Quando?  E praguejou.  Deixou algum parente? Escreveu um bilhete 
ou coisa parecida? Por favor, me transmita pelo fax, est bem? Certo.  No bloco, escreveu em letras de forma bem claras: SUICDIO. Calada, Althea sentou-se na ponta 
da mesa.
 Tudo o que puder obter. Tem certeza de que ele no deixou um irmo? No. Obrigado, Sargento.  Fletcher desligou e bateu com o lpis no bloco:  Desgraado!
Tem certeza de que  o mesmo McGillis?
 Absoluta. Cilla me passou todas as informaes que tinha a respeito dele e o descreveu fisicamente.  o mesmo sujeito. Ele se matou h aproximadamente cinco meses. 
Cortou os pulsos com uma faca de caa.
 Parece que as peas do quebra-cabea comeam a se encaixar, Fletcher.  Althea curvou-se para ler as anotaes.  Voc falou que McGillis estava obcecado por Gilla 
e a pediu em casamento, garantindo que se mataria se ela recusasse. O sujeito que telefona a culpa pela morte do irmo.
 McGillis era filho nico e foi criado pela me.
 Irmo pode ser um termo carinhoso. Talvez esteja se referindo a um amigo ntimo.
 Pode ser...  Fletcher sabia que o comentrio era pertinente e se preocupava com a reao de Cilla.  A polcia de Chicago vai cooperar conosco enviando a ficha 
do rapaz mas, acho que vale a pena dar uma chegada at l. Podemos obter maiores detalhes com a me do rapaz.
 Hum hum. Voc vai contar para Cilla?
 Sim, acho que sim. Antes, porm, vamos ver se conseguimos algum dado novo com Jackson e Peters.
Do outro lado da cidade, Cilla saiu do banho e foi correndo atender ao telefone. Torcia para que fosse Fletcher, dizendo-lhe que encontrara John McGillis feliz da 
vida em Chicago com seu emprego no supermercado.
Ansiosa, apanhou o fone afastando os cabelos molhados que lhe caam no rosto.    .
_ Al?
  Voc dormiu com ele? Deixou que a tocasse com aquelas mos imundas?
Cilla sentiu os braos molhados comearem a tremer.
 O que voc quer?
 Fez para ele as mesmas promessas que fez para meu irmo? Por acaso ele sabe que voc no passa de uma assassina?
 No!No sei por que voc no me...
 Ele tambm vai morrer.
O sangue gelou-lhe nas veias, e o medo estreitou-lhe a garganta.
 No! Fletcher no tem nada a ver com isso. E...  entre mim e voc, como sempre faz questo de dizer.
 Mas ele agora j se envolveu. Fez sua opo, da mesma forma que voc, quando matou meu irmo. Depois de acabar com ele, cuidarei de voc. Ainda se lembra de tudo 
o que vou lhe fazer? Lembra?
 No precisa machucar Fletcher. Por favor, no! Farei o que voc quiser, mas no o machuque.
 Vai, sim  ele garantiu dando uma gargalhada horripilante.  Vai fazer tudo o que eu mandar.
Ele desligou, porm Cilla continuou implorando-lhe que poupasse a vida de Fletcher. Por fim, aos prantos, bateu o telefone e foi correndo para o quarto vestir-se.
Precisava ir ao encontro de Fletcher, v-lo cara a cara para ter certeza de que estava bem e avis-lo do perigo que corria. No suportaria perder o homem que amava.
Com os cabelos ainda molhados e despenteados, atravessou depressa o corredor, abriu a porta e quase tropeou em Nick Peters.
 Oh, meu Deus  exclamou fechando uma das mos sobre o peito.  Nick!
 M-Me   perdoe.   No pretendia assust-la  desculpou-se o rapaz, ajeitando os culos sobre o nariz.
 Preciso sair  ela disse, apressada, procurando as chaves na bolsa.  Acabei de receber outro telefonema e preciso avisar Fletcher.
 Ei, espere!  pediu Nick ao pegar as chaves que ela derrubara.  Voc no est em condies de dirigir.
 Preciso avisar Fletcher! Esse sujeito vai mat-lo!
 Voc est realmente apaixonada por ele, no ?  indagou Nick, sem disfarar seu desgosto.  No se preocupe. Fletcher trabalha na polcia e sabe se cuidar.
 Voc no entende!
 Entendo, sim. Voc foi passar o fim de semana com ele!
O tom de acusao do rapaz assustou-a, e Cilla o fitou, dando um passo para trs. Ento, olhou para a radiopatrulha estacionada em frente  casa e pensou em... No. 
Era bobagem ter medo de Nick.
  Nick, me desculpe, mas eu no tenho tempo para conversar. Mais tarde ns nos vemos na rdio, est bem?
 Pedi demisso esta manh.
 Mas, por qu? Voc vai indo to bem, tem um futuro brilhante na KHIP.
 Voc nem sabe  ele retrucou com amargura.  E nem se importa comigo.
 Me importo, sim.
Quando Cilla tocou-lhe o brao, ele se afastou depressa.
 Voc me deixa fazer papel de bobo.
 Oh, meu Deus, de novo? Por favor, Nick, no fale assim.
 Eu no podia sequer me aproximar. Ento, de repente, ele chega e acaba tudo. Fui chamado para depor na polcia  contou com lbios trmulos.  Pensam que sou em 
quem est querendo mat-la.
  Deve ter sido engano...
  Como pde acreditar que eu quisesse machuc-la?  ele gritou, indignado. E devolveu-lhe as chaves.  S vim aqui para lhe dizer que pedi demisso, assim no tem 
mais que se preocupar comigo.
 Nick, por favor, espere!
Mas ele j se afastava em direo ao carro, sem olhar para trs.
Seus joelhos tremiam tanto que Cilla viu-se obrigada a sentar-se na sala por alguns segundos antes de pegar o carro. Como pudera ser to desatenta? Nick estava com 
o ego ferido e, agora, perdera sua amizade para sempre. Quanto tempo ainda teria de esperar para que sua vida voltasse ao normal?
Cilla detestava delegacias. Sempre detestara. Ansiosa, mexia no crach de plstico que recebera na entrada enquanto cruzava um corredor limpssimo, cheirando a desinfetante 
e caf.
Os telefones no paravam de tocar. Havia diversas vozes ao redor; ora mais alta, ora mais baixa. Cilla entrou por uma porta  direita, de onde vinha o barulho maior, 
e olhou para a sala.
Era bem diferente da sala bagunada e confusa onde sua me trabalhava. Ali, havia mais espao, mais mesas e diversos terminais de computador. Os dedos geis das 
secretrias voavam nos teclados de plstico.
Num banco prximo, uma mulher carregava um beb no colo. A criana chorava muito, e um policial tentava distra-la balanando as algemas no ar. Do outro lado da 
sala, uma jovem, ainda adolescente, fazia um relato comovido a uma policial  paisana.
Aquelas imagens lhe trouxeram  mente lembranas desagradveis da infncia quando havia dias em que sua me, sem poder contar com a ajuda de uma bab, a levava consigo 
para a delegacia. Cilla passava horas sentada num canto vendo o movimento constante. Eram horas solitrias quando se sentia absolutamente abandonada.
Ento, viu Fletcher saindo por uma outra porta, a camiseta molhada de suor. Jackson vinha logo atrs, com a fisionomia nervosa, seguido por Althea.
Jackson a viu primeiro e chegou a dar um passo incerto em sua direo. Porm, dando de ombros, deteve-se. Cilla, no entanto, foi ao seu encontro e segurou-lhe as 
mos.
 Voc est bem?
 Estou.  Jackson deu de ombros novamente e apertou-lhe as mos.  Me chamaram para um interrogatrio,  s.
 Oua, se quiser conversar, espere por mim e podemos bater um papo.
 No  preciso, 0'Roarke. H certos erros que a gente comete no passado e que nos acompanham para sempre.
 Oh, Jim.
 No  nada de grave, fique tranquila. Nos vemos esta noite  ele garantiu sorrindo.
 Claro.
 Agradecemos sua colaborao  Althea interveio.
 Farei o que for possvel para ajudar Cilla  ele garantiu.  Somos muito amigos.
Jim despediu-se e partiu.
 No era preciso t-lo chamado. Jim  um excelente amigo, mas, bem... Preciso falar com vocs.
 Venha  disse Fletcher encaminhando-a para a sala de conferncias.  Aqui  um pouco mais quieto.
 Quer beber algo gelado?  Althea ofereceu.  Eles j devem ter consertado o aquecimento, mas ainda est fazendo muito calor aqui dentro.
 No, obrigada. No vou demorar.  Os trs se sentaram ao redor da mesa, e Cilla escolheu bem as palavras:  Posso saber por que Jackson estava aqui?
 Vocs foram colegas de trabalho em Richmond. Ele bebia demais e acabou sendo despedido. Na poca, o fato o deixou bastante contrariado.
  No  verdade.
 Por que no nos contou a esse respeito, Cilla?
 Para ser franca, isso nem me ocorreu. J foi h bastante tempo e Jim mudou muito nestes ltimos anos. Ele deve ter lhes contado que freqentou uma associao para 
alcolatras por mais de trs anos e conseguiu se recuperar.
 Foi voc quem conseguiu este emprego para ele na KHIP  Fletcher afirmou.
 No sou responsvel por sua contratao, mas falei muito bem a respeito dele para a diretoria. Jackson  um bom sujeito, incapaz de fazer mal a uma mosca.
 Mas quando est bbado, ameaa mulheres, faz quebradeiras em bares e dirige feito um louco.
 Isso foi coisa do passado. Ele hoje  outra pessoa.
 Na verdade, no foi para falar sobre Jackson que vim aqui hoje. Recebi outro telefonema, h alguns minutos, quando estava em casa.
 J sabemos. O pessoal da escuta nos passou a informao  explicou Althea.
 Ento, j devem estar a par do que ele falou. Oh, Fletcher, ele quer mat-lo. Sabe que fomos viajar juntos e quer liquid-lo.
 O telefonema foi dado de outro telefone pblico a dois quarteires de sua casa.
 Fletcher, ser que voc no me ouviu?  ela indagou, nervosssima, dando um murro na mesa. Althea lanou-lhe um olhar glido de reprovao.  Ele vai tentar mat-lo, 
tambm!
Consciente de que ela estava mais carente dos seus servios do que de seus carinhos, Fletcher conteve o mpeto de tocar-lhe o brao e acalm-la.
 J que a estou protegendo, ele teria de me matar para alcan-la. No mudou nada.
 Mudou tudo! Ele no se importa se voc trabalha na polcia ou no. S se importa com o fato de estarmos juntos! Quero que voc pea afastamento do caso, Fletcher. 
No quero que volte a se aproximar de mim at que esteja tudo resolvido. Fletcher amassou um copo plstico e o jogou no lixo:
 No seja ridcula.
 No estou sendo ridcula, apenas prtica.  Cilla voltou-se para Althea com um olhar de splica:  Por favor, fale com ele. Quem sabe Fletcher a oua.
 Sinto muito, mas acho que Fletcher est com a razo. Nossa misso  proteg-la e desvendar seu caso.
Cilla ficou desesperada:
 Se  assim, falarei com o capito pessoalmente.
  le j soube do telefonema.
Mas Cilla no se deteve e levantou da cadeira:
 Mas no sabe que estamos dormindo juntos.
 Cilla, sente-se.  Ela resistiu e Fletcher repetiu:  Eu disse sente-se.  Temerosa de um escndalo, ela obedeceu.  Pode ir falar com o capito e exigir o meu 
afastamento. Faa o que quiser, mas se ele me tirar do caso, pedirei demisso.
Ela ficou pasma.
 No acredito.
 Experimente e ver.
 Ele permanecia calmo, extremamente calmo, e determinado. No fundo, Cilla sabia que no se tratava de uma ameaa vazia com o intuito de intimid-la. Era uma promessa.
 Fletcher, entenda: como acha que eu me sentina se lhe acontecesse algo?
 Mal. Mas, sendo assim, voc deve saber que tenho meus motivos para querer ficar a seu lado a qualquer custo.
 No quero que lhe acontea o mesmo que houve com minha me  ela alegou, j quase desesperada.
 Sua me no estava to preparada quanto estou. Ele no vai me pegar desprevenido. Cilla, eu a amo e logo voc vai ter de aceitar essa verdade, vai ter de conviver 
com ela. At l, limite-se a confiar em mim.  tudo o que lhe peo.
Vencida, ela soltou as mos sobre o colo.
 Bem, no tenho mais nada a dizer.
 Tem, sim.  Ele puxou uma pasta da mesa ao lado. Cilla estava muito abalada e talvez no fosse a melhor hora para falarem no assunto, porm, no podiam perder 
mais tempo:  Conte-nos mais a respeito de John McGillis.
Sua cabea latejava terrivelmente, e Cilla esfregou as mos sobre as tmporas.
 J disse tudo o que sabia. Qual o problema?
 Ele morreu.
Cilla baixou os braos vagarosamente.
  orreu? Tem certeza? Ele era to jovem.
 Temos certeza de que se trata da mesma pessoa. John McGillis se suicidou h cinco meses  acrescentou, temendo pela reao dela.
Por uns instantes ela limitou-se a arregalar os olhos. Pouco depois, seu rosto foi ficando cada vez mais plido at perder a cor.
 Oh, meu Deus, no! No pode ser! Ele ameaou se matar, mas eu no achei que...
 John era um rapaz instvel emocionalmente, Cilla, e j tinha passado por diversos tratamentos psiquitricos. Tinha problemas com a me, com os colegas de escola, 
de servio. Segundo a polcia de Chicago, foi a terceira tentativa de suicdio.
 John era to tmido e queria tanto que eu...  Cilla deixou a frase incompleta e fechou os olhos.  Ele se matou depois que deixei Chicago para vir para c, exatamente 
como ameara.
 John tinha distrbios muito srios. Um ano antes de conhecer voc, ele se envolveu com outra garota e quando ela terminou o namoro, tomou um vidro inteiro de barbitricos.
 Fui muito cruel com ele. Na poca, achei que era a melhor forma de trat-lo.
 Fez bem. Agora, quero que nos conte tudo o que lembra a respeito dele,.
Cilla respirou fundo e cruzou as mos sobre a mesa. Ento, comeou seu relato com muita calma:
 Ele estava sempre sozinho. Como j disse, John me telefonava na rdio e s vim a conhec-lo mais tarde. Depois disso, s falava que me amava e queria casar comigo. 
Costumava me mandar bilhetes e flores quase todos os dias, mas isso  muito comum quando um f se apaixona pelo artista. Porm, com o tempo, fui percebendo que ele... 
Bem, que ele no era muito normal.
Fletcher anotava tudo num bloquinho.
 Os bilhetes foram se tornando mais pessoais, apaixonados. A nica vez em que ele se alterou foi quando, um dia, me mostrou a tatuagem que tinha no peito: duas 
facas em forma de "X". Achei-a ridcula e disse-lhe que no combinava com um rapaz to sensvel. Eu estava cansada, tinha trabalhado muitas horas e no estava com 
disposio para conversar. Ele, porm, ficou aborrecido com a minha crtica. Chegou a ficar bastante bravo. Disse que se era bom para o irmo, era bom para ele, 
tambm.
 Irmo?  repetiu Fletcher.
 , foi o que disse.
 Mas John no tinha irmos.
 Tinha, sim. Ele o mencionou umas duas vezes, em conversas.
 Chegou a dizer como se chamava?
 No  respondeu Cilla, procurando puxar pela memria.  No  repetiu, mais segura.  S contou que o irmo morava na Califrnia e que no o via h dois meses. 
Queria que eu o conhecesse, ou coisa parecida.
 John no tinha irmo  insistiu Althea ao abrir a posta para ler a primeira pgina.  Era filho nico.
 Ento, foi inveno dele  disse Cilla.
 No  Fletcher concluiu, voltando-se para as duas.  O sujeito que estamos procurando  real e bastante perigoso. No se trata de imaginao.

CAPITULO XI

Eram tantas coisas em que pensar que a cabea de Cilla latejava. O telefonema, a visita de Nick, as lembranas do passado, o suicdio de John McGillis.
Pela primeira vez na vida, ela teve vontade de trancar-se no quarto e dormir vinte e quatro horas seguidas para fugir dos problemas e esquecer os medos.
Ou, talvez, fosse exatamente o contrrio. Mal via a hora de retomar o controle de sua prpria vida, E, to logo o retomasse, jamais voltaria a perd-lo, prometia 
a si mesma.
Enquanto entrava em casa acompanhada por Fletcher no lhe ocorria nada que pudesse lhe dizer. No estava disposta a discutir, ainda mais sabendo que seus argumentos 
seriam inteis. Ele no se afastaria do caso e no acreditaria se ela lhe dissesse que aquele relacionamento no tinha futuro.
Indo direto  cozinha, abriu um dos armrios e pegou trs aspirinas. Fletcher viu-a encher um copo de gua para engoli-las; seus movimentos eram automticos e trmulos. 
Enquanto lavava o copo, Cilla olhou pela janela dos fundos, observando o canteiro que logo estaria florido.
Seu desejo era que em pouco tempo os primeiros botes amarelos comeassem a surgir para alegrar a casa. Era ali que gostava de passar suas horas vagas, revolvendo 
a terra e replantando as mudas.
 Voc j comeu?  Fletcher indagou.
 No me lembro.  Cilla cruzou os braos e olhou para os galhos das rvores. Os primeiros brotos verdes j comeavam a despontar. Dentro de algumas semanas as folhas 
comeariam a se desenvolver, proporcionando uma sombra agradvel.
 Mas no estou com fome. Se quiser, deve ter algo na geladeira.
 Por que no dorme um pouco?  ele sugeriu massageando-lhe os ombros tensos.
 Eu no conseguiria dormir ainda.  Suspirando, Cilla pousa a mo direita sobre a dele.  Dentro de poucas semanas terei de cortar a grama do jardim e acho que 
vai ser divertido. Nunca tive um gramado para aparar.
 Posso vir observ-la?
Ela achou graa, como ele j esperava.
 Gosto daqui. No apenas da casa, embora fique muito feliz em dizer que a possuo. Gosto deste lugar.  a primeira vez que me sinto em casa desde que deixei a Gergia. 
H tempos eu no tinha esta sensao.
 s vezes temos a sorte de encontrar o que queremos sem ter de procurar.
Ele falava sobre o amor, ela percebeu, mas quis desviar o assunto.
 Em dias de sol, o cu fica lindo, muito azul, e os prdios parecem que foram pintados, de to ntidos. Mesmo se estando no centro da cidade,  possvel enxergar-se 
as montanhas.
 Voc agora tambm faz parte da paisagem.
 Nunca acreditei que as coisas pudessem durar, mas j comeava a mudar meu ponto de vista antes disso tudo acontecer. Agora, creio que no posso me sentir  vontade 
em parte alguma enquanto no deixar de sentir medo.  Ela ergueu os braos e segurou-lhe o rosto entre as duas mos, estudando-o como se o visse pela primeira vez. 
 Fletcher... gosto de voc como jamais gostei de outra pessoa na vida, exceto Deborah e, no entanto, isso no  suficiente.
 Claro que   ele lhe assegurou tocando-lhe os lbios de leve.  No  preciso mais nada.
 No, voc no me entende. No precisa concordar com o que digo, mas aceite meu modo de pensar.
 Oua: depois que tudo estiver terminado, teremos uma longa conversa sobre o que devemos ou no aceitar, est bem?
 Quando tudo isso estiver terminado, voc poder estar morto  ela argumentou e apertou-lhe as mos com fora.
 Voc quer mesmo casar comigo?
 Claro que quero.
 Se eu aceitasse seu pedido, voc largaria o caso e ficaria nas montanhas at que tudo terminasse?
Ele tentou conter a revolta e respondeu com seriedade:
 No sei se sabe, mas  crime chantagear um policial.
 Estou falando srio.
 Sim, eu sei.
 Eu caso com voc e prometo faz-lo feliz, porm lhe peo este favor.
Fletcher deu um passo para trs.
 Sinto muito, mas eu no posso concordar.
 Droga! Seja razovel!
Ele enfiou as mos nos bolsos com fora e desabafou:
 Voc acha que estamos tratando de uma barganha? Um acordo comercial? Diabo, estamos falando em casamento! Trata-se de um compromisso sentimental, espiritual. Se 
eu abrir mo do que quero agora, logo iro surgir outras cobranas do tipo "largue seu emprego seu concordo em termos um beb".
Surpresa e envergonhada, Cilla arregalou os olhos e ergueu as mos:
 Me desculpe, me desculpe. No foi isso o que eu quis dizer.  que no consigo esquecer a ameaa que ele me fez hoje por telefone e no quero imaginar o que seria 
de mim se algo lhe acontecesse.  E fechou os olhos:  Seria melhor morrer.
 Mas eu estou aqui  afirmou Fletcher voltando a abra-la , e no pretendo me afastar de voc. Nada de mau acontecer a nenhum de ns.
Cilla puxou-o contra si e apoiou o rosto em seu peito.
 Me perdoe, sim? No fique bravo comigo, mas eu estou com muito medo.
 Acalme-se. Tudo vai acabar bem.
 Vamos subir  ela pediu, emocionada.  Venha para a cama comigo.
De mos dadas eles cruzaram o corredor. Entrando no quarto, Cilla fechou a porta e trancou-a num gesto quase simblico que materializava seu desejo de fugir do resto 
do mundo.
O sol se infiltrava por entre a persiana, mas Cilla no se preocupou em fech-la. Ali, no haveria segredos entre eles. Fitando-o de modo direto e intenso, Cilla 
comeou a desabotoar a blusa.
H at poucos dias, no seria capaz de tal gesto, reconheceu, temendo estar agindo da forma errada, expondo-se demais, oferecendo-se. Mas Fletcher a fizera compreender 
que a entrega tinha um significado maravilhoso para dois amantes.
Ambos se despiram sem, no entanto, se tocarem. Cilla queria observ-lo antes, memorizando os contornos daquele corpo que lhe proporcionava tanto prazer, tantas descobertas.
O sol produzia reflexos dourados nos cabelos loiros de Fletcher, e os olhos, muito verdes, brilhavam de modo especial ao percorrerem as curvas de Cilla que ainda 
se admirava com a beleza de seus msculos bem desenvolvidos, a pele bronzeada, o peito largo.
Ser que ele fazia idia do quanto era excitante?, ele cogitava. Cilla estava adorvel ali de p, no centro do quarto, as roupas cadas a seus ps, os cabelos soltos.
Ela estendeu os braos e foi ao seu encontro com um sorriso sedutor nos lbios, mas, ainda assim, Fletcher manteve-se imvel, aguardando. Ento, Cilla murmurou seu 
nome baixinho e, aproximando-se, o beijou.
No seu quarto, na sua cama, na sua casa, pensava Cilla. Ali estava o homem que ela amava, pronto para possula mais uma vez. A fora de seus braos, a ternura de 
suas mos, as batidas aceleradas do corao... Comovida, Cilla sentiu os olhos rasos d'gua e aprofundou o beijo.
Fletcher percebeu a mudana e abraou-a com mais fora, excitadssimo. Naquela tarde, o amor se revestiria de uma atmosfera mais calma, mais romntica, sem a paixo 
urgente das outras vezes. Mas, nem por isso, menos excitante. Sentindo-a absolutamente entregue em seus braos, Fletcher deitou-a no centro da cama.
Ele a beijava com tanto carinho, tocava-a com verdadeira venerao, como se tivesse uma pea de cristal nas mos. Agora que Cilla j sabia onde terminava aquela 
jornada, ansiava por come-la.
Nada de pensamentos funestos ou medos infundados. Como flores prestes a desabrochar, Cilla queria celebrar o simples fato de estar viva e ser capaz de amar sem restries.
Fletcher excitou-a aos poucos, lentamente, at v-la arder de desejo. Cilla, j mais solta, retribua os carinhos com liberdade, sem constrangimento e lhe murmurava 
promessas de amor que jurava cumprir.
Corpos unidos, mentes e coraes na mesma sintonia, ambos se embrenharam pela estrada colorida que os conduzia ao paraso.

A cabine lhe parecia um mundo estranho e desconhecido. Cilla olhou para a mesa de controle como se nunca a tivesse visto. O estdio, que j fora seu lugar preferido, 
naquela noite tinha uma atmosfera hostil que a deixava tensa e ansiosa pelo trmino do programa.
Naquela tarde, em sua casa, Fletcher mencionara uma viagem que faria a Chicago na manh seguinte. Cilla pretendia encoraj-lo a ir pois ficaria mais tranqila sabendo 
que, pelo menos por algumas horas, Fletcher estaria a salvo.
A notcia do suicdio de John McGllis a deixara chocada, porm, no se culpava pelo fato. Fletcher lhe provara que o rapaz sofria mesmo de srias perturbaes mentais. 
Por outro lado, achava um desperdcio a morte de um rapaz to jovem, que ainda teria muito o que viver.
A polcia se encarregaria de proteg-la, pensou ao tocar o sucesso seguinte. A polcia e ela mesma. O problema era saber quem protegeria Fletcher, j que ele se 
recusava a se afastar do caso.
  Voc est com sono?  ele perguntou, sentado a seu lado.
  No, apenas tensa.
J era quase meia-noite, hora dos pedidos telefnicos. Como sempre, eles estavam sozinhos no prdio, cujas portas permaneciam trancadas.
 Calma, falta pouco tempo para terminar. Oua, por que no vem para a minha casa esta noite? Vou lhe mostrar minha coleo de discos dos Muddy Waters.
 De quem?  ela indagou, fazendo-se de boba, s para provoc-lo.
 Ora, vamos. Voc sabe de quem estou falando. Toda vez que Fletcher lhe sorria, seus medos se acalmavam, e o mundo lhe parecia um lugar melhor.
 Est bem, quero conhecer esse tal conjunto. Mas com uma condio.
 Qual?
 Voc vai ter de responder a trs perguntas.
 Diga.
 Espere um pouco.  Ela soltou outro disco, fez uma breve introduo e folheou uns papis.  Pronto. Voc tem trs minutos e dez segundos. Primeira: qual foi o 
primeiro conjunto ingls a fazer uma turn pelos Estados Unidos?
 Ah, voc no me pega! Foram os Dave Clark Five. Depois, vieram os Beatles.
 Ora, nada mau para um amador. Segunda: quem foi o ltimo a tocar no festival de Woodstock?
 Jimi Hendrix. Assim est muito fcil.
 Ento, aqui vai a terceira: em que ano foi lanado That'11 Be The Day, do conjunto Buddy Holly and the Crickets?
 Puxa, essa  antiga mesmo.
 Voc est procurando ganhar tempo. Responda logo.
 Foi em 1956.
 Voc disse 56?
 Exato.
  Que pena, errou por um. Foi em 1957. Voc vai ter de vir  minha casa para ouvirmos uma retrospectiva dos Rolling Stones  Cilla alegou, bocejando.
 Se voc conseguir ficar acordada at l...  Fletcher ficava contente ao v-la mais descontrada.  Quer um caf?
 Puxa, se quero.
 Vou busc-lo e volto j.                    
O prdio estava vazio, pensou Fletcher. Desde que Nick Peters pedira demisso no havia mais ningum para preparar o ltimo caf da noite. Consultando o relgio 
do corredor, reconheceu que ele tambm mal via a hora de terminar o programa. Queria estar de volta  cabine antes que os telefones comeassem a piscar.
Entre um intervalo e outro do programa, ofereceu-lhe uma rosquinha bem doce, certo de que ela precisaria de uma dose extra de energia para terminar o programa.
Antes de ir at a copa, Fletcher foi at a entrada do prdio verificar as portas. As trancas estavam em ordem, e o alarme, ligado. Seu carro era o nico no estacionamento. 
Satisfeito, verificou com o mesmo cuidado as portas do fundo para s ento ir  copa.
Tinha certeza de que, agora, seria uma questo de dias at que conseguissem prender o responsvel pelas ameaas. Seria timo poder ver Cilla livre daquelas olheiras 
profundas, senti-la mais descontrada e alegre, como costumava ser.
Restaria apenas aquela energia saudvel que fazia parte de sua personalidade: a vivacidade que as pessoas tanto lhe admiravam.
Enquanto acrescentava mais uma colher de p de caf  cafeteira eltrica, Fletcher ouvia a voz de Cilla pelos alto-falantes, anunciando outra cano.
Uma voz mgica. Jamais pensara que Cilla fosse to diferente da imagem que criara ao ouvi-la pelo rdio; jamais imaginara que chegasse a am-la com tanta intensidade.
A msica era I Love Rock and Roll, com Joan Jett, e Fletcher reconheceu que, decididamente, aquele devia ser o tema musical de Cilla 0'Roarke. Embora o som estivesse 
baixo, o ritmo frentico era contagiante.
Uma semana de frias nas montanhas lhe faria bem, concluiu Fletcher. Nada de problemas ou medos. Por uns dias, ficariam reclusos num pequeno ninho de amor.
Apreciando o aroma do caf que comeava a pingar, esperou poder ir a Chicago o quanto antes para voltar com um mximo de informaes sobre o tal McGillis.
Sobressaltado com um rudo qualquer vindo do corredor, Fletcher girou nos calcanhares. Um sussurro. O estalo de uma madeira. Automaticamente seus dedos puxaram o 
revlver do coldre. De arma em punho, colou-se  parede lateral e foi at a porta verificar o que se passava ali fora.
"Acho que estou imaginando coisas", disse a si mesmo ao ver apenas o corredor vazio, iluminado pelas luzes de segurana. O instinto, porm, o aconselhava a manter 
a arma em punho e, no exato instante em que deu o segundo passo para fora da copa, as luzes se apagaram.
Praguejando ruidosamente, ergueu a arma por uma questo de segurana e moveu-se com rapidez. Nos alto-falantes, a msica romntica dos anos 60 continuou tocando. 
Ao fundo, Fletcher pde ver o reflexo das luzes da cabine e, mantendo as costas rentes  parede do corredor, rumou para l o mais rpido possvel.
Porm, ao fazer a ltima curva do corredor antes da cabine, ouviu um rudo vindo de trs. Virando-se, em alerta, viu a porta da sala de despejo abrir-se, mas no 
teve chance de ver a faca.

Cilla consultou o relgio da cabine e perguntou-se por que Fletcher estava demorando tanto para voltar:
 Este foi mais um sucesso de Joan Jett and the Blackhearts para vocs. So exatamente onze horas e cinquenta minutos em Denver e a temperatura est na marca dos 
treze graus. No se esquea de que nosso colega Wild Bob estar fazendo uma externa especial diretamente do Brown Palace Hotel no dia dezessete deste ms. Trata-se 
de um jantar em benefcio dos menores abandonados de Denver e os convites continuam  venda. O evento comear a partir das sete horas da noite e no tem horrio 
certo para terminar. Wild Bob promete que a noite ser inesquecvel.  Cilla preparou o prximo disco a ser tocado e anunciou:  Aqui fala Cilla 0'Roarke direto 
da KHIP, rdio Yankee. Aps esta msica, teremos um intervalo com as notcias e voltamos em seguida com os pedidos telefnicos.
Desligando os microfones, girou os ombros procurando relax-los e tirou os fones de ouvido. Enquanto cantarolava o sucesso, consultou o relgio que marcava os minutos 
transcorridos. Satisfeita com o seguimento da programao, levantou-se a fim de se preparar para o bloco seguinte.
Foi ento que viu o corredor s escuras, atravs do vidro da porta. A princpio, ficou pasma, olhando para a escurido, mas, aos poucos, foi ficando plida, trmula, 
apavorada. Se as luzes de segurana estavam apagadas, o alarme tambm devia ter sido desativado.
Ele estava ali. Gotas de suor comearam a brotar de sua testa e Cilla agarrou-se ao espaldar da cadeira. Aquela noite no haveria nenhum telefonema annimo, nenhuma 
ameaa porque ele estava ali, dentro do prdio, a poucos metros da cabine.
De repente veio-lhe uma vontade imensa de gritar e sair correndo, mas o pnico a paralisou.
Ele tinha ido  procura de Fletcher, tambm!
Impelida pelo desespero, Cilla saiu correndo.
 Fletcher!  gritou, tropeando na escurido. Contudo, calou-se ao ver um vulto caminhar em sua direo. Embora fosse apenas uma sombra disforme movendo-se no escuro, 
Cilla teve certeza de que era o assassino. Agarrando-se  parede, deu um passo para trs.  Onde est Fletcher? O que voc fez com ele?
E deu outro passo. As luzes da cabine iluminavam fracamente o lugar onde estava. Cilla ia comear a implorar-lhe quando suspirou aliviada.
 Ah,  voc? No sabia que estava aqui; pensei que todos tivessem ido embora.
 Todos foram embora  ele respondeu e, aproximando-se, ficou sob o facho de luz que vinha da cabine, com um sorriso mrbido nos lbios.  Estamos ss.
Cilla quase desmaiou de pavor ao v-lo segurar uma faca de caa j manchada de sangue.
 Fletcher...
 Ele no pode mais ajud-la. Ningum pode. Esperei muito tempo para ter uma chance de ficar sozinho com voc. Sua hora chegou.
 Por qu?  Cilla movia-se e falava de modo automtico, sem refletir sobre seus atos. Seus olhos continuavam fixos na lmina manchada de sangue. O sangue de Fletcher. 
 Por que, Billy?
 Voc matou meu irmo.
 No, no matei.  Cilla deu um passo para trs e entrou na cabine. Um arrepio glido lhe percorria a espinha e um n lhe dificultava a respirao.  No matei 
John. Eu mal o conhecia.
  Ele te amava.
Ele avanou mais uns metros com a faca em punho, o olhar fixo em Cilla. Tinha os ps descalos, usava uma cala colante preta de malha e uma meia de seda puxada 
sobre a cabea. Embora houvesse esfregado um pouco de carvo nos braos e torso nus, Cilla pde ver a tatuagem com as duas facas. Igual  que John McGillis lhe mostrara.
  Voc ia se casar com ele. John me contou.
  Foi um engano.
Cilla deu um grito ao v-lo agitar a faca em sua direo. A cadeira giratria caiu ruidosamente ao cho no momento em que ela se apoiou na mesa de controles.
  No minta para mim, sua miservel! Ele me contou tudo, o quanto voc o amava, as promessas que lhe fazia.  Ele baixara o tom de voz reduzindo-a ao mero sussurro 
que adotava ao telefone. O corao de Cilla batia disparado.  Voc o seduziu e enganou. Ele era jovem, ingnuo e no entendia de mulheres do seu tipo. Mas eu entendo. 
 Billy enxugou os olhos com a mo que segurava a faca e tirou uma arma do bolso.  Ele era bom demais para voc.  Atordoado, deu um tiro para o alto e Cilla viu 
a bala alojar-se no teto. Horrorizada, ela cobriu a boca com as mos.  Ele me contou que voc mentiu, o traiu se exibindo por a.
  Eu nunca quis mago-lo.  E Cilla dizia a si mesma para no perder a calma. Fletcher no devia estar morto. Ferido, talvez; morto, no. Era preciso arranjar um 
modo de conseguir socorro. Raciocinando com clareza, esticou o brao para trs bem devagar, manteve o olhar pousado em Billy e ligou o microfone.  Eu juro, Billy, 
nunca quis magoar seu irmo.
  Mentirosa!  ele gritou levantando a faca para encost-la no pescoo dela. Cilla ergueu as costas para trs esforando-se para conter o tremor.  Voc no se 
importa com ele... nunca se importou. Voc apenas o usou.
  Eu gostava dele  disse e prendeu a respirao ao sentir a lmina gelada em sua pele. Um fiozinho de sangue comeou a escorrer-lhe pelo pescoo manchando a gola 
da blusa.  Ele...era um bom rapaz e... g-gostava de voc.
 Eu o amava.  A faca tremeu-lhe na mo, mas ele tornou a ajeit-la.  Ele foi a nica pessoa que me amou, o nico a quem amei.
 Eu sei.
Cilla umedeceu os lbios. Algum certamente devia estar ouvindo e logo chegaria para socorr-la. Ela nem ousava olhar ao redor para fitar os telefones, que piscavam 
sem parar.
 Ele tinha cinco anos quando me mandaram para aquela casa. Eu teria odiado aquele lugar se no fosse pelo carinho que ele me dedicava. Ele gostava de mim, precisava 
de mim. Fiquei at os dezoito anos morando l e o considerava meu irmo.
 Sim.
 Entrei no Exrcito porque ele pediu  disse Billy dando outro tiro para o alto.  Ele adorava me ver de uniforme. Ento, fomos mandados para o Vietn e foi o meu 
fim. Arruinei minha perna, arruinei minha vida. Todos me odiavam, menos John.
 Entendo.
 Fiquei muito aborrecido e me mudei para a Califrnia.  O tiro seguinte estilhaou o vidro da porta.  John um dia me telefonou feliz dizendo que ia se casar. 
Voc queria casar no Natal, ento ele resolveu esperar porque queria que eu estivesse presente.
Cilla balanou a cabea:
 Eu nunca falei que ia casar com ele e mesmo que voc me mate, no vai conseguir t-lo de volta.  Billy apontou-lhe o revlver.  Voc tem razo: ele era muito 
jovem e confundiu nossa amizade. Sinto muito, mas no fui responsvel pela morte dele.
 Voc o matou  ele insistiu, deslizando uma das faces da lmina em seu rosto.  E vai ter de pagar.
  No posso det-lo, mas, por favor, no faa nada para Fletcher.
 Tarde demais, j o matei.  Sorrindo, Billy levantou a faca sob a luz.  Foi rpido, mais fcil do que pensei. Eu queria v-lo morto o mais depressa possvel, 
mas voc vai ter de sofrer. Quero v-la implorar da mesma forma como John implorou.
 Sinto muito, mas eu no o amava.
Furioso, Billy acertou-lhe um golpe na tmpora com o cabo da faca. A dor horrvel a fez cair no cho junto  mesa de controles, cobrindo o rosto com as mos.
De repente, Fletcher surgiu na porta atraindo-lhes a ateno. Foi apenas por um segundo, mas Cilla suspirou ao v-lo ainda vivo. Nada mais lhe importava.
O suspiro, no entanto, transformou-se num grito de terror ao ver Billy erguer a arma. Tomada por uma energia descomunal, Cilla avanou sobre ele segurando-lhe o 
brao.
Os discos comearam a cair das prateleiras ao redor transformando a pequena cabine numa verdadeira arena. Cilla lutava e lhe implorava para que no fizesse mal nenhum 
a Fletcher.
Fletcher ajoelhou-se, fraco, e a arma quase escorregou-lhe dos dedos sujos de sangue. Sua vista estava turva, semi-escurecida, porm, ainda assim, pde v-los lutando 
no pequeno espao livre da cabine. Veio-lhe um mpeto de gritar para Cilla que se afastasse, mas a voz no lhe saa. Ento, quando viu Billy levantar a faca para 
acertar-lhe um golpe mortal, acionou o gatilho e caiu, desmaiado.
Cilla no ouviu o tiro nem o barulho do vidro estilhaado; viu apenas o corpo de Billy arquear-se para trs enquanto a faca lhe caa das mos. Horrorizada, soltou-lhe 
o brao e viu-o cair sobre a mesa de controles.
Virando o rosto, viu Fletcher no cho ainda com o revlver nas mos. Logo atrs, Althea apontava para Billy, cado no cho, inerte. Cilla deu um grito e correu para 
junto de Fletcher.
 Por favor, no morra  suplicou-lhe, segurando-lhe o rosto entre as mos.
 Por favor, afaste-se  pediu Althea.  Ele est sangrando muito. J chamei uma ambulncia.
Cilla rasgou parte da barra da blusa que usava e atou-lhe o machucado profundo, tentando estancar o sangue.
 No vou deix-lo morrer.
 Ento, seremos duas  acrescentou Althea.

CAPITULO XII

Nervosssima, Cilla andava de um lado para outro da sala de espera do hospital. O silncio ali era tal que se podia ouvir o barulho dos passos das enfermeiras com 
seus solados de borracha e o deslizar das portas do elevador. Em sua lembrana, porm, ainda soavam as sirenes dos carros de polcia que lotaram o estacionamento 
da rdio, as vozes dos policiais e seu prprio choro.
Os enfermeiros haviam chegado em questo de minutos e a afastaram dali, levando-a para fora.
Fora Mark quem a abraara e amparara naquele momento de angstia, e Jackson a obrigara a tomar um caf bem forte. Nick, muito plido, murmurava palavras de conforto.
Alm dos conhecidos, havia tambm dezenas de ouvintes que escutavam a transmisso atravs do rdio. Eles lotavam a entrada do prdio quando a polcia chegara e montara 
barreiras para facilitar sua locomoo.
Em seguida, fora a vez de Deborah chegar correndo, abrindo caminho entre a multido para finalmente abraar a irm. Fora ela quem descobrira que Cilla tambm havia 
sido ferida.
Naquele momento, ainda meio dopada e confusa, Cilla olhava para o curativo em sua mo. Nem sentira a faca machuc-la nos poucos segundos em que lutara com Billy. 
O corte aberto no pescoo com a ponta da faca era mais dolorido. Os ferimentos, no entanto, eram todos superficiais.
Fechando os olhos, podia lembrar-se da figura plida e inerte de Fletcher estirado na maca quando os enfermeiros o retiraram do prdio. Por um momento chegou a temer 
que estivesse morto...
Mas Althea lhe assegurara que Fletcher estava vivo, apesar de ter perdido muito sangue.
Os mdicos o transportaram para o centro cirrgico to logo dera entrada no hospital e a Cilla s restava a espera angustiante por alguma notcia.
Althea, que preferia sentar e se refazer, a observava andar para l e para c. Ela tambm guardava lembranas terrveis daquele pesadelo: o susto de ouvir a voz 
desesperada de Cilla em meio  msica, a corrida desenfreada da delegacia at a rdio, seu parceiro cado ao cho com a arma na mo. Fletcher acertara Billy segundos 
antes de sua chegada.
Deborah, inquieta, levantou-se e foi ao encontro da irm, que parara junto  janela.
  Por que no deita um pouco?  sugeriu.
  No, no posso.
  No precisa dormir; apenas descanse alguns minutos ali no sof. Mas Cilla balanou a cabea numa negativa:
  Oh, Deborah, so tantas lembranas... O modo como Fletcher gostava de me provocar s para me ver brava. Sua presena tranquila a meu lado na cabine. Seu jeito 
autoritrio. Eu pedi tanto para que ele se afastasse do caso, e agora...
 Cilla, no pode se culpar pelo que aconteceu.
 No sei a quem culpar  confessou olhando para o relgio da parede. Quantos minutos ainda teria de esperar?  No momento, no consigo nem raciocinar direito. Ele 
salvou minha vida, Deb. S espero que no tenha de pagar com a vida dele.
Deborah no sabia o que dizer para consol-la.
 J que no quer deitar, aceite pelo menos um caf?
 Sim, obrigada.
Deborah foi at a cafeteira disposta a um canto da sala e, vendo Althea se aproximar, serviu mais uma xcara.
 Como est sua irm?
 Por um fio. No sei como ainda consegue ficar de p.  Deborah entregou-lhe a xcara e estudou a fisionomia da policial.  Ela est se culpando pelo que houve. 
Voc tambm a julga culpada?
Althea voltou-se para a janela e observou a figura abatida de Cilla, usando o palet de Mark Harrison. Ento, percebeu que gostaria de culp-la por ter envolvido 
Fletcher naquela confuso, por t-lo feito se arriscar demais, porm no pde... Nem como policial nem como mulher.
 No  confessou, muito calma.  Eu no a culpo. Ela  apenas mais uma vtima das circunstncias.
 Talvez voc pudesse dizer a ela o que pensa. Acho que Cilla precisa de uma palavra amiga.
No foi fcil para Althea aproximar-se de Cilla. No haviam trocado uma palavra sequer desde que chegaram ao hospital e, de certa forma, consideravam-se rivais. 
Amavam o mesmo homem. De modos diferentes, era bvio, porm amavam.
Detendo-se junto a Cilla, Althea olhou pela janela e viu as luzes da cidade.
 Quer caf?
 Obrigada.  Cilla aceitou a xcara mas no bebeu.  Est demorando tanto...
 J deve estar quase no fim. Cilla prendeu a respirao:
 Voc viu o ferimento, acha que ele vai resistir? 
"No sei", pensou Althea, porm, no foi o que disse:
 Espero que sim.
 Voc um dia me disse que ele era um bom sujeito e hoje reconheo que tinha razo. Durante algum tempo me recusei a enxergar a verdade, mas voc est certa.  Virando-se, 
fitou Althea bem dentro dos olhos.  No sei se voc vai acreditar, mas eu teria feito qualquer coisa para evitar que ele tivesse se machucado.
 Eu sei e voc fez o que pde.  Antes que Cilla se afastasse, Althea tocou-lhe o brao de leve:  Pense bem. O fato de voc ter ligado o microfone salvou-lhes 
a vida. Fletcher sangrava muito e cada minuto era vital. Ouvindo-a atravs do rdio, conseguimos chegar depressa. Ns e a ambulncia. Se Fletcher conseguir sobreviver, 
ser, em parte, pela sua presena de esprito.
 Mas h um outro lado em que pensar! Billy s o feriu por minha causa.
 No adianta tentar racionalizar uma situao irracional e absurda.  Althea adotou um tom mais srio, sem compaxio, e prosseguiu:  J que quer jogar a culpa 
em algum por que no pensa em John McGillis. Foi a fantasia dele que deu incio a isso tudo. Ou, ento, culpe a prpria sociedade por permitir que inmeros garotos 
como Billy Lomus vivam de entidade em entidade, sem nunca saberem o que  ter uma famlia. Pode, ainda, culpar Mark por no ter checado melhor as referncias de 
Billy; ou a mim e Fletcher por no termos levantado a pista bem antes. Todos temos uma parcela de culpa, Cilla, e teremos de conviver com ela.
 Acho que, no momento, no importa saber de quem  a culpa.  a vida de Fletcher que est em jogo.
 Investigador Grayson?
Althea voltou-se em direo  porta e viu o mdico responsvel parado junto  entrada, ainda em seu avental verde-claro, molhado de suor.
 Sim, sou eu.
O mdico ergueu as sobrancelhas, impressionado. Althea, de fato, mais parecia uma manequim do que uma policial, tal sua elegncia.
 Sou o dr. Winthrop, cirurgio-chefe. Boyd Fletcher  seu colega, no?
 Sim.  Althea segurou as mos de Cilla, a seu lado.  Como ele est, doutor?
 S posso dizer que Boyd Fletcher  um homem de sorte. Se a faca tivesse penetrado mais alguns centmetros, ele no teria chance de sobreviver. No momento, seu 
estado  grave mas as perspectivas so boas.
 Oh, ele est vivo!  exclamou Cilla.
 Sim. A senhorita  parente ou...
 No, no.
 A srta. O'Roarke  a primeira pessoa que Fletcher vai querer ver quando voltar a si. A famlia dele foi avisada, porm esto na Europa e vo demorar alguns dias 
para voltar.
 Entendo. Ele est sendo transportado para a unidade de terapia intensiva, onde se recuperar. Srta. 0'Roarke, meu filho  seu f  confessou o cirurgio.  Se 
eu fosse seu mdico, a obrigaria a deitar-se e tomar um tranqilizante.
 Obrigada, mas eu estou bem.
O mdico, no entanto, encarou-a bastante compenetrado:
 Fiquei sabendo de tudo o que houve. A senhorita sofreu um choque terrvel. H algum que possa lev-la de volta para casa?
 Eu no vou sair sem v-lo.
 A senhorita poder v-lo por cinco minutos quando ele j estiver na UTI, mas posso lhe garantir que o investigador Fletcher s vai recuperar a conscincia dentro 
de, no mnimo, oito horas.
 Obrigada.
Se o mdico achava que ela se contentaria com cinco minutos, estava muito enganado.
 Algum vir avis-la quando puder entrar. At logo. O cirurgio afastou-se j tirando o avental, e Althea voltou-se para Cilla:
 Preciso avisar o capito  disse quase chorando.  Eu gostaria muito de poder v-lo por alguns minutos, tambm.
 Claro, Althea.
Ambas se abraaram, comovidas, e Althea afastou-se indo falar com o capito. Cilla voltou-se para a janela.
 Ele vai ficar bom  Deborah murmurou-lhe.
 Eu sei  afirmou Cilla, fechando os olhos por uns momentos.  S quero v-lo com os meus prprios olhos. S isso.
  Voc j lhe disse que o ama? 
Ela balanou a cabea.
 Pois acho que no devia perder esta oportunidade.
 Eu temia no ter mais chances de lhe falar, mas agora... no sei...
 S mesmo uma tola deixaria escapar um homem to especial.
 Tola ou covarde.  Cilla engoliu as lgrimas.  Voc no imagina o quanto sofri temendo que Fletcher morresse. Se eu no desistir agora, quantas noites de sono 
perderei? Cada chamado que ele receber ser um tormento para mim.
 Cilla...
 Ou um dia receberei o capito na porta de casa notando que Fletcher morreu numa misso, da mesma forma como mame.
 Cilla, voc no pode viver uma vida esperando pelo pior. Tente ser mais positiva.
 No sei se eu suportaria outro golpe destes... Alis, no momento no sei de mais nada.
 Srta. O' Roarke?  Deborah e Cilla voltaram-se para a porta.  O dr. Winthrop mandou vir busc-la.
 Obrigada.
Cilla seguiu a enfermeira atravs do corredor. Tinha a garganta seca e as mos midas. Ansiosa, procurou ignorar os aparelhos que viu ao redor logo que cruzaram 
as portas de vidro da UTI.
Fletcher estava muito plido, ligado a diversos aparelhos e monitores. Vrias luzinhas piscavam no painel atrs da cama metlica. "Bom sinal", pensou Cilla.
Chegando mais perto, Cilla acariciou-lhe os cabelos e o rosto.
 Pronto, Fletcher, est tudo acabado  murmurou.
 Agora, o mais importante  que voc descanse bastante e se recupere logo.  Chorosa, enxugou as lgrimas que lhe escorriam pela face e cobriu a boca com uma das 
mos.  Prometo ficar sempre por perto, ouviu?  disse entre um soluo e outro.  Estarei aqui quando voc acordar.
E, de fato, Cilla cumpriu a promessa. Apesar da insistncia de Deborah, ela se recusou a voltar para casa e passou a noite em claro, sentada no sof da sala de espera. 
A cada hora, as enfermeiras lhe permitiam passar cinco minutos ao lado de Fletcher. Consultando o relgio, deixou a sala de espera e foi sentar-se num banco junto 
s portas de vidro da UTI. J estava quase na hora de virem cham-la.
Enquanto aguardava para ser chamada, viu um casal de senhores acompanhados por uma moa entrarem no corredor. Ambos estavam muito abalados e a senhora segurava com 
fora as mos do marido. Cilla olhou-os bem e no teve dvidas: eram os mesmos traos de Fletcher.
Todos tinham a fisionomia cansada e tristonha.
 Por favor  disse a moa aproximando-se do posto das enfermeiras.  Somos parentes de Boyd Fletcher. Mandaram nos chamar dizendo que poderamos v-lo.
A enfermeira conferiu umas fichas.
 Est bem, eu os levo. Dois de cada vez, por favor.
 Vo vocs  disse a irm de Fletcher.  Eu espero aqui.
Cilla teve vontade de aproximar-se, mas a moa sentou-se na outra extremidade do banco e fechou os olhos. Dez minutos mais tarde, os pais dele saam da UTI.
 Natalie  disse a sra. Fletcher.  Ele est acordado, apesar de sonolento, e nos reconheceu.  O marido tambm estava feliz.  Quis saber o que estvamos fazendo 
l quando deveramos estar em Paris. O doutor foi examin-lo, mas daqui a pouco, voc poder v-lo.
Natalie abraou a me pela cintura.
 Que bom, mame.
Mas o sr. Fletcher j no sorria mais.
 Quero saber exatamente o que aconteceu. Preciso conversar com o capito e pedir explicaes.
 No fique assim, meu bem. Logo teremos oportunidade de falar com o capito. No momento, o mais importante  que ele est vivo. Alis, por diversas vezes Fletcher 
perguntou por uma moa chamada Cilla. Acho que no a conheo; nunca ouvi este nome.
Apesar de seus joelhos tremerem muito, Cilla conseguiu levantar-se do banco:
 Cilla sou eu  disse, atraindo a ateno da famlia.  Sinto muito pelo que houve. Ele foi ferido enquanto tentava me proteger.
 Com licena.  A enfermeira surgiu na porta de vidro.  O investigador Fletcher faz questo de v-la, srta. O'Roarke. Ele j est ficando agitado.
 Eu vou com voc. Natalie e Cilla atravessaram a porta.
Fletcher mantinha os olhos fechados, mas no dormia. Seu intuito era recuperar as foras que perdera discutindo com o mdico. Porm, mesmo sem abri-los, sentiu a 
presena de Cilla antes mesmo que ela o tocasse.
 Oi, Fletcher, como vai?  ela perguntou baixinho.
 Voc no se machucou  Fletcher afirmou, feliz. A ltima imagem que tinha na lembrana era a de Billy com a faca erguida, pronta para acert-la.
 Sim, estou bem  Cilla firmou, escondendo a mo machucada atrs das costas.
Natalie notou e estranhou o gesto.
Fletcher abrira os olhos e a fitava intensamente.
 Sua aparncia no  das melhores  ela brincou.
 Imagino.
 Voc salvou minha vida. Estou em dvida com voc, Fletcher.
 Exatamente.  Ele queria toc-la, mas seus braos pesavam toneladas.  Quando pretende me pagar?
 Falaremos nisso mais tarde. Sua irm est aqui. Ele virou um pouco mais a cabea e sorriu para a irm.
 Obrigado por ter vindo, Natalie.
 Fico feliz que esteja bem. Fletcher voltou-se para Cilla:
 Voc passou a noite toda em claro, agora v para casa. Isto  uma ordem. Eu te amo.
  Est bem. Preciso preparar o programa desta noite. At mais tarde, Fletcher.
Cilla despediu-se e saiu da UTI.
 Ora, ora. No me diga que est apaixonado!  comentou Natalie, radiante.
 Mais do que isso. No saberia mais viver sem Cilla. Assim que eu conseguir ficar acordado por mais de quinze minutos, pretendo me casar com ela. Pode dar a notcia 
para mame e papai. Cilla  uma pessoa maravilhosa.
 Eles vo adorar a notcia.
Na semana seguinte, Cilla passou a maior parte de seus dias entre ir e vir do hospital. As visitas eram tantas que ela e Fletcher no tinham chance de conversar 
em particular. A distncia, at certo ponto, era saudvel, na opinio de Cilla, pois ambos precisavam de um tempo para pensar em tudo o que acontecera. Ele j havia 
sido removido para um apartamento e se recuperava com incrvel rapidez.
Certa tarde, Thea foi a seu encontro na rdio e contou-lhe maiores detalhes sobre o passado de Billy Lomus. Tendo tido uma infncia conturbada, Billy fora enviado 
a uma entidade para menores abandonados, onde conhecera John McGillis. Ambos se apegaram um ao outro e John cometera sua primeira tentativa de assassinato quando 
o amigo fora chamado para ir lutar no Vietn. Quando Billy retornara da guerra, ferido e revoltado, John fugira para ir a seu encontro e, embora as autoridades os 
tivessem separado, ambos sempre arranjavam um meio de se encontrar. A morte de John fizera com que Billy perdesse completamente a razo. Na verdade, John tinha srios 
distrbios emocionais, e Billy sofrera profundos abalos psicolgicos na guerra.
 Bem, quero que saiba que aprovo o casamento de vocs  confessou Althea segurando-lhe as mos com firmeza.  Fletcher  meu melhor amigo e eu sei que ser feliz 
a seu lado.
 Obrigada.
 Agora, preciso ir embora. Quero passar no hospital para v-lo, antes de ir para a delegacia.
 Por favor, d-lhe um recado, sim? Pea-lhe que oua meu programa esta noite, est bem? Vou ver se consigo encontrar a gravao de Dueling Banjos.
 Darei o recado. At logo, Cilla.
No tinha sido nada fcil para Cilla reassumir seu programa na KHIP. As primeiras noites foram especialmente penosas j que as lembranas da tragdia lhe voltavam 
 mente toda vez que entrava na cabine.
Contudo, com o decorrer dos dias, as lembranas foram esmorecendo e a rotina se restabeleceu. Nick havia voltado a trabalhar na estao e continuava fazendo questo 
de lhe trazer o ltimo caf todas as noites.
 Boa noite, Denver. Aqui fala Cilla O'Roarke direto da KHIP, rdio Yankee do Colorado. Nosso programa comea agora e vai at as duas horas da madrugada. Fique conosco. 
So dez e quarenta e cinco desta quinta-feira e vamos comear com um sucesso do famoso conjunto Guns 'n' Roses.  Cilla fechou o microfone e voltou-se para Nick, 
ali a seu lado:  Nick, por que no me... Sra. Fletcher!
Cilla pulou da cadeira, surpresa com a visita.
 Espero no estar incomodando. Althea me deu seu endereo e resolvi vir visit-la.
 Claro. Por favor, entre. Nick, por que no nos traz um caf?
  para j!
A sra. Fletcher admirou a cabine, pequena e repleta de equipamentos, e sentou-se num banquinho ali ao lado da porta.
 O que a traz aqui?
 Senti sua falta no hospital estes ltimos dias e resolvi vir lhe dar um al. O mdico nos disse que Boyd sair do hospital em pouqussimo tempo, portanto resolvemos 
voltar para Paris. Meu marido est fechando alguns contratos de negcios, enquanto eu e Natalie aproveitamos para passear.
Cilla pediu-lhe que esperasse um momento, abriu o microfone e anunciou a msica seguinte. Depois, retomou a conversa:
 Vocs devem estar satisfeitos com a recuperao dele, no ? Foi um susto terrvel para todos ns.
 Felizmente no houve prejuzos maiores para ningum, minha filha. Boyd me contou que vocs vo se casar.
 Eu... Com licena, sim.  Mais uma vez ela ligou o microfone:  Chegou a hora do sucesso misterioso da noite. Se voc souber o nome da msica, do cantor e o ano 
da gravao, ligue para ns e concorra a dois ingressos para o show de Madonna, ms que vem aqui em Denver. Fique ligado.
 Seu trabalho  fascinante, no?  declarou a sra. Fletcher.
O telefone comeou a piscar e Cilla teve de atend-lo:
 KHIP... No, no, sua resposta est errada. Fica para a prxima.
Cilla atendia aos telefones com a gentileza de sempre e, no quarto chamado, ouviu uma voz familiar.
 Ol, Cilla 0'Roarke!
 Fletcher! Estou trabalhando.
 Eu sei. J tem um vencedor?
 No, mas...
 Aqui est. A msica se chama Eletric Avenue e foi gravada por Eddy Grant em 1983.
 Puxa, voc est realmente afiado, no?
 Voc prometeu, mas eu ainda no ouvi Dueling Banjos!  ele reclamou.
 Continue ouvindo e ter uma surpresa.
  Est bem. Ei! Exijo o meu prmio, ouviu? At mais tarde.
Fletcher desligou, e Cilla abriu o microfone:
 Pessoal, j temos o vencedor desta noite. Trata-se do investigador Boyd Fletcher, que acaba de ganhar dois ingressos para o show de Madonna. Agora teremos uma 
seqncia de grandes sucessos dos anos 60, uma srie de comerciais e voltarei em seguida com seu pedido telefnico. Fique ligado. A sra. Fletcher sorria, encantada.
 Bem, no quero mais tomar seu tempo, querida. Eu s gostaria de dizer que ficarei muito contente em t-la como minha nora. Boyd  um rapaz maravilhoso e merece 
uma garota assim como voc. Fao votos que sejam muito felizes.
 Sra. Fletcher, no sei se haver casamento.
 Boyd me disse que voc teme pelo fato de ele ser policial. Entendo o que sente, querida. Eu, como me, tambm me preocupo. Porm, ele est feliz com a profisso 
que escolheu, e temos de respeit-lo. Eu o amo muito e o aceito exatamente como ele , sem cobranas. Pense nisso. Adeus, querida.
 Adeus, e obrigada pela visita, sra. Fletcher.
 O prazer foi meu.
Cilla terminou de beber o caf que Nick lhe trouxera, acendeu um cigarro e abriu o microfone:
 Aqui  Cilla O'Roarke pela KHIP, rdio Yankee do Colorado. So exatamente cinco minutos desta madrugada de sexta-feira. Nossas linhas telefnicas esto abertas 
para receber o seu pedido musical. Hoje no entanto, tenho um recado especial para um amigo que me escuta. Fletcher, esta aqui vai para voc. No se trata de Dueling 
Banjos, mas de Only You, com o conjunto The Platters. E oua: se o seu pedido ainda estiver valendo, negcio fechado. Aceito ser a sra. Boyd Fletcher. Incondicionalmente. 
Eu te amo. Aqui  Cilla 0'Roarke pela KHIP, rdio Yankee do Colorado.

FIM


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Digitalizado por Rosiane
